Tiago Queiroz
A fonoaudióloga Thaís Vilarinho, mãe do Matheus e do Thomás, idealizadora do aplicativo ‘Mãe Fora da Caixa’. Tiago Queiroz

Aplicativo acolhe dilemas e desabafos maternos 

‘Mãe Fora da Caixa’ promove troca de experiências entre mulheres na maternidade

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2021 | 05h00

Já que a sociedade muitas vezes julga, implacavelmente, a brasileira que se torna mãe, muitas se unem para promover trocas de experiências. Em tempos de pandemia de covid-19, os encontros virtuais, no contexto da maternidade, são imprescindíveis para garantir a saúde mental dessas mulheres. Pensando nisso, a fonoaudióloga Thaís Vilarinho decidiu criar o aplicativo ‘Mãe Fora da Caixa’. Ela, que é mãe do Matheus e do Thomás, se sentiu motivada a elaborar o app após a experiência de seis anos escrevendo textos sobre o assunto nas redes sociais, que hoje têm mais de um milhão de seguidores. “O aplicativo nasceu da minha percepção de que minhas leitoras queriam participar de grupos de mães. Sempre que eu fazia um post incentivando elas a se conectarem, a formarem grupos e que moram na mesma cidade, o engajamento era enorme. Existe uma vontade enorme dessa troca entre mães, que é na verdade o que eu chamo de rede de apoio virtual.”, afirma.

Thaís também conta que se sentiu muito sozinha na primeira gestação. “Demais! Meu filho mais velho vai fazer 14 anos. Na época que eu estava grávida dele, esse apoio não existia. E por mais ajuda que eu tivesse da minha família, de alguma maneira, me sentia sozinha. Sabe por que? Trocar com mães que estão passando exatamente a mesma fase que você está passando é diferente. Gera muita identificação. A gente pensa: ‘Não é só comigo, tá tudo bem’. A união de mulheres é algo potente! Temos que aproveitar a força dessas trocas”, ressalta.

A idealizadora do 'Mãe Fora da Caixa' relata que muitas mulheres se queixam por serem criticadas na maternidade. “Julgamento é algo muito forte sim. Elas se queixam principalmente quando estão vivendo o começo da maternidade. Isso porque no início tem muita insegurança, é tudo muito novo. Mas com o tempo elas vão se fortalecendo na própria autonomia.  A culpa é algo que infelizmente ainda é a queixa mais forte da mulher que se torna mãe. Isso porque existe uma idealização absurda da sociedade. É como se ela se tornasse “santa”. Tem até um nome pra isso: santificação da mãe. Ser mãe é uma entrega gigante. Mas não dá pra ficar nessa busca insana pela perfeição e querer dar conta de tudo porque é humanamente impossível”, conclui.


No aplicativo, as mães podem trocar fotos e textos, além de fazer novas amizades. Para se cadastrar, é preciso apenas baixar, fornecer o nome e uma imagem, indicar em qual fase da maternidade a usuária está e selecionar algumas características e experiências dela. O app é gratuito e está disponível para iOS e Android. “Queremos promover um espaço que estimule a troca franca, com empatia e sororidade. Quando tive meu filho, lembro do sentimento de indignação quando percebi que não se falava sobre as dores e as dificuldades da maternidade, sobre baby blues, sobre puerpério e nem sobre a mudança radical que acontece na vida da mulher que se torna mãe. Então, escrever foi necessário e terapêutico”, afirma Thais. O aplicativo 'Mãe Fora da Caixa' também permite a formação de grupos de discussão privados ou públicos e oferece um canal com conteúdo de qualidade sobre maternidade, separado de acordo com as dificuldades e vivências femininas em cada fase – passando pelo desejo de ser mãe, a gravidez, o puerpério, a fase do 1º ao 6º ano de vida da criança, os filhos entre 6 e 12 anos e a adolescência.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Mães brasileiras estão entre as que mais se sentem julgadas no mundo, segundo pesquisa

Maternidade é mais criticada no Brasil do que em países como Índia ou Arábia Saudita, revela Ipsos

