APENAS OS FATOS; SE POSSÍVEL, A VERDADE

No começo

O Estado de S.Paulo

09 de março de 2013 | 02h11

da carreira de jornalista, depois de ter servido no Vietnã, o jovem Tracy Kidder recebeu a seguinte ordem do editor Richard Todd, na redação da veneranda revista Atlantic Monthly: "Você está proibido de ler John McPhee". Aos 68 anos, Kidder, um dos mais admirados representantes do gênero imprecisamente chamado de jornalismo literário, solta uma gargalhada quando se lembra do pito que levou. Ele atende o Estado em sua casa numa pequena cidade do Oeste de Massachusetts para falar do livro Good Prose, The Art of Nonfiction (Boa Prosa, A Arte da Não Ficção), que acaba de lançar em coautoria com seu antigo editor (leia trecho do primeiro capítulo na página ao lado). Todd não tinha nada contra o grande escritor John McPhee, um dos pioneiros da não ficção criativa. Mas a paixão do seu protegido por McPhee estava contaminando seus textos. "Imitar é bom quando, no começo, você está tentando descobrir a própria voz", diz Kidder. "Mas a melhor maneira de encarar o temor da influência é ler livros que você realmente aprecia."

Good Prose é uma mistura de memória de 40 anos de amizade literária e pessoal, mas também um livro de cabeceira para quem tem curiosidade e angústia sobre os dilemas da escrita. Capítulos que tratam de fidelidade aos fatos - diferente, lembram os autores, de chegar à verdade -, das diversas linguagens contemporâneas, como o jornalês, o propagandês, e o conflito entre arte e comércio fazem de Good Prose um título recomendável para o currículo de qualquer curso de escrita.

Kidder conheceu a fama com A Alma da Nova Máquina (1981), a crônica da corrida para criar uma nova geração de computadores. O livro ganhou o Prêmio Pulitzer, o National Book Award e se tornou um best-seller. Ele diz que está voltando ao tema da tecnologia, mas não pode revelar quem são os personagens que tem acompanhado para escrever um livro-reportagem em que o software, não mais o hardware, dita o futuro.

É irônico que ele tenha se celebrizado com uma obra sobre tecnologia. A certa altura da conversa, Kidder desabafa: "Tenho sido obrigado a frequentar Facebook, Twitter, trocar SMSs com uma poderosa figura do mundo tecnológico. Mas, quando acabar a pesquisa, vou me livrar de toda esta parafernália".

O livro abre com uma referência à primeira frase da primeira reportagem que o jovem Kidder apresentou ao editor Todd, rechaçada por falar em sangue e ser considerada melodramática. Pergunto se ele não tem encontrando sangue com mais frequência na linguagem e ele comenta que está fascinado pela maneira como falam seus novos personagens do mundo digital. "As pessoas bem-sucedidas, espertas, só se expressam por hipérbole. Se uma coisa é totally sick (totalmente doente), parece ser bom sinal."

Diante da nova informalidade da mídia digital, Kidder acha melhor não seguir um conselho às vezes dispensado a jovens jornalistas: escreva como você fala. "Má idéia", comenta ele, rindo.

Os autores de Good Prose alertam para o excesso de preocupação com a técnica da escrita. "Pensar deliberadamente sobre estilo pode ser útil, só quando se começa a escrever". explica Kidder. "O melhor é progredir de maneira orgânica para contar uma história".

Ele raramente publica algo que não foi reescrito, em média, cinco vezes. "O mais difícil é a primeira versão", atesta. "Tenho que mentir para mim mesmo toda vez e me iludir de que algo vai sobrar do texto inicial".

Quando bate o desânimo, a cura prescrita por Tracy Kidder é manter à mão livros companheiros. Lê um trecho de Moby Dick, de Melville, ou de Homenagem à Catalunha, de Orwell. E consegue se lembrar que é possível escrever bem. Como se ele precisasse do lembrete. / L.G.

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