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Após carta, Woody Allen não comentará mais acusação de abuso da filha

Dylan Farrow voltou a acusar o cineasta de mentir e distorcer a verdade após publicação no 'NYT'

Lúcia Guimarães , O Estado de S.Paulo - Atualizado às 20h20 para ampliação do texto

08 de fevereiro de 2014 | 17h35

NOVA YORK - A esperada resposta de Woody Allen, negando a acusação de abuso sexual  feita pela filha adotiva Dylan Farrow, é, segundo o diretor, a última vez que ele se manifesta em público sobre o assunto mas não encerra o debate que a mídia americana reviveu depois de mais de duas décadas. Em poucas horas, na sexta-feira à noite, Dylan Farrow, respondeu com nova carta ao website da revista Hollywood Reporter, em que acusou o pai adotivo de mentir e distorcer fatos e rebateu várias afirmações contidas na reposta de Allen.

A edição do New York Times deste domingo traz, na página de opinião editorial, um raro direito de resposta  concedido ao cineasta nova-iorquino. No artigo, Allen acusa sua ex-namorada Mia Farrow de plantar por vingança a alegação de abuso na cabeça de Dylan, que tinha 7 anos no dia do suposto incidente, em agosto de 1992. A reação às declarações de Dylan Farrow e Woody Allen continuam intensas na imprensa americana e sobretudo na mídia social.

Desde que o colunista do Times Nicholas Kristof cedeu seu blog para publicar a carta aberta  de Dylan Farrow, no dia 1o de fevereiro, o caso investigado pela polícia de Connecticut sem que Allen fosse formalmente acusado explodiu num contexto muito diferente do original, o da mídia digital. Milhares de comentários inundaram a página do blog de Kristof, alguns com ataques violentos ao diretor, que concorre este ano a um Oscar de melhor roteiro pelo filme Blue Jasmine.

O comitê editorial do jornal Los Angeles Times, contatado em janeiro por Ronan Farrow, o filho biológico de Mia Farrow e Woody Allen, se recusou a publicar a carta de Dylan e, em seguida, o comitê editorial do New York Times tomou a mesma decisão. Kristof, que é amigo pessoal de Mia e Ronan Farrow, publicou a acusação no seu blog. A decisão provocou uma onda de críticas que saíram em outra página no site do Times, a da Editora Pública, Margaret Sullivan. Ela tem um mandato independente para monitorar o jornal e concordou com inúmeros leitores, questionando a propriedade ética de publicar uma acusação tão grave sem nenhum fato novo ou nova reportagem.

Comentaristas, jornalistas e internautas publicaram no sábado trechos de documentos da investigação por especialistas do Yale-New Haven Hospital que concluíram que Dylan não foi abusada pelo pai e da decisão do juiz de Nova York Elliott Wilk, que negou a Woody Allen a custódia de seus três filhos com Mia Farrow, o acusa de deficiências como pai e sugere credibilidade nas acusações de Mia Farrow.

A jornalista Maureen Orth, a primeira a detalhar na revista Vanity Fair, em 1992, as acusações de comportamento impróprio de Woody Allen com a filha adotiva e autora também a reportagem de capa da mesma revista em que Dylan acusa o pai de molestá-la, na edição de novembro do ano passado, publicou na sexta-feira uma lista descrita  por ela como dez fatos inegáveis sobre sobre Woody Allen e as alegações de abuso sexual.

Depois de uma semana de depoimentos na primeira pessoa e transcrições de documentos deste caso que começou há 22 anos, os fatos continuam a ser tratados como argumentos a favor e contra Woody Allen, prova ou desmentido da credibilidade de Dylan Farrow.

Há uma expressiva hostilidade ao diretor por parte de mulheres jovens, como a atriz e criadora da série Girls, Lena Dunham, que tem 1.4 milhões de seguidores no Twitter e foi uma das primeiras a divulgar a carta aberta de Dylan Farrow. "A geração com mais de 40 anos já viveu este ciclo," disse ao Los Angeles Times o biógrafo de Allen, Eric Lax. O público mais jovem, no entanto, teve contato com a obra de Allen por filmes mais recentes como Ponto Final (2005), Vicky Cristina Barcelona (2008) ou Meia Noite em Paris (2011), protagonizados por estrelas conhecidas de sua geração, como Scarlet Johansson ou Owen Wilson. É também uma geração acostumada a lidar com maior franqueza com questões de abuso sexual e estupro.

Se os internautas se lançaram com paixão à defesa de Dylan Farrow, ao ataque contra Woody Allen com base em informações limitadas, a impossibilidade de estabelecer o que aconteceu não parece desanimar comentaristas e profissionais da mídia.

Jornalistas respeitados decidiram se manifestar sobre a culpa ou a inocência do diretor, numa demonstração que perturbou Dahlia Lithwick, da revista digital Slate. Uma das mais conhecidas jornalistas na área de Direito Constitucional lamentou num artigo, um ambiente em que não emitir opinião diante de um caso inconclusivo não é mais uma opção. Lithwick denuncia o "perfeito narcisismo" de acreditar que nós somos as únicas pessoas no tribunal da opinião pública cuja opinião tem importância.

Dylan Farrow, que tem 29 anos e passou a vida longe da atenção da mídia, termina sua nova carta dizendo: "Não deixarei que enterrem a verdade nem vou ser silenciada." Mas, ao menos no tribunal da opinião pública, ela perdeu o único outro interlocutor que pode desenterrar a verdade. Seu pai adotivo promete ficar em silêncio daqui para frente.

 

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