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Apoquentação do Pokémon

Algo vai mal se você prefere digitar nas teclinhas e não nas prendas da pessoa amada

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2016 | 02h00

Não sou tão arguto assim, mas houve um momento, faz uns dias, em meio à caminhada pelo Parque da Água Branca, em que saquei que algo inusitado se passava. Nem precisava, na verdade, ser minimamente arguto para constatar que dezenas, talvez centenas de jovens, sentados nos bancos ou de pé na pista onde eu me esfalfava, quase todos em silêncio, tinham os olhos cravados na telinha do smartphone. 

Faz tempo, eu sei, que o mundo se acha invadido por gente mesmerizada por esse pequeno retângulo luminoso. O que me impressionou, naquela manhã, foi a unanimidade: não havia, no parque, mais que meia dúzia de adolescentes que não estivessem monogamicamente entregues à manipulação de seu celular. Bem poucos usavam o telefone para telefonar. Mesmo a compulsão do selfie parecia ter amainado. Como a galera, aqui e ali, se organizava em rodinhas, cheguei a imaginar que professores de um colégio houvessem programado para o dia alguma atividade ao ar livre.

A explicação me veio após a caminhada, lendo o jornal na padaria – também ela, aliás, repleta de meninos e meninas abduzidos por mais uma irresistível miçanga da informática: o Pokémon, aplicativo que horas antes fizera sua entrada oficial nos celulares brasileiros. 

Tratei de me informar sobre o novo jogo, cujo objetivo, me explicaram, consiste em caçar e administrar Pokémons, pequenos seres dados a se esconder em lugares os mais inesperados. Não que pretenda aderir a essa febre, eu que até por incompetência não sucumbi a nenhuma das anteriores. Nesse terreno, como em tantos outros, procuro me guiar por duas preciosas lições de vida, prodigalizadas por poetas da maior grandeza. 

Uma delas me foi transmitida por Otto Lara Resende, que por sua vez a recebeu de Manuel Bandeira: é preciso que cada um de nós saiba escolher suas próprias ignorâncias. Entre as minhas, nem preciso dizer, incluem-se joguinhos como o Pokémon.

A outra lição me veio diretamente de João Cabral de Melo Neto. Numa provocação primária, perguntei a ele por que, com tantos elogios que fazia à poesia concreta, nunca tinha escrito um poema nessa linha. O poeta tomou a brincadeira a sério, dando-se à pachorra de repisar o óbvio: ninguém está obrigado a aderir a uma corrente só porque a admira. Impertinente, voltei à carga, sacando exemplos de modernistas da primeira hora, o citado Bandeira e Cassiano Ricardo, que para lá de veteranos se aventuraram pelo concretismo. João Cabral encerrou o assunto com uma declaração a que não faltou sabedoria, além do conhecido cacoete com que ele pontuava suas falas, comendo a metade de um “e” duplo: “Eu não acho, comprende?, que o camarada deva pintar os cabelos literariamente, comprende?”.

Comprendo – e decido: não contem comigo para pintar os cabelos interneticamente. Recuso-me a proceder como certa senhora que conheci em Minas, a qual, na vigência do movimento hippie (o “hippismo”, dizia ela), achava-se moderna a mais não poder: “Sou para-a-frente”, proclamava. Longe de mim a veleidade de recauchutar a imagem no intuito de rejuvenescê-la. Cônscio de minhas limitações – mas sem um pingo de orgulho –, admito que sou um desses seres antediluvianos que digitam com um dedo só, espécie de saci da digitação, cutucando as teclas do celular com o indicador em vez de premi-las com os polegares. Se bobear, chamo condicionador de creme rinse.

Sem prejuízo do desconfiômetro, porém, não abro mão de ao menos saber do que as pessoas estão falando. Embora tenha idade para isso, não quero ser como aquele velhote, ainda mais antigo que a piada, que, indagado pelo amigo se utilizava WhatsApp ou Instagram, declarou preferência pelo Dorflex.

Na busca de um aggiornamento básico, pretendo recorrer a algum de meus consultores informais, gente jovem e safa, caso não estejam todos ocupados com a novidade. Por ora, limito-me a observar o fenômeno. No parque, em meu trote trôpego, interpelo aqui e ali alguns dos que vejo entretidos com seus celulares: “Pokémon?”. Quase sempre o interlocutor, olhos grudados no visor, não faz mais que balangar afirmativamente a cabeça, como a lembrar-me que não sou sequer um Pokémon.

Nenhuma prevenção liminar ante novidades em geral, e mesmo esta, em particular, mas confesso que me bate um pouco de aflição ao ver casais de jovens namorados entregues a seus celulares com uma paixão que parece não deixar espaço para nenhuma outra. Acho que alguma coisa não vai bem quando, em pleno fogaréu hormonal da adolescência, você prefere digitar as teclas do celular em vez das prendas tão apetecíveis da pessoa amada. 

Será esse absorvente aparelho um novo tipo de anticoncepcional? Estaremos ingressando numa era em que vai prevalecer o sexo vocal? Bites em vez de voluptuosas mordidinhas. Fosse no dia da Criação e Eva não seduziria Adão com a maçã, e sim com o desafio de caçar, não pontos G, mas Pokémons. 

Com ou sem joguinhos, convém não perder de vista o Carlos Drummond de Andrade da Elegia 1938: “Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear”. E olha que o poeta nem tinha celular. 

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