APOSTA NA TRADIÇÃO

Na holandesa Tefaf, estão em alta modernistas europeus e os mestres flamengos

ANTONIO GONÇALVES FILHO, MAASTRICHT, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2013 | 02h11

Apesar da crise, os europeus recuperam seu poder de compra na Tefaf (Fundação Europeia de Belas Artes), uma das mais concorridas feiras de arte do mundo, que abriu ontem para o público. E não só colecionadores particulares disputam raridades na feira holandesa de Maastricht, desde pinturas de Lucas Cranach (US$ 2 milhões) até uma tela de Modigliani (US$ 25 milhões), passando por um diadema de diamantes da Graaf de Londres avaliado em US$ 100 milhões. Na abertura, a diretora do Museu Mauritshuis de Haia anunciou a compra de uma rara tela do belga Paul Bril (1554-1626), que mostra São Jerônimo rezando ao lado de um rochedo. É um pequeno óleo (25,7 cm x 32,8 cm), de 1592, vendido por 750 mil libras pela Galeria Johnny Van Haeften, especializada em holandeses e flamengos. Os chineses, que costumavam comprar em Maastricht, desta vez não apareceram, resultado talvez da retomada da economia americana, responsável pela reconquista do lugar de honra que ocupava na Tefaf. A especialista no mercado, Clare McAndrews, da Arts Economics, apresentou na feira relatório em que destaca, ainda assim, os países emergentes (China e Brasil, em especial).

Segundo a economista, o mercado mundial de arte e antiguidades sofreu no ano passado retração de 7% em relação ao ano anterior (de € 46 bilhões para € 43 bilhões). Em 2011, a China alcançou o posto de principal mercado de arte pela primeira vez, respondendo por 30% das vendas globais, mas desacelerou em 2012 e o resultado já pode ser notado na feira de Maastricht, que segue até o dia 24 no Centro de Exposições. As comitivas chinesas foram substituídas por colecionadores europeus, principalmente holandeses e belgas. Muitos americanos também podiam ser vistos na abertura da Tefaf. Apesar da queda nas vendas globais, os EUA ainda ocupam a primeira posição no mercado global. Galerias como a Gagosian apostaram seu poder de fogo em Maastricht, ostentando telas de Picasso por US$ 8 milhões e uma paródica Vênus metálica de Jeff Koons por US$ 6 milhões.

O Brasil não tem uma só galeria representada em Maastricht, mas uma prova da ascensão do mercado brasileiro é a demanda cada vez maior pela arte construtiva dos anos 1960, em particular dos integrantes do histórico Grupo Frente. Um pequeno guache de Hélio Oiticica está à venda na Galeria Dickinson, de Londres, por US$ 350 mil, dez vezes mais que um desenho das mesmas dimensões do mestre Ivan Serpa. Um representante da Dickinson anuncia para novembro mostra com artistas brasileiros em Londres, após realizar uma individual de Oiticica em Nova York. Segundo ele, há grande procura por obras específicas do artista, especialmente os meta esquemas e outros trabalhos seus quando integrava o Frente. Em termos comparativos, Vik Muniz vale sete vezes menos no mercado holandês. Uma versão sua de O Semeador, de Van Gogh, está à venda por US$ 58 mil (cada uma das dez cópias). Uma bagatela, se comparado à fortuna pedida por Modigliani (a tela Noivo e Noiva, de 1915, US$ 25 milhões) citado no primeiro parágrafo.

Modigliani é apresentado com orgulho pela Landau Fine Art, conceituada galeria canadense que trouxe para Maastricht outras raridades, entre elas 3 guaches de Paul Klee dos anos 1930 (US$ 550 mil), 4 telas de Chagall, 7 desenhos eróticos de Picasso, e pinturas de Ernst e De Chirico. Pioneiros do modernismo europeu estão em alta, assim como os antigos mestres flamengos. Isso se explica pela instabilidade econômica que produziu volatilidade no mercado e leva colecionadores a apostarem mais nos consagrados do que nos contemporâneos. Esse segmento foi o que mais cresceu nos leilões mundiais, respondendo por 30% do mercado mundial, que registrou diminuição no volume de transações. Os colecionadores não estão dispostos a correr riscos na crise. E Maastricht é a prova maior dessa sabedoria.

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