Fábio Colombini/Divulgação
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Laura Greenhalgh
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'Aparecida' revela em fotos a beleza da Basílica

Lançado o primeiro livro de arte sobre o Santuário Nacional, onde o rebanho de fiéis só faz crescer

Laura Greenhalgh,

17 de agosto de 2013 | 22h03

Na passagem recente por Aparecida do Norte, o papa Francisco ganhou um presente que acrescentou 3,2 quilos à sua bagagem. Este é o peso do primeiro livro de arte sobre o santuário, com capa dura e 408 páginas em papel couché. Aparecida reúne fotografias de Fabio Colombini e textos do arquiteto e artista plástico Claudio Pastro, além de versos esparsos da poeta (e devota) Adelia Prado. Com tais credenciais, a obra será lançada neste doming, 18, em São Paulo, no Pateo do Collegio, a partir das 10 horas (autógrafos ao meio-dia, após a missa). Abrirá o caminho para as celebrações dos 300 anos desde que pescadores acharam a imagem nas águas do rio Paraíba – data a ser oficialmente comemorada em 2017, com a presença de Francisco.

Encomendado pela Editora Santuário, Aparecida, o livro, levou sete anos para ficar pronto. Nasceu de outro encontro, no caso, do fotógrafo com o artista que desde 1999 tornou-se responsável pelo acabamento geral da basílica. "Sempre quis conhecer o trabalho do Claudio. Tínhamos um amigo em comum, que acabou nos apresentando. E assim ele me convidou para registrar o que está fazendo em Aparecida" explica Fabio, que de início hesitou, pois vem da fotografia de natureza. Acabou compondo o mais completo, e tocante, ensaio fotográfico deste que é o maior centro de devoção mariana do mundo.

Tudo tende ao superlativo em Aparecida, o santuário, um lugar que em nada reflete o encolhimento do rebanho católico no Brasil. Visitado anualmente por 11 milhões de pessoas, tem infraestrutura impressionante (estacionamento com vagas demarcadas para 1,5 mil ônibus e 3 mil carros de passeio, 2 mil banheiros públicos, 1600 funcionários, o melhor sistema de tratamento de água da região, etc) e, fora batizados, casamentos ou crismas, segue o cronograma diário de sete missas, todos os dias do ano (mantido até na visita do papa), para não deixar o fiel na mão jamais.

Bem menos superlativa, no sentido da ostentação, foi a proposta de trabalho do paulistano Claudio Pastro para a basílica. Formado na Academia de Belas Artes Lorenzo de Viterbo, na Itália, e considerado um dos maiores especialistas em arte sacra no mundo, há uma década vem "mobiliando" o santuário com suas criações. São elementos concebidos para aquele espaço, equilibrando beleza e simplicidade. Uma arte sem afetação, enfim, convidando o fiel, o romeiro e o turista a desfrutarem de um ambiente sereno.

A chamada igreja nova de Aparecida tem estilo neo-basilical e começou a ser construída nos anos 1950, seguindo projeto do arquiteto Benedito Calixto de Jesus, neto do pintor homônimo. A partir do Concílio Vaticano II (1962-65), o projeto precisou ser repensado, explica d. Darci Nicioli, ex-reitor do santuário e hoje bispo-auxiliar de Aparecida: "O Concílio trouxe mudanças litúrgicas importantes, que nos obrigaram a rever o espaço. O primeiro projeto previa diferentes altares e um nicho central para a santa. Revisada a planta, a basílica ganhou um único altar, marcando a centralidade de Jesus, e criou-se uma área devocional para Maria". Daí a basílica ser definida como um espaço "cristocêntrico", até por fiéis evangélicos que chegam em número crescente. São bem-vindos na arquidiocese hoje comandada por d. Raymundo Damasceno.

Foi sobre a concepção conciliar que Claudio iniciou seu trabalho, a convite do então cardeal-arcebispo de Aparecida, dom Aloísio Lorscheider. Partiu do rebátulo que abriga a imagem, ponto ultra concorrido que o povo tratou de batizar como "o trono da santa". O que talvez tenha a ver com o fato da imagem exibir uma coroa de ouro, presente da Princesa Isabel quando finalmente conseguiu engravidar. Agradecida pela graça alcançada, Isabel dizia que a verdadeira rainha do Brasil era a Virgem de Aparecida. Resolvido este espaço, Claudio então projetou o altar central, no cruzamento dos eixos do templo em forma de cruz. E daí foi incluindo elementos de sua arte sacra, com propósito mistagógico, ou seja, de educar pela fé.

