Apagão postal

Certas imagens são tão ultrajantes que se perpetuam no imaginário coletivo como símbolos. Ninguém esquece daquele cara dos Correios - como é mesmo o nome dele? - pegando com patinha de lobo um bolinho de 3 mil reais e botando no bolso do paletó. Era Maurício não-sei-o-quê, já me esqueci e a opinião pública, também. Mas aquela cena ninguém esquece.

Nelson Motta, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2010 | 00h00

Depois da CPI dos Correios, mensalão, sanguessugas, Satyagraha, Boi Barrica, Operação Navalha (por onde andam o Waldomiro, o Zuleido Veras e os Vedoin do Dossiê? Estamos com saudades), o tal Maurício foi demitido e ficou tudo por isso mesmo. Mas quem o mandou para lá continua mandando, e defendendo a eficiência do monopólio estatal.

Na pressão e no sufoco, com o esquemão ameaçado, providências cosméticas foram tomadas, alguns funcionários afastados, mas o aparelhamento e a ineficiência impune continuaram como antes. O resultado está se vendo agora: quase um terço das cartas enviadas é entregue com atraso ou some, provocando grandes prejuízos aos que confiavam nesse serviço, que até há alguns anos era considerado eficiente. Hoje, parece o Senado.

Como é um monopólio estatal, ou "do povo", como dizem os estatistas, o prejudicado é o próprio povo, que não tem nenhuma alternativa e nem a quem cobrar. Quem paga os constrangimentos e os prejuízos dos que perderam prazos e pagaram multas e moras por culpa dos Correios? E os bons pagadores que ficaram inadimplentes?

O efeito colateral do aparelhamento e da corrupção é a ineficiência, porque desmoraliza e desestimula os funcionários honestos e eficientes e provoca um processo de deterioração dos serviços. Como ocorre nos Correios.

Perguntem aos que usam serviços privados e competitivos como o Fed Ex ou o DHL se as suas correspondências - no mundo inteiro - chegam atrasadas ou somem? Nunca, porque senão eles se desmoralizam e quebram. Por que essas empresas conseguem cumprir seus serviços e os Correios - com todas as vantagens do monopólio e os sacos sem fundo das verbas públicas - não? A explicação começa com as inesquecíveis imagens de Maurício e sua patinha de lobo.

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