Apontamentos de um percurso amoroso

A dedicatória de Lúcia Moreira Salles a seu marido Walther Moreira Salles (1912- 2001) no livro A Portrait of Oscar Wilde - o extraordinário volume com fac-símiles de manuscritos raros do mais maldito dos escritores da língua inglesa - reflete a paixão pela leitura que uniu a ex-manequim gaúcha da Chanel ao mineiro que deu origem em Poços de Caldas ao futuro Unibanco e por duas vezes serviu como embaixador do Brasil em Washington. Escreve Lúcia, em inglês, naturalmente: "Em memória do meu querido Walther, com quem compartilhei o respeito por belos livros e o amor pela literatura".

Cynthia Garcia, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2010 | 00h00

É assim que ela convida o leitor a mergulhar numa série de cartas, contos e poemas escritos na caligrafia irregular do autor irlandês que faziam parte da coleção Moreira Salles de manuscritos literários. Os de Wilde tinham sido vendidos em um leilão da Sotheby"s de Londres em 1952, e seguiram com paradeiro desconhecido até o casal resgatá-los, no final dos anos 1980, também na capital inglesa. A redescoberta da preciosidade foi celebrada nos meios literários da Inglaterra e dos EUA. O mesmo ocorreu quando os originais doados por ela à Morgan Library & Museum, de Nova York, foram exibidos publicamente, três meses após a morte da ex-modelo, ocorrida em 24 de janeiro de 2009. "Ela recebeu várias ofertas, mas se decidiu pela Morgan porque Walther era bibliófilo e banqueiro como Pierpont Morgan, por quem nutria admiração. A instituição possui um grande acervo de manuscritos de Oscar Wilde e os do casal Moreira Salles complementaram o arquivo", explica o editor argentino Juan Pablo Queiroz, coordenador do projeto do livro, que tem pesquisa e comentários do historiador inglês Merlin Holland, único neto vivo do escritor.

Ler Oscar Wilde (1854-1900) em sua própria caligrafia, manuseando um livro com o grau de requinte que certamente teria o aval de um esteta como ele, e mergulhar na intimidade de "The Wilde" ou "The Oscar", como o egocêntrico irlandês se autodenominava, são prazeres impagáveis. "Não optamos por uma obra estritamente fac-similar; introduzimos imagens, comentários e transcritos dos originais para facilitar a leitura. Lúcia supervisionou tudo, mandou reproduzir até as marcas d"água dos originais, num nível de requinte que hoje não se vê - e era frequente em tudo o que ela fazia", sublinha o editor argentino. Concebido em grande formato (30 cm x 38 cm), com 185 páginas costuradas à mão, o livro - adquirido nos Estados Unidos por amigos do casal Moreira Salles como Marisa Berenson, Gwyneth Paltrow, David Rockefeller, Valentino e Henry Kissinger - foi impresso em papel Fedrigoni Tintoretto na Stamperia Valdonega, em Verona.

Com título em prata, a encadernação da Legatoria Rigoldi de Milão vem acondicionada em uma caixa forrada de tecido em tom de púrpura de Tiro - idêntico ao selecionado pelo autor para a edição original da peça Salomé (a ilustrada por Aubrey Beardsley viria depois), texto que o maior nome do Movimento Estético escreveu, em 1891, para outra mulher fascinante que cruzou sua obra, Sarah Bernhardt. "Segundo Merlin, púrpura era a cor preferida de seu avô. Coincidentemente, Coco Chanel presenteou Lúcia com a edição original de Salomé, em púrpura; era o trabalho de Wilde que ela mais gostava", atesta Queiroz. Antes da encadernação, a Valdonega enviou as 525 páginas que encerram o volume para Lúcia e Holland assinarem em Nova York. Quando faltavam dois meses para a edição ser concluída, Queiroz solicitou os exemplares de número 1 e 2, pois temia que Lúcia, já doente, não visse o livro pronto. Ela recebeu a obra dez dias antes de morrer.

Prisão. Não foi sem surpresa que, em 2006, Merlin Holland recebeu em sua casa na Borgonha o telefonema de um argentino, que dizia ter em sua posse manuscritos que pertenciam a uma brasileira que preferia se manter anônima. Foi Queiroz mencionar a encadernação em couro marroquino vermelho com brasão dourado dos Queensberry para o historiador lembrar que vira, em 1998, uma igual contendo a primeira edição da peça A Duquesa de Pádua, escrita pelo avô em 1893. Ironia do destino, ambos os originais - o que estava em poder do editor argentino e o visto nos anos 90 por Holland - haviam sido encadernados por Francis, o 11.º marquês de Queensberry, cujo avô, o nono da linhagem ilhéu, vinha a ser pai de Lord Alfred Douglas, ou melhor, Bosie, o narciso que entrou para a história da literatura com o ridículo apelido.

