Laílson Santos/ Divulgação
Laílson Santos/ Divulgação

Aposta certeira em Bruno de la Rosa

Cantor de 26 anos desponta com estilo de composição e timbre vocal que remetem a Edu Lobo e Chico Buarque

Lauro Lisboa Garcia, Especial para O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2013 | 02h15

Na democracia musical brasileira, o violonista, compositor e cantor Bruno de la Rosa surge como promessa bem confiável já no primeiro álbum, Vasta Cidade, Festa de Alguém (Kuarup/Sony), em uma modalidade que desmente em melodias, harmonias e letras um certo temor que paira pelo fim de um tipo de canção que predominou no século 20. Bruno, que faz show de lançamento do CD hoje no Estúdio (antigo Estúdio Emme), não tem parentes importantes no meio musical nem veio do interior (ele nasceu em Santos, morou no Chile, país de sua mãe, e vive há cinco meses no Rio), mas trilhou bem seu caminho sozinho, com dedicação e imaginação. E também tomou "muita chuva".

Ao contrário de outros compositores/cantores, não teve influência do gosto dos pais. Eles não tinham predileção por um tipo de música que se pode associar ao que Bruno faz hoje. Seu estilo de composição, o timbre vocal e o jeito de cantar remetem a Edu Lobo e Chico Buarque. Aos 26 anos, ele surpreende pela elaboração sofisticada de composição e até pela maturidade expressa na voz "de adulto", na contramão da tendência de cantoras quase trintonas que se comportam como meninas.

"Eu ouvia o que tocava no rádio, na televisão, era dentro de todo o senso comum que pudesse haver", diz Bruno. "Meus pais não tinham os hábitos de ler e comprar discos. Depois, comecei a comprar discos de Paulinho da Viola, de Vinicius de Moraes", lembra, "porque naquela época esses compositores eram mais 'de massa' do que são os que fazem esse tipo de música hoje."

A iniciação musical de Bruno como compositor, letrista e violonista deu-se ao despertar para a música e a poesia de Vinicius aos 9 anos. "Foi arrebatador e eu passei a querer ouvir tudo dele. Foi aqui que tive acesso ao Toquinho, a Baden Powell, Tom Jobim, Chico Buarque, Edu Lobo. Tanto é que foi por isso que demorei um pouco mais para chegar na escola mineira, pela qual também fiquei fascinado depois", conta. "Hoje, gosto tanto do Edu quanto do Milton. Edu está mais presente por ter vindo antes, minha necessidade de me expressar pela música foi embasada naquele início fundamental. Agora, não há nenhuma intenção em ser o novo Edu, o novo Chico, nada disso. Quero ver essas coisas todas bonitas que se fazem e passar isso da minha maneira."

Apesar da familiaridade com esse cancioneiro e de contar com o apoio dos pais, Bruno diz que demorou a entender como se processava internamente essa vocação para a música. "Não tinha ninguém da minha idade que gostasse daquele tipo de música, meus pais, embora gostassem, não tinham muito a acrescentar, na família não tinha ninguém que se interessasse por aquilo. Eu vivia em outro mundo e, por causa de Vinicius, entrei em outro mundo, em que estou até hoje. A partir dele, tomei gosto pelo violão, pela música, pela poesia e pela literatura."

Bruno chegou a pensar em trabalhar com informática, pela facilidade que tem de lidar com programação de computadores. Aos16 anos, passou a cantar em bares em Santos. Aos 18, compôs canções surpreendentes como A Grande Senhora e a instrumental Ventana, que estão em seu primeiro CD, produzido por Marcos Alma, parceiro em diversas composições.

Renato Teixeira faz dueto com ele na reinterpretação de A Estrada e o Violeiro (que o autor Sidney Miller lançou com Nara Leão), o que é bastante representativo, sendo que o veterano simboliza a estrada e o novato, o músico que tem muito a percorrer por esse caminho. Bruno também recuperou Um Grito Parado no Ar (Toquinho/Guarnieri), com a letra na íntegra e participação de Toquinho. O contato com o parceiro de Vinicius também foi um aprendizado para o jovem compositor e violonista, que em 2011 elaborou um songbook de Toquinho. "Até então, eu não lia nem escrevia partitura. Quando tive de fazer esse trabalho, corri para aprender e fui escrevendo na marra. Isso foi bom."

A cantora mineira Leopoldina, que participa da nostálgica Quintal e de Novela da Voz e canta com Bruno no show, afirma que desde o primeiro contato já sentia a essência da composição dele. "A gente sabe quando vê pérola", diz. "Esse disco é o resumo de uma obra de muitos anos e é o que vai perdurar." Os dois já têm planos de gravar um álbum inteiro juntos, dividindo composições e vocais. A estrada desse violeiro promete ser longa.

BRUNO DE LA ROSA

Estudio. Rua Pedroso de Moraes, 1.036,

Pinheiros, 2389-8920. Hoje, às 21h30. R$ 30.

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