Após o êxtase, a técnica diabólica

Nós, habitantes do século 21, infelizmente perdemos a capacidade de nos encantar pelas sonoridades do século 18. A dramaticidade e a grandiosidade de uma sinfonia de Haydn ou de um concerto de Mozart soam insossos para nossos ouvidos poluídos. Quem anotou este "rebaixamento" de percepção contemporânea foi Charles Rosen. Tomo emprestada sua observação, que cai como uma luva para o concerto de segunda na Sala São Paulo, pelo Mozarteum.

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2010 | 00h00

O maestro Thomas Fey e os músicos da Sinfônica de Heidelberg conseguiram o milagre de nos devolver a sensibilidade de nos seduzirmos pela música gaiata, brincalhona e genial de Haydn em todo o seu esplendor refinado. Afinal, ele construiu a moldura da sinfonia. Eles praticam a música historicamente informada, que tenta recriar no palco as sonoridades e práticas de interpretação do século 18. A sinfonia n.º 82 recebeu uma leitura brilhante: cordas sem vibrato, fraseado arisco, andamentos acelerados.

O célebre concerto n.º 21 para piano de Mozart é apelidado "Elvira Madigan" porque o seu andante foi usado como trilha do filme de 1967 do sueco Bo Widerberg. E recebeu em seguida uma bela execução. Competente, o pianista chinês Haiou Zhang não comprometeu. Arrancou até, no cinematográfico Andante, suspiros e acompanhamento em "bocca chiusa" na plateia. Muito aplaudido no final, Zhang tratou de jogar uma definitiva pá de cal no universo sonoro delicado do século 18 tal como Fey e os músicos haviam construído até ali. Na primeira volta ao palco para agradecer, atacou o bis pessoal. Foi como encarar uma feijoada após uma salada verde com filé de peixe. Aí adentramos o gramado do circo típico dos pirotécnicos virtuoses, calcados na figura de Franz Liszt, o primeiro a magnetizar as massas com sua técnica diabólica (Zhang simplesmente triturou a Rapsódia Húngara n.º 2).

Pecado. Este é o maior pecado dos pianistas chineses, Lang Lang à frente: tratam a música como pura performance atlética. É só proeza; já não é mais música. O intervalo não foi capaz de desentupir os ouvidos. Por isso, foi frustrante a segunda parte. Nem falo da burocrática abertura da ópera Les Horaces, de Salieri, anunciada como "importante primeira audição no Brasil" (não fosse Amadeus, peça e filme dos anos 80 em que Peter Shaffer imagina que ele envenenou Mozart, Salieri continuaria ignorado; afinal, ser professor de um gênio como Beethoven não o transforma num deles).

Quem mais sofreu com o equívoco de Zhang foi a Sinfonia n.º 92 de Haydn, obra-prima que ganhou o apelido porque ele a regeu em Oxford nos anos 1890. As repetições, por exemplo, que soavam tão delicadas na sinfonia 82 menos de uma hora antes, agora chegavam tediosas aos ouvidos. Um crime estético, sem dúvida. Quero acreditar que os excepcionais músicos da Sinfônica de Heidelberg e o formidável regente Thomas Fey não sabiam do descabido extra de Zhang.

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