Apadrinhada por Gabriel García Márquez, Socorro Acioli lança seu primeiro romance

'A Cabeça do Santo' nasceu a patir de oficina ministrada pelo escritor em Cuba

Rodrigo Petronio, Especial para o Estado de S. Paulo

11 de abril de 2014 | 20h15

A Cabeça do Santo é o primeiro romance de Socorro Acioli, conhecida por sua produção infantojuvenil e de