Tio de Francis, aquele louro nobre de olhar angelical arrebatou o coração de Wilde, que, por causa dele, largou Constance, sua bela mulher - que por sua vez fugiu com os filhos Cyril e Vyvyan (pai de Merlin) para Gênova, mudando o nome da família para Holland. Contra a relação dos amantes partiu o truculento e poderoso pai do rapaz. Às calúnias do marquês, Wilde respondia com seu habitual sarcasmo, mas a notória arrogância do escritor subestimou a força do inimigo ao tomar a decisão que arruinaria sua vida: processar Queensberry. Um escândalo sem precedentes. O maior dramaturgo da Inglaterra vitoriana foi condenado a trabalhos forçados e encarcerado de 1895 a 1897.

Ao ser posto em liberdade, somente o jornalista canadense Robert Ross, o fiel Robbie, seu primeiro e último amante, o aguardava do lado de fora da prisão. Os dois embarcaram para a França e um humilhado Oscar Wilde passou a assinar Sebastian Melmoth. Para ajudá-lo, Constance expedia-lhe dinheiro, mas, como os encontros com Bosie não cessavam, ela decidiu cortar a remessa. Ao morrer, três anos mais tarde, Oscar Wilde foi enterrado quase como indigente. Em 1905, Ross transferiu o corpo do amigo para o Cemitério Père Lachaise, em Paris, com os royalties da publicação de De Profundis, seu mea-culpa. E Bosie? Acabou sustentado por aquele sobrinho de nome Francis, que encadernou a joia descoberta por Walther e Lúcia.

Leituras. Nascida Lúcia Regina Tomasoni Curia, em Porto Alegre, de família classe média de imigrantes italianos, a moça tinha na cabeceira O Rouxinol e a Rosa, de Oscar Wilde, e sonhava ser bailarina. Ao enviuvar, a mãe não teve como pagar as aulas de dança. Ela, então, assumiu a persona Lucia (como a mãe lhe chamava, à italiana, desde menina) e se transformou na musa das passarelas de Chanel e Valentino, nos anos 1960, na Europa.

Em 1986, converteu-se na senhora Walther Moreira Salles; foi a terceira e última esposa do banqueiro embaixador. Em 2009, ao morrer de câncer, em São Paulo, ainda bonita aos 69 anos, na condição de milionária, viúva de um grande homem e mecenas da literatura inglesa, a imprensa americana, seduzida por sua trajetória e gesto final, rebatizou-a LMS, à maneira de ícones como MM, JFK e a também milionária CZ Guest, sua melhor amiga, que morreu em 2003.

"Foi Coco Chanel quem introduziu Lúcia nos clássicos franceses", revela Queiroz. "Ela lia também os argentinos Borges e Bioy Casares, e autores contemporâneos como o turco Pamuk e o sul-africano Coetzee, além, claro, dos clássicos brasileiros. Em suas visitas a Buenos Aires, íamos a sebos e ficávamos horas conversando nos velhos cafés da Avenida Corrientes", lembra o editor, representante da nova geração de uma família de bibliófilos. Em 1990, aos 19 anos, ele fundou, na capital portenha, a Editora Brambila com o sócio Tomás de Elia. Sua especialidade são edições limitadas, como The Great Estancias (1993), Evita, An Intimate Portrait of Eva Perón (1997) e Residências do Rio de Janeiro (2003), todos coeditados pela prestigiosa Rizzoli de Nova York, onde, em 1998, Queiroz conheceu a brasileira. "Éramos vizinhos de bairro, ela morava em River House, um landmark art déco na Rua 52." Ao fotografar a cobertura de Lúcia na Avenida Atlântica, em 2003, para o livro de residências cariocas, a amizade estreitou. Dois anos depois, Queiroz montou, a pedido dela, o "Projeto Oscar Wilde", convidando Merlin Holland e o designer gráfico americano Marcus Ratliff para participar da edição.

No capítulo 7 do livro, há uma carta de Oscar para Bosie. Curta, mas não menos importante: trata-se de uma das primeiras do relacionamento a não ser queimada pelo jovem dândi. Nela, o escritor menciona querer viajar com o lover "para um lugar quente e colorido". Quando surgia o assunto do epistolar desejo, Lúcia indagava-se: "Será que Oscar Wilde pensava no Brasil?"

CYNTHIA GARCIA, JORNALISTA E ESCRITORA, É FORMADA EM HISTÓRIA DA ARTE E ARTES

PLÁSTICAS PELO FLEMING COLLEGE FLORENCE (FLORENÇA, ITÁLIA)

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