Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

Após o Fashion Rio, a espera pela SPFW

Rio abre calendário fashion e revela: por mais livre que seja, setor ainda vive de tendência - e tem longo trajeto a percorrer

MARCO SABINO, ESPECIAL PARA ESTADO

15 de janeiro de 2012 | 03h11

A cada semestre do ano o circo da moda é armado e o grande elenco composto por profissionais e personagens envolvido com as demandas e requisições do espetáculo comparece às arenas fashion, gerando tanto fatos reais interessantes quanto abusados factoides criados por divulgadores mais afoitos que, sedutores, conseguem muitas vezes repercuti-los junto a noticiadores mais desavisados da mídia especializada.

Especializada? Bem, nem tanto assim, pois há algum tempo no Brasil a moda entrou firme no noticiário geral e no vocabulário do brasileiro comum que aparentemente sempre gostou de se enfeitar e decorar seu corpo. Que o digam os índios e índias que já no século 16 lançavam mão do urucum, penas e fibras vegetais para criar imagens que os caracterizasse e os distinguisse. E olha que naquela época não eram somente os portugueses que tentavam alimentar essa aparente necessidade básica humana que flerta com novos materiais e adora uma novidade. Não fosse assim, os franceses invasores não teriam sido tão bem-sucedidos ao comercializar o pau-brasil e animais silvestres trocando-os por espelhos, fitas, facas e outras quinquilharias admiradas pelos curiosos aborígenes.

Alguns países como a França mantiveram seu domínio cultural e, cinco séculos depois, a vaidade de boa parte da população nacional ainda sofre influência de nomes como Chanel, Christian Dior ou Yves Saint Laurent. E ela pode ser verificada nas imagens dos itens vendidos pela Dior com a recente estampa de camuflagem que respingou em coleções para o inverno nacional de 2011, nos vestidos tubos largamente difundidos por YSL nos anos 60 e que também invadiram as passarelas nacionais, como nas novas tonalidades dos esmaltes Chanel presentes nas unhas de mulheres abonadas que se podem dar ao luxo de pagar pelos frasquinhos.

O Brasil tem feito força para se libertar das amarras e tirania dos estilistas eleitos do Hemisfério Norte, mas apesar de ser a letra B do incensado Bric, ainda parece ter muita quilometragem a percorrer para se tornar um país influente e dominador culturalmente.

Há algum tempo, alguns jornalistas se rebelaram e decidiram excluir do vocabulário fashion a famigerada palavra tendência. Afirmavam que isso não mais existia e que a moda agora era livre. Sim, houve realmente uma expansão do universo da moda e pode-se dizer até mesmo que um indesejável excesso demonstrado pela quantidade de semanas de moda realizadas mundo afora foi detectado. Em 2011, a moda é, sem dúvida nenhuma, mais livre, mas as didáticas tendências não morreram e estiveram presentes em muitas coleções apresentadas durante o Fashion Rio e o Fashion Business que acabam de acontecer no Rio.

Climas étnicos, resgates do guarda-roupa masculino, silhueta casulo, florais, xadrezes, saias longas ou em comprimento mídi, macacões, cores fortes como o laranja, assimetrias, uso de rendas e transparências foram algumas bolas já cantadas em coleções internacionais desde o início do ano passado, e confirmadas por várias coleções apresentadas no balneário carioca. Não foram necessariamente cópias, mas uma espécie de canto hipnotizante da sereia que muitas marcas e estilistas não conseguiram deixar de se levar. Assimilaram, adaptaram, refizeram, deram outros nomes às tendências, contaram histórias fantásticas e apresentaram as peças a um público que nem sempre é bem informado sobre o que acontece no universo da criação, mas que se mostra altamente interessado em brindes, flashes, no jogo de ver e ser visto, além de ser viciado na inebriante atmosfera fashion. Os estilistas e marcas, por sua vez, talvez por antever algum êxito comercial das grifes que possuem divulgação internacional garantida em blogs, sites, jornais, revistas e redes de comunicação, se jogaram em suas apostas.

Tal êxito, contudo, não depende necessariamente de desfile ou presença em alguma semana de moda que ocorre em várias cidades do País ou fora dele. O custo de um desfile é bem alto e somente o retorno midiático não ajuda a pagar empréstimos, altas faturas de cartão de crédito e outras obrigações financeiras. O sucesso está mais sujeito à concretização de boas ideias que tenham boa repercussão, artigos com distribuição eficaz e, atualmente, mais do que nunca, preço bom e justo.

No campo dos lançamentos para o inverno 2011, as propostas que envolveram matérias-primas consagradas, como as dos jeans ou as de reproduções de tapeçarias que contam com uma aceitação milenar, não deixam de atuar como valores seguros. É também interessante notar que em algumas coleções a sustentabilidade continuou em pauta ao lado de novas tecnologias que permitiram a evolução do trabalho de muitos profissionais.

Mas é sempre bom lembrar que Miami está logo ali e que as redes de fast-fashion pululam nos shoppings. Além do mais, ao se examinar editoriais de moda realizados nas ruas, e publicados na internet ou na mídia impressa, observa-se que os fotografados revelam, em sua grande maioria, serem adeptos de artigos de marcas com preço mais camarada existentes ou não no Brasil. Todos eles, entretanto, consideram-se estar ligados ao universo da moda de alguma forma que é, na verdade, muito mais abrangente que o famigerado mundinho descrito por alguns jornalistas.

A moda é estratificada socialmente e assim deverá ser olhada e comentada. Não adianta assistir a desfiles de alta-costura e pensar que tais extravagâncias sejam acessíveis à grande parte da população mundial. Francesas não fazem fila na porta da loja Chanel, situada na Rue Cambon, para adquirir o último modelo que o alemão Karl Lagerfeld lançou para a maison. E nem todo mundo pode se enrolar num foulard da Hermès. Ou calçar um par de Louboutins...

No Brasil, entretanto, ao se falar de moda, mistura-se tudo no mesmo saco e invariavelmente a conversa termina no figurino de algum personagem de novela que, muitas vezes, é seguido por uma determinada classe social, é vendido em lojas populares sem ligação ao universo das principais semanas de moda, mas que é amplamente discutido em grupos elitistas.

Não, não foi o personagem Crô que desfilou para a grife paulistana. Tampouco foi a Teodora que o acompanhou. Foram os atores Carolina Dieckmann e Marcelo Serrado que, provavelmente muito bem pagos, desfilaram uma coleção básica, acertada, mas nem um pouco fashion. Acrescentaram algo ao estilo da marca? Obviamente que não. Cumpriram apenas a sua função de vetores da volátil cultura de celebridades que vem assolando e preenchendo tantas páginas de parte da história dos séculos 20 e 21.

O fenômeno da fast-fashion, que pode até ser considerado injusto por muitas razões, é uma realidade e quem tem acompanhado os cadernos de economia obviamente percebe que deve vir chumbo grosso por aí. Talvez por isso ou até mesmo por esgotamento, algumas grifes nacionais consideradas fortes tenham anunciado o cancelamento de suas apresentações nas semanas que reivindicam o título de calendário oficial da moda nacional.

As notícias reveladas pelas assessorias de tais eventos são, contudo, promissoras. Os números são sempre robustos e ascendentes. E, espertos, estão sempre se permitindo longos prazos a serem cumpridos em décadas. Mas, qual seria o mistério afinal? Novos tempos, novos anseios, novas fórmulas, novos talentos? Tais especulações não deixam de ser procedentes quando se trata de um universo tão volúvel quanto o da moda.

Tudo o que sabemos sobre:
Fashion Rio

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.