Aplausos eram sua pátria

Dois livros tentam decifrar mistérios do mito Gardel, morto há 77 anos

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE , BUENOS AIRES , O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h12

Uruguaio de Tacuarembó? Ou francês de Toulouse? Nascido em 1887? Ou em 1890? Essas são algumas das várias dúvidas sobre o lugar e ano de nascimento de Carlos Gardel, o mais famoso cantor de tangos da História. Nas últimas décadas pesquisadores uruguaios, argentinos e franceses digladiaram-se, elaborando as mais diversas teorias para explicar a sua origem.

Os governos em Buenos Aires e Montevidéu também entraram na disputa, reivindicando a posse do corpo de Gardel, morto em acidente aéreo em 24 de junho de 1935, na Colômbia. Mas um trio de investigadores (dois franceses e um argentino) - depois de dez anos vasculhando documentos em todo o mundo - afirmam agora que a discussão está encerrada, já que comprovariam que o pai de Gardel era francês e que seu filho também nasceu em Toulouse.

O resultado das investigações está no livro O Pai de Gardel, lançado em Buenos Aires pela Proa Ediciones, escrito pelo argentino Juan Carlos Esteban e os franceses Georges Galopa e Monique Ruffié. Eles afirmam que o pai de Gardel foi Paul Jean Lassere, que engravidou Berthe Gardés.

O nome de Lassere circulava há anos como virtual pai do cantor, embora não existissem provas sobre isso. Mas o trio de pesquisadores encontrou depoimentos comprovando a paternidade e até a existência de uma meia-irmã de Gardel, disposta a fazer exame de DNA.

A jovem Berthe, abandonada pelo amante, repudiada pela família, deu à luz Charles Romulad Gardés em 11 de dezembro de 1890 em Toulouse. O grupo apresenta a certidão de nascimento de Carlos Gardel na França e revela detalhes inéditos sobre a vida do pai, que comandou uma quadrilha de ladrões em Paris. Segundo os pesquisadores, Charles - o futuro Carlos - desembarcou com a mãe em Buenos Aires quando tinha 2 anos e 3 meses.

Mas há uma tese uruguaia, segundo a qual Gardel nasceu em Tacuarembó, interior do Uruguai, em 1887. Sua mãe seria Maria Oliva, que ficou grávida de seu cunhado, Carlos Escayola, caudilho uruguaio. Depois, o bebê teria sido entregue a Berta Gardés, uma francesa, que o criou.

Os autores explicam que a confusão foi criada pelo próprio Gardel, que mentiu sobre sua nacionalidade francesa para não ser considerado desertor pela França, já que não tinha se alistado na Primeira Guerra Mundial (1914- 1918). A saída, na época, foi a de declarar-se cidadão uruguaio no consulado do Uruguai em Buenos Aires, aproveitando a facilidade na época para a realização de documentos de cidadãos uruguaios residentes no exterior. Com estes documentos, Gardel pôde realizar sem problemas um tour pela França em 1920. Na sequência, obteve a nacionalidade argentina.

Na última década, a disputa sobre a nacionalidade de Gardel - cuja obra gera centenas de milhões de dólares anuais - criou problemas diplomáticos entre o Uruguai e a Argentina. Há poucos anos, o governo uruguaio exigiu o corpo de Gardel, enterrado no portenho cemitério de La Chacarita. Mas os 'gardelianos' argentinos disseram não.

Disputas à parte, o sociólogo argentino Juan José Sebreli, autor de Mitos e Cômicos, afirmou que Gardel "passava a maior parte do tempo no exterior, na Europa ou nos EUA, tinha medo do público argentino e admitia que sua pátria era onde ouvia os aplausos".

Para o estudioso, Gardel tem todos os requisitos dos mitos: "Está rodeado de mistério, sua origem é desconhecida e há a polêmica sobre data e lugar de seu nascimento. Estas contradições levaram à invenção de vidas imaginárias". Sebreli arremata: "Talvez sua morte prematura, no apogeu da carreira, tenha ajudado Gardel a se tornar um ídolo inesquecível".

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