Aplicativos carentes

Domingo, às 22h30, recebi pelo celular a notificação do iFood, aplicativo de entrega de comida, que quebra um galhão e evita o tempo perdido com o estômago roncando na linha na esperança de sermos atendidos por um antiquado telefone fixo: "Se Joffrey tivesse pedido pelo iFood estaria vivo ainda".

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2015 | 02h04

Foi a primeira notificação que o iFood me mandou, que um sobrinho baixou numa emergência gastronômica conhecida como larica, em cujo logo simpático tem um tracinho-flechinha embaixo dos dois "os" (olhinhos) do "food", para lembrar um sorriso.

Então, a revelação e o susto! Falavam de Joffrey Barratheon, personagem da série bombada da HBO, Game of Thrones, o príncipe herdeiro do Trono de Ferro, mimado, volúvel e cruel, que torturava garotas e morreu envenenado na quarta temporada, psicopatinha fruto da relação incestuosa entre a mãe, rainha Cersei, e o irmão gêmeo, Jaime Lannister.

Domingo estreava a quinta temporada da série. Me aterrorizou a descoberta de que um aplicativo de comida sabia que às 22h30 eu a assistia. Meu sobrinho não só se esqueceu de desabilitar a função "mandar notificação", como também não desabilitou o "localizador", que, magicamente, mostraria à rede de espiões digitais que eu estaria em casa, provavelmente em frente a uma TV, sintonizado na HBO naquele instante. Ou será que o iFood mandou para todos os usuários, naquele dia, naquele horário, a sua piada sobre a morte de Joffrey? Ou, numa parceria com a HBO, mandou para todos os usuários assinantes do canal?

A piada não é ruim. Não existiam celulares no tempo da guerra dos tronos de Westeros, onde "verões duram décadas, e os invernos uma vida inteira", muito menos aplicativos de entrega de comida, e Joffrey morreu num banquete, bebendo um vinho batizado. Alguém pede vinho pelo eficiente aplicativo de entrega emergencial de comida? E como sabiam que o cara que uma vez pediu um kebab, eu, assina o canal pago? Muito intrigante, como tudo no universo de softwares lúdicos, ferramentas inteligentes chamadas aplicativos.

Vivemos a era da infantilização dos meios. Ou será que uma garotada jovem e infantilizada demais domina os empreendimentos bem-sucedidos da Tecnologia de Informação? Um amigo me disse: o nerd é o surfista de antigamente, o galã da escola.

Se nos basearmos na idade em que muitos deles se tornaram milionários, pode apostar que o mundo está nas mãos de uma molecada que projetou seus aplicativos assistindo a Simpsons, Beavis & Butt-Head (meu favorito), South Park e desova o repertório de imagens divertidas e simplificadas do inconsciente em seus promissores startups, empreendimentos. Movidos pela cruz do messias de todos eles: o símbolo da Apple é uma maçã mordida, como se a empresa nos fornecesse, ao nos associarmos a ela, login e senha para o mundo dos prazeres mundanos.

O logo do Safari, seu navegador, é uma óbvia e sem rodeios bússola. O do Twitter, um passarinho. O do Waze, um balão de gibi sobre rodinhas com olhinhos e um sorriso maneiro. O da rede social Doodle.ly é uma coruja fofa. O do rabt (em minúscula), app de entretenimento, é um coelhinho. O do aplicativo de foto e vídeo Brushstroke é um papagaio multicolorido. O do Shadow Puppet, só de vídeo, também é um coelho. Tem o antivírus Panda. Até onde se exigiria sobriedade, como o mercado financeiro, a infância é retomada: o do Zepig Finanças é um porquinho simpático feliz, o do Orçamento Diário é, lógico, um cofrinho-porquinho, como o do Loan Calculator. O do Evernote, depositário de conteúdo pesado, é um elefante. Solzinhos, raios e nuvenzinhas têm para todos os gostos, felizes, risonhas, tristinhas, bravinhas, furiosas, até em aplicativos fundamentais para o dia a dia, como Skype e iCloud. Dropbox é uma caixa (de presente) aberta. O símbolo do Swype, aplicativo de teclado, é um dedinho deslizando. O do Nightstand, uma luazinha. Submarino é um submarino de brinquedo amarelo.

Aquele apetrecho que hoje se tornou inseparável, nosso bem mais valioso, que cuida de nós, nos desperta e cria a nossa identidade, guarda nossas músicas, nosso passado, nossa memória (fotos e vídeos e lembretes), os contatos dos amigos, nos alimenta, nos coloca em aviões, fora do trânsito, conectados com o mundo, tem na tela coelhinhos, passarinhos, sorrisos, nuvenzinhas, porquinhos, ursinhos, corujas, céus com nuvens, com lua, como o colorido livro infantil do tempo mágico em que brincar era o sentido da vida. E faz barulhos que lembram a trilha de um cartoon. Ficamos felizes. Nos relaxa, nos diverte, nos faz companhia, nos faz bem. Ao ligar um smartphone, entramos no mundo mágico e hipnótico de uma creche, cercados por paredes e móbiles com desenhos. Como idealizou o genial Steve Jobs: serve para tornar as maçantes tarefas diárias uma brincadeira.

Pais se perguntam espantados como pode meu filhote, que nem fala, ser obcecado pelo celular ou tablet e entender seu funcionamento, abrir páginas, programas, deslizar dedos, cutucar. Não são os hormônios que injetam em frangos ou no gado que o amadurece antes do tempo. A industrialização da comida não gerou uma geração de gênios precoces. Os aplicativos e os processadores é que são infantis, trazem à tona nossas lembranças felizes; conscientemente ou não. Alguns são até carentes: nos pedem atenção, localização, atualizações constantes e, agora, avaliações. Como bichinhos de estimação. Nossos gremlins. Nossos nenês. Como o MacBook, que parece respirar (ou melhor, a luz do carregador, que acende e apaga num ritmo cardíaco relaxante).

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