Através das fotos de Fabio, pode-se perceber em detalhes o trabalho de Claudio, algo que aos fins de semana ou em dia de festa fica mais difícil, pela quantidade de fiéis. O artista valorizou o tijolo como revestimento básico, não só por ser material termoacústico, mas por reforçar o caráter simbólico: a santa é de barro cozido. "E de barro somos nós", adiciona Claudio recorrendo a fontes teológicas, no que é seguido por uma comissão de biblistas e liturgistas. Nos capitéis notam-se os tijolos aplicados em grafismos que lembram a cestaria indígena. E, em vez de um templo com estatuária, o artista desenhou painéis de azulejos com cenas e personagens bíblicas. E só. "O azulejo, de origem ibérica, está presente nas nossas igrejas", diz. Nos pisos internos, utilizou granitos brasileiros, em modulações tonais que remetem ao movimento das águas do rio e ao rito batismal. O conjunto resulta harmonioso, desafiando os que veem Aparecida como um lugar de gosto discutível.

Até 2017 o santuário receberá alguns acréscimos. Por exemplo, o único elemento da basílica feito fora do Brasil deverá ser instalado nos próximos anos. Trata-se do revestimento interno da cúpula maior, com 2 mil m² de área, um grande mosaico que está sendo feito em Veneza. A partir dele vai se projetar um baldaquino sobre o altar e haverá uma porta de bronze dando acesso à nave principal. Por fim, a construção do campanário, desenho deixado por Niemeyer, o arquiteto comunista de cuja prancheta nasciam igrejas.

"Se o projeto original foi impactado pelo Concílio, eu, lá atrás, fui criticado pela Teologia da Libertação, contrária a qualquer ornamentação que lembrasse uma igreja palaciana", conta Claudio. Hoje todas as alas da Igreja se convenceram de que Aparecida atingiu estilo próprio, que dialoga com as diferentes camadas sociais. Algo a ver com a experiência do artista-arquiteto, premiado criador de templos e monastérios em lugares como Alemanha, França, Itália, Portugal, Bélgica, além de países latino-americanos. É de sua autoria a reforma do Pateo do Collegio, marco da fundação da cidade de São Paulo.

No livro, o tempo todo Claudio e Fabio tentam captar a ânsia do peregrino de se restaurar, quando viaja até o santuário. Tem-se aí a ação do humano sobre o espaço sagrado. Fábio andou com os romeiros pela estrada, foi imprensado por eles na rampa de acesso à basílica, conferiu as oferendas para a santa, as promessas sendo pagas, os relatos de milagres. "A emoção de fotografar de costas para a santa, mas de frente para os fiéis, chegou a ser insuportável em certos momentos. Aqueles rostos, aquelas expressões...muitas vezes tive que baixar a máquina, não aguentei." Sua mulher, Edna, cuidou de obter todas as autorizações de uso de imagem, afinal, centenas de pessoas foram flagradas em momento íntimo de oração.

Mas a comoção do fotógrafo deu-se numa noite, quando o santuário foi fechado para que ele pudesse retratar a imagem retirada do nicho. Sem o manto azul bordado com pedrarias e sem a coroa doada pela princesa, Aparecida é só uma menina esculpida com túnica atada por um cordão, o que evidencia a gravidez, e coberta por um manto simplório. Nos anos 70, a imagem foi estatelada ao chão por um indivíduo transtornado. Depois, levada ao Masp aos cacos, para as mãos da restauradora Maria Helena Chartuni – que ainda hoje controla a conservação da peça. É, a rigor, uma estatueta rústica, talvez feita de barro retirado do fundo rio Tietê e moldada pelas mãos de monges beneditinos. Mas, na noite daquela sessão de fotos, Fábio diz que só pensou nos milhões e milhões de devotos que se curavam diante dela, ao longo de 300 anos. Confessa que ficou nervoso. Muito nervoso.

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