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2021 | 05h00

O medo do julgamento alheio é um dos principais temores daqueles que vivem em sociedade. Para as mulheres que são mães, a sensação de serem julgadas o tempo inteiro incomoda 46,3% das brasileiras. Isso é o que revela uma pesquisa feita pela Ipsos no Brasil e em 27 países. Foram realizadas 23 mil entrevistas entre 23 de dezembro de 2020 e 8 de janeiro de 2021. Porém, não é preciso um levantamento para detectar isso. Basta reparar ‘por quem’ as pessoas perguntam quando uma criança se perde no parquinho ou no shopping, por exemplo. Ou, em casos de delitos de grande repercussão, não é raro ouvir quem questione se a mãe do infrator “não se sente culpada” pelo erro do filho. 

“As mulheres são julgadas o tempo todo e não apenas só quando os filhos ‘se jogam no chão’ – sendo que esse é um comportamento normal e até esperado das crianças, que muitas vezes não sabem lidar com a frustração porque são imaturas emocionalmente. Elas são julgadas no modo que vestem os filhos, como os alimentam – se o filho está acima do peso, adivinhe? A culpa é da mãe que não cuida da saúde do pequeno”, aponta Rita Lisauskas, autora do livro Mãe sem Manual. A jornalista, que é mãe de Samuca, ressalta que as mulheres são criticadas independente da situação: “São julgadas se trabalham demais (não dão atenção ao filho) ou se trabalham de menos (mima demais, fica junto tempo demais, deixa ‘mal-acostumado’). Como a cultura ocidental idealiza demais esse papel da ‘mãe’, como fixa esse lugar como sendo de comportamentos únicos e padronizados, qualquer coisa que saia desse papel é julgada. Como somos todas diferentes e múltiplas, é difícil se encaixar nesse papel”.

A doula Tatiana Fávaro, mãe de Helena, de 5 anos, e Francisco, de 3, acredita que, para o além do julgamento explícito, a crítica velada, aquela que está entranhada na estrutura social, aparece em forma de angústia, de culpa materna. “Nos grupos de mães, nas rodas de conversa, agora virtuais, no contato com mulheres da gestação ao pós-parto, é quase unânime a sensação de insuficiência, de estar sempre "devendo", sabe? E isso não é julgamento explícito, isso é a estrutura patriarcal falando baixinho no nosso ouvido em forma de maternidade compulsória, do mito do amor materno imediato e incondicional, dos três - ou mais - turnos que as mulheres assumem entre trabalho, crias e a casa. É a divisão de tarefas injusta, é a madrasta estereotipada, é a mãe solo cobrada até a tampa, é a competitividade entre mulheres incentivada, são as figuras da guerreira e da heroína que vão fazer de tudo pra ganhar esses ‘pseudotroféus’, enquanto são distraídas do peso que estão carregando, injustamente”. 

Diante da multiplicidade de angústias, Tatiana idealizou a rede ativista consciente Criar Filhos. Mesmo cuidando e compartilhando o desenvolvimento dos filhos, homens e mulheres têm percepções diferentes quando o assunto é julgamento. Ainda segundo o estudo da Ipsos, no comparativo com as respostas de pais, há uma diferença de mais de 10 pontos porcentuais: 35,9% dos respondentes do sexo masculino disseram se sentir julgados frequentemente contra 46,3% das mães. “A ideia de que o cuidado com os filhos é algo que cabe mais à mãe do que ao pai é algo que está introjetado na nossa sociedade, então eu acredito que seja por isso que as mulheres se sentem mais julgadas ou se culpam quando o filho ‘não se comporta bem’, por exemplo. Se a criança está fazendo algo que a sociedade julga como ‘negativo’ e que pode ser entendido como tal, ‘a culpa é da mãe’, ou seja, dessas mulheres. Eu acredito que os homens se sentem menos culpados por proibir os filhos de fazer algo, por exemplo, porque esse papel de dizer ‘não’ também acaba sendo mais nosso do que deles”, avalia Rita Lisauskas.

Entre os principais tópicos da pesquisa pelos quais se sentem julgadas, as mães citam: o comportamento do filho (49,7%), o que deixam ou proíbem de fazer (47,6%) e a forma como controlam os comportamentos da criança (36,4%). As brasileiras estão entre as que mais se sentem frequentemente criticadas no mundo, atrás apenas das indianas (60,6%), das sauditas (49,4%) e das australianas (48,5%). 

 

“Eu costumo dizer que a gente é uma das gerações de transição. Temos muita informação disponível e a oportunidade de ir desconstruindo esses estereótipos e estruturas de preconceito sorrateiras, invisíveis e cruéis. Para isso, um passo importante na minha opinião é o reconhecimento. Perceber em nós o machismo. Produzindo e divulgando conteúdo que questiona essas estruturas numa rede ativista de criação consciente”, enfatiza Tatiana Fávaro, do grupo Criar Filhos. Para ela, o preconceito sustenta o julgamento na maternidade. “Vejo que as mulheres que vão tomando essa consciência muitas vezes convidam outras a pensar, pelas crianças, nessas atitudes que ainda temos e que reforçam tudo o que o patriarcado precisa para se manter operante: mulheres com uma autocrítica arrebatadora e zero autocompaixão. Terreno mais que fértil para um julgamento, explícito ou velado, causar estrago. Por qual motivo o outro se acha no direito de dizer isso sobre meu maternar?”.

Na visão de Rita Lisauskas, a mulher só será menos julgada na maternidade se houver uma mudança social. “Quando você vive em um País onde a licença maternidade é de quatro a seis meses e a paternidade de apenas 5 a 20 dias, os papéis de cuidado dessa criança acabam demarcados a ferro e fogo na nossa pele. Quando se entender que não só a mãe – mas o pai, os avós, os tios, os padrinhos – também são responsáveis pelo cuidado com uma criança, o peso sairá das nossas costas e, junto com eles, os olhos que perscrutam todos os nossos passos”, conclui. Para Tatiana Fávaro, a transformação deve, essencialmente, envolver as mulheres: “A gente precisa reconhecer na gente o que nos leva a esse autojulgamento. Penso que as nossas crianças de hoje ainda terão muito trabalho, mas acreditar nesse mundo de equidade e empatia - mesmo nos dias de hoje, no País em que vivemos - é o que me faz acordar todos os dias e seguir em frente”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Taxa de morte materna pela covid no Brasil dobra em 2021; nº de vítimas na pandemia é de 979

Pico de mortes de gestantes e mães que acabaram de dar à luz em março é superior ao registrado em junho do ano passado; governo recomendou adiar gravidez

Júlia Marques e Jefferson Perleberg, Especial para o Estadão

16 de abril de 2021 | 18h58
Atualizado 07 de maio de 2021 | 14h24

As taxas de morte materna pela covid-19 no Brasil dobraram este ano na comparação com 2020. Em média, foram 108 mortes mensais em 2021, ante 54 no ano passado. O cálculo considera dados do Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (Sivep-Gripe) divulgados pelo Ministério da Saúde e leva em conta os meses de março a dezembro do ano passado e janeiro a abril deste ano. Desde o início da pandemia, o Brasil registrou 979 mortes de grávidas ou mulheres que acabaram de dar à luz diagnosticadas com a covid-19.

Nesta sexta-feira, 16, o secretário de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, Raphael Câmara Medeiros afirmou que a pasta recomenda às mulheres adiar a gravidez, se possível, enquanto durar o pico da pandemia da covid-19 no Brasil. Especialistas apontam que grande parte das mortes maternas pela covid-19 é decorrentes de falhas na assistência a grávidas e mulheres que acabaram de dar à luz.

Só entre janeiro e abril deste ano, pelo menos 433 gestantes e puérperas morreram em decorrência da covid-19, segundo dados do Sivep-Gripe divulgados pelo Ministério da Saúde - em todo o ano passado, foram 546 mortes de grávidas e mulheres que acabaram de dar à luz.

Levantamento do Estadão no Sivep-Gripe mostra que os óbitos maternos este ano atingiram o pico em março - os dados de abril ainda não estão consolidados. Foram 263 mortes em março, mais do que o dobro do registrado em junho do ano passado (111), durante o pico da primeira onda da covid-19.

Segundo Medeiros, apesar da falta de estudos, "a visão clínica de especialistas mostra que a variante nova tem ação mais agressiva nas grávidas". "Antes estava mais ligada ao final da gravidez e puerpério e hoje já vemos evolução mais grave no segundo trimestre e quiçá, por vezes, até no primeiro trimestre."   

Dados sobre as mortes de gestantes e puérperas, porém, revelam falhas na assistência a esse público - um quarto das gestantes que morreram este ano não receberam atendimento em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), segundo levantamento do Estadão. De acordo com os dados do Sivep-Gripe, a proporção de grávidas que morreram no início da gestação não se alterou em relação ao verificado no ano passado. Em 2020 e neste ano, a maior parte dos óbitos ocorreu no último trimestre de gestação. 

Há casos de mulheres que moram longe de centros urbanos com assistência adequada. A distância até receber atendimento complica a evolução da doença. Em casos de mortes maternas identificados pelo Estadão, mulheres foram testadas com exames de baixa qualidade e demoraram a receber atenção médica específica para a covid-19. Algumas deram à luz intubadas e nem chegaram a conhecer as crianças.

Especialista reforça importância do pré-natal e vacinação

“É prudente acompanhar o número de casos, aumento do contágio e gravidade de internações por covid, antes de tomar a decisão de engravidar”, diz a ginecologista e coordenadora científica de obstetrícia da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado de São Paulo, Silvana Maria Quintana, que destaca ser uma decisão exclusiva da família.

Segundo ela, “mulheres com idade avançada, que fazem algum tipo de tratamento e não podem esperar, podem optar pela gestação com acompanhamento médico”. Silvana ainda reforça a importância do pré-natal. “Temos visto casos de gestantes com medo de sair, deixando de fazer pré-natal e tendo complicações durante a gestação como descontrole da pressão. Deve-se manter o acompanhamento médico em dia, até para evitar situações que levem a agravamento do quadro da mãe, caso venha a contrair covid.” 

Elaine Candido, ginecologista e obstetra, médica do Hospital Pérola Byington, diz que toda variante é prejudicial para a grávida. “Existe risco por haver imunossupressão fisiológica da gestação, ou seja, a condição de gravidez deixa a mulher mais frágil, há sobrecarga para o organismo materno. O que pode gerar quadros mais graves com uma cepa mais agressiva", explica.  Para ela, a variante atinge mais as gestantes por ser mais contagiosa. "Estamos todos suscetíveis a transmitir o vírus, consequentemente o risco dele chegar até grávidas acaba sendo maior." 

O ministério recomenda que grávidas com comorbidades como diabete, hipertensão e obesidade recebam a vacina, segundo portaria de 15 de março. As recomendações permitem a vacinação de grávidas, lactantes e puérperas com comorbidades, mas consideram que a decisão deve ser tomada por elas após avaliação de risco e benefícios com auxílio médico. Grávidas sem doenças prévias podem tomar a vacina se fizerem parte de outros grupos prioritários do Plano Nacional de Vacinação. São grupos prioritários, por exemplo, profissionais da saúde, professores e agentes de segurança, com ou sem comorbidades. Ainda não há data prevista para grávidas sem comorbidades de categorias profissionais não prioritárias.

Projeto prevê dispensa do trabalho, mas ainda falta sanção

Gestantes também enfrentam dificuldades para conseguir dispensa do trabalho, o que aumenta o risco de infecção. Nesta semana, o Senado aprovou um projeto de lei que determina o trabalho remoto para funcionárias gestantes durante a pandemia. O texto foi enviado para a sanção do presidente Jair Bolsonaro. Segundo o projeto aprovado, a empregada gestante deverá permanecer afastada de atividades de trabalho presencial, sem redução no salário, no período de emergência decretado pelo Ministério da Saúde em função da covid, sem data para terminar.

Não é prevista punição ou multa para empresas que descumprirem a norma. Nesse caso, porém, elas podem ser acionadas na Justiça com ações trabalhistas. Parte dos parlamentares, no entanto, vê risco de empresas pequenas ligadas a atividades presenciais, como de cozinha, não terem recursos para manter suas funcionárias grávidas em trabalho remoto. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.