Apenas uma reciclagem

Osesp não teve dificuldade para tocar repertório que abraça facilidade

O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2012 | 03h09

"Degas recusava a facilidade (...) sabia apenas desejar a própria aprovação, ou seja, contentar o mais difícil, o mais duro e o mais incorruptível dos juízes (...). Ria rispidamente daqueles que se entregam ao sabor da opinião pública, dos poderes constituídos ou dos interesses do comércio o destino de sua obra."

As palavras de Paul Valéry sobre o pintor francês em Degas Dança Desenho (Cosac Naify, 2012; tradução: Celia Euvaldo e Christina Murachco; 192 págs., R$ 23,90) aplicam-se ao concerto camerístico de anteontem, às 19 horas, na Sala do Coro, na Sala São Paulo, com músicos da Osesp. No programa, o Quarteto de Cordas n.º 1 de Dmitri Shostakovich, o concertino para flautim, viola e contrabaixo de Erwin Schulhoff e duas peças do argentino Osvaldo Golijov.

Denominador comum a todas elas: um certo gosto em atender aos "interesses do comércio", repetindo a expressão de Valéry. Historicamente, as motivações são diferentes. Shostakovich escreveu o quarteto em 1938. Naquele momento, depois de tomar uma paulada violenta do regime de Stalin por causa da ópera Lady McBeth de Mtsensk, ele tratou de abraçar a facilidade para conseguir sobreviver.

Reconhecidamente, fez música alimentar para sair do foco do regime: o quarteto parece mas não é obra de juventude, soa simples, fácil, límpido demais. O buliçoso concertino de Schulhoff, que morreu num campo de concentração em 1942, é de 1925, década em que sua música privilegia o cômico e o vaudeville.

Já as duas obras de Golijov, de 51 anos, são típicos exemplos da música que atende aos interesses do comércio.

O público aplaudiu muito, por exemplo, Tenebrae, para soprano e grupo de câmara, pensando homenageá-lo, mas de fato mesmo eles aplaudiram só uma reciclagem do compositor francês François Couperin por um viés bachiano; o mesmo acontece, e desta vez com a música judaica (klezmer), em Lullaby and Doina. Ambas datam de 2001/2, quando Golijov era saudado como novo geninho da música contemporânea. Eram pastiches benfeitos, impressionavam à primeira audição. Ultimamente, ele tem reciclado a música popular mesmo, com resultados ralos, ralos. Agora, vê-se, não passa de um reciclador de tudo quanto é som que lhe apareça pela frente, não importa o autor.

Os músicos da Osesp, claro, não tiveram nenhuma dificuldade para tocar um repertório que abraça a facilidade.

Crítica: João Marcos Coelho

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