Arte/Estadão
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'Apesar das feridas, dores e hematomas, minha filha estava viva'

Você está acostumado a ler aqui minhas crônicas. Hoje, peço licença para contar a história da Lúcia*

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

08 Março 2018 | 03h00

Geralmente você lê minhas crônicas aqui, mas hoje vou emprestar minha coluna para a Lúcia*. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida - se deparam com ainda mais violência. Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos - homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

Eu não havia me interessado por ele. Não senti um leve arrepio, nem uma súbita falta de ar quando o vi. Nada disso. Mas ele se interessou por mim. Mais tarde ele demonstrou e eu desviei. Me ligou e eu desconversei. Insistiu e eu suspirei. Até eu começar, aos poucos a me render, não sei se por vontade, por medo ou por cansaço.

No começo as coisas até fizeram algum sentido: os beijos, os passeios aos domingos, as conversas longas. Confesso que de vez em quando ele se irritava, levantava a voz, mas eu não quis enxergar um grande problema naquilo. Preferia pensar que não era nada além de um dia ruim.

Fomos viver juntos e eu engravidei por decisão de ambos. Eu tinha 38 anos. Foi então que o jogo começou a mudar. Ele passou a controlar meus atos, meu corpo e minha alimentação, não como um pai preocupado, mas como um homem doente. Sua família começou a intervir, a ditar ordens sobre a minha gravidez, a interferir no meu pré-natal, como se eu não fosse uma mulher adulta e preocupada com minha filha.

Os conflitos surgiram e os gritos dele se tornaram rotina. Os socos na mesa. Os chutes nos móveis. Conforme minha barriga crescia, crescia nele um homem desconhecido. Comecei a ter medo, a ficar sem ar, a ter pesadelos acordada. Ele começou a me agredir verbalmente, a me diminuir e a me convencer de que eu realmente não tinha valor nenhum. Comecei a não saber para onde ir. Não queria ficar, mas ele era o pai da minha filha. Eu não queria desistir, estava exausta, estava com medo.

Até que aconteceu. Eu já não via saída, olhava para minha vida e o pânico tomava conta de mim. Aquilo tudo me provocava tanta dor que eu já não via sentido nem na gravidez, nem no relacionamento, nem na minha vida. Eu estava grávida de 4 meses quando tentei me matar.

Fui hospitalizada e ouvi suas críticas duras sobre minha fraqueza e minha irresponsabilidade. Os dias passaram e eu tive alta. Um psiquiatra amigo da família dele me receitou um medicamento extremamente forte. Questionei minha obstetra, que me proibiu de tomar o remédio. No dia seguinte ele segurou meu rosto com uma mão, enquanto enfiou o remédio na minha boca com a outra, enquanto gritava que eu era louca e que minha filha não podia ser como eu.

Eu não tinha ninguém naquela cidade. Não sabia o que fazer, nem para onde ir. Até que num sábado de inverno fomos a uma festa de um primo dele. Ele bebeu demais. Eu disse que eu dirigiria o carro e ele me empurrou. Sentou-se no banco do motorista e berrou para que eu entrasse logo.

Eu entrei, já com medo. Ele acelerava demais. Eu colocava minhas mãos sobre a barriga. Disse a ele para diminuir. Ele freou bruscamente e me mandou descer do carro. Era madrugada e estávamos numa rua deserta. Disse que ele estava louco. Ele deu um tapa no meu rosto e disse “eu estou mandando descer, vagabunda”. Eu desci.

Caminhava sozinha pela rua, com o rosto vermelho e coberto de lágrimas quando ele reapareceu. Me gritou para entrar. Eu não queria entrar, mas não tinha escolha. Voltei para o carro e ele ficou em silêncio até chegarmos em casa. Pensei que o silêncio podia ser sinal de culpa. Mas não. 

Assim que entramos em casa ele me empurrou contra a parede. Me segurou pelo pescoço enquanto começou a chutar as minhas pernas. Me pegou pelos ombros e batia minha barriga insistentemente na cabeceira da cama, enquanto puxava meus cabelos. Meu choro e meu grito ficavam cada vez mais altos e ele precisou me silenciar. Deu um soco no meu rosto e eu desmaiei no chão.

Quando acordei ele já não estava lá. Desesperada, fui sozinha para o hospital. Minha família vivia a 500 km dali. Apesar das feridas, dores e hematomas, minha filha estava viva. Os médicos não sabiam dizer se haveria sequelas. Fui para a delegacia e fiz um boletim de ocorrência.

Não tive coragem de contar nada aos meus pais, nem aos amigos. Fiquei mais reclusa e silenciosa a cada dia que passava, mergulhada no medo, na solidão e nos fantasmas que a violência traz com ela. Ele ligou, pediu desculpas, culpou o álcool. Disse que só pensava no bem da filha. Já eu, só pensava nos golpes contra minha barriga.

Quando entrei em trabalho de parto, tive que chamá-lo. Fomos para o hospital e minha menina nasceu saudável. Ele olhou para ela e sorriu. Parecia que as coisas iriam melhorar. Mas foram dez dias, apenas dez dias o tempo decorrido até que eu fosse agredida de novo. Mas dessa vez, com uma agravante: minha sogra estava presente e não impediu nada.

Quando há uma filha em casa, a gente aprende a parar de relativizar. Fiz meu segundo boletim de ocorrência e jurei para mim mesma que ele nunca mais pisaria naquela casa. Como eu pude me deixar enganar daquela forma? Como abri minha porta tantas vezes para aquele homem?

Pouco tempo depois entrei com uma ação pedindo pensão alimentícia e meu advogado juntou os boletins de ocorrência ao processo. Quando soube que o juiz fixou o valor da pensão em 40% do salário mínimo, suspirei desacreditada. Mas o que viria na sequência, eu nem poderia imaginar: direito de visita quinzenal, dentro da minha casa. Sim, aquela casa onde apanhei dele duas vezes, e onde fui agredida verbalmente inúmeras vezes, conforme os boletins de ocorrência. O juiz decidiu que ele seguia merecendo entrar naquela casa, que ele não representava uma ameaça para minha filha e que eu era obrigada a aceitá-lo ali, no meio daquelas lembranças todas.

Coloquei tudo nas malas e viajei 500 km para ficar perto da minha família. Era a única saída que me restava. Abandonar meu trabalho, minha casa e meus sonhos para fugir de um homem. Eu, que nem sei se acredito em Deus, me vi de joelhos em uma igreja, aos prantos, pedindo proteção. Alguns dizem que eu estou desobedecendo uma ordem judicial. Eu acho que só estou tentando sobreviver e cuidar da minha filha. Mas já não tenho certeza de nada, só dos arrepios e da falta de ar que eu não senti no começo, mas que agora sinto diariamente.

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vítima. 

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