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Apocalipse

O Jornal da República dispunha de um timaço, mas durou apenas 5 meses

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2018 | 02h00

Parecia doideira, e talvez fosse mesmo: trocar a redação da Veja, então ótimo lugar para fazer bom jornalismo, por um jornal que àquela altura nem nome tinha, e mais, pelo mesmo salário. Trocar trabalho pesado, porém semanal, por insana pauleira diária. Mas como resistir à tentação? A ditadura, em meados de 1979, dava sinais de arrefecer. Vinha aí uma anistia, não a de nossos sonhos, mas suficiente para trazer de volta os exilados. Bom momento, viu o Mino Carta, para criar um jornal ágil, moderno, disposto a refletir novos tempos. 

Para nós, jornalistas, havia um atrativo adicional, o de trabalhar num esquema diferente do que então imperava – impera ainda – nas redações, nas quais costuma haver abismo entre a reportagem e a edição; cada um de nós poderia atuar em todas as etapas do processo, da concepção da pauta ao fechamento das matérias. E nada daquele tom uniforme, impessoal, para o qual imaginei um dia um nome: vejez – velhice, em espanhol.

Num tempo em que os jornais iam às bancas seis vezes por semana, o Jornal da República não circularia às segundas-feiras – o que o desobrigaria de cobrir as vastidões do domingo futebolístico. Um só profissional da área daria conta do recado; e em nossas páginas, imaginou alguém, o futebol conviveria com uma federação de esportes minoritários, cujos adeptos, somados, supostamente não fariam feio num cotejo com as multidões futebolísticas. 

Jamais viemos a saber quais modalidades – críquete? patinação? badminton? – integrariam a tal miuçalha desportiva. Até porque o Jornal da República, formatado para não circular às segundas, acabou por estrear justamente nesse dia da semana, pois assim convinha ao tradicional diário paulistano em cujas oficinas era rodado. Posso ainda ver o Tonico Duarte, a cuja pessoa se resumia nossa editoria de esportes, grudado no rádio nas tardes de domingo, a garimpar substância para relatos aos quais não poderia faltar a avaliação de cada jogador. Tornou-se ele, assim, um caso singular de repórter de futebol que não nunca ia ao estádio.

No começo, tudo era esperança numa equipe que, comandada por Mino Carta, reunia profissionais como Claudio Abramo, Aloysio Biondi, Ricardo Kotscho, Roberto Pompeu de Toledo, Hélio Campos Mello (ainda exclusivamente fotógrafo) e Nirlando Beirão, a quem devo o convite para ser subeditor de Cultura e Esporte, numa redação espartana, porém animada, no 11.º de um prédio no início da Rua da Consolação. 

A primeira edição do Jornal da República circulou, fez agora 39 anos, em 27 de agosto de 1979 – um dia antes da promulgação da anistia. Na véspera, exaustos, descemos todos ao 8.º andar para um coquetel a que não faltaram representantes da alta finança. Ao ver ali Olavo Setúbal, dono do Itaú, e Severo Gomes, da Tecelagem Parahyba, o já citado Tonico Duarte salmodiou, provocando gargalhadas: “O Senhor é meu pastor: / temos banco e cobertor”. O n.º 1 chegou ali às 2 da manhã. Nas horas seguintes, enquanto os 70 mil exemplares da estreia sumiam das bancas, o diretor responsável, Armando Salem, entrou jubiloso na redação e anunciou que podíamos, sem risco, abrir crediário por aí.

Ainda bem que não o fiz, pois dias mais tarde o barco começou a fazer água: o sócio de Mino na aventura, Domingo Alzugaray, da Editora Três, farejou iceberg à frente e saltou fora. A princípio escondida de quem não pertencesse ao primeiro escalão, a notícia de que as coisas iam mal não demorou a correr, e ao longo dos meses acompanhamos, no início apreensivos, depois à beira da raiva e do pânico, as tentativas do nosso capo de remendar a desmilinguida embarcação. Nas semanas finais, não havia um dia em que o repórter Chico Malfitani não se empoleirasse numa mesa e dali cocoricasse – para então se ouvir um coro: “O galinho cantou!/ – e o jornal não acabou!”.

Antes fosse assim. Mas não: em apavorante contagem regressiva, a circulação não parou de despencar, e perto do fim patinava nos 3 ou 4 mil exemplares diários, tiragem para a qual talvez fosse mais indicado o uso de um mimeógrafo.

A última edição do Jornal da República, de n.º 124, circulou em 22 de janeiro de 1980. A notícia, na véspera, ainda não tinha sido comunicada à redação quando um telex de Brasília trouxe repercussões do fechamento do jornal. No outro sentido do verbo, coube a mim fechar a última página, por ironia dedicada a um acontecimento tantas vezes anunciado e desmentido – a primeira visita de Frank Sinatra ao Brasil. Estava eu ainda às voltas com título e legendas quando Mino reuniu a redação para um comunicado, numa sombria assembleia que o fotógrafo Wagner Avancini registrou para jornal nenhum. 

Muitos de nós seguimos para um bar na Henrique Schaumann, o Quincas Borba, e ali dávamos cabo de inumeráveis chopes quando, já madrugada, chegou Nirlando com o último Jornal da República, cujo editorial, na verdade autonecrológio, Ricardo Carvalho leu de pé sobre a cadeira. “Nós voltaremos”, prometia o texto.

Meu desemprego não durou mais que 10 dias. Dele me salvaram generosas iniciativas – de Mino Carta, para começar. Logo me veio convite de Gilberto Mansur para trabalhar na Status, experiência já contada aqui. Relendo agora anotações da época, me pergunto se foi só um ato falho eu ter entrado num cinema, dois dias depois do naufrágio do Jornal da República, para ver Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola.

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