Apocalipse ontem

NOVA YORK

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2010 | 00h00

Os minutos que precederam o gesto de digitar esta primeira frase foram preenchidos da seguinte maneira: coloquei água na chaleira para fazer um café. Mudei de ideia e troquei a cafeína por um chá de ervas. Chequei as mensagens no Blackberry. Peguei o jornal, li dois parágrafos da primeira página e fui molhar as plantas. Abri os e-mails no laptop e convidei uma amiga da Califórnia para fazer um programa no fim de julho. Li as últimas manchetes no Google. Ajustei a altura da cadeira. Levantei e fiz um exercício contra a parede para aliviar tendinite. Conferi minha lista de compras da semana no mercado orgânico online, mesmo sabendo que a encomenda já estava a caminho. Tentei sintonizar a única rádio de música clássica desta metrópole, mas o sinal era fraco. Troquei de estação e a voz do entrevistado, o escritor Clay Shirky, veio aplacar minha ansiedade: "A abundância provoca mais ruptura do que a escassez."

Shirky refere-se à abundância de informação, tema de seu livro Cognitive Surplus, Creativity and Generosity in a Connected Age (Superávit Cognitivo, Criatividade e Generosidade numa Idade Conectada). O autor tomou a contramão de uma população crescente de profetas do apocalipse tecnológico. Como o moribundo computador Hal de 2001, Uma Odisséia no Espaço, críticos alertam que nós estamos perdendo a cabeça.

O mais recente é Nicholas Carr, autor de The Shallows, What the Internet Is Doing to Our Brains (Os Rasos, O Que a Internet Está Fazendo com Nossos Cérebros). Ninguém duvida que a internet faz algo com o nosso cérebro, assim como a introdução do alfabeto faz, na infância.

Mas há uma moralização do debate e com ela vem um curto-circuito da interpretação de dados. Carr culpa a tela do computador, com suas múltiplas janelas de informação, pela nossa incapacidade de concentração. Ele diz que estamos arcados sob o excesso de peso cognitivo e logo não vamos mais ler livros. Sócrates ia ficar feliz com a notícia. Ele temia que a invenção dos livros fosse tornar a alma desmemoriada.

Quase toda tecnologia provoca perdas e se estabelece por causa dos ganhos humanos, não pela virtude tecnológica. O mais otimista Clay Shirky tem outra tese: a internet estaria restaurando o nosso gosto pela leitura sabotado por décadas de ruminação passiva diante da TV. O argumento da internet como uma imensa galáxia com 1 centímetro de profundidade não desanima Shirky. Ele concorda que a distração se tornou nociva e epidêmica, mas faz uma analogia com o século 17, quando foi necessário alfabetizar as crianças para terem acesso ao livro impresso. Vai ser necessário disciplinar a geração digital.

Steven Pinker, o grande especialista em psicologia cognitiva, acaba de jogar mais água fria nas expectativas de Juízo Final. Num artigo editorial no New York Times, escrito com o habitual senso de humor, Pinker pediu, calma, pessoal, a informação toda não está sendo armazenada no nosso pâncreas. Pinker lembra que décadas de TV e videogames coincidiram com a elevação dos números em testes de Q.I.

Se a mídia eletrônica estivesse baixando o nível da inteligência, o conhecimento científico não estaria vivendo uma Renascença de novas descobertas, argumenta o psicólogo e professor de Harvard. Ele acredita que a internet emplacou em parte porque o conhecimento humano cresce de maneira exponencial. E compartilha da receita de Clay Shirky. Depois do excesso, vem a ressaca e as soluções para lidar com o problema incluem a simples autodisciplina.

Mas mesmo pessimistas como Nicholas Carr têm argumento de sobra ao fazer crítica cultural. Todo o lixo que veio com a internet, da explosão da pornografia online aos religiosos muçulmanos recrutando adolescentes para atentados suicidas??, mesmo não sendo metabolizado pelo pâncreas, tem o potencial destrutivo que justifica o esforço para ser exposto e combatido.

Se os pais são enérgicos para desligar a TV na hora do dever de casa dos filhos, por que não terão determinação para retomar controle da própria rotina? Ufa, consegui terminar esta coluna depois de fechar a janela do Gmail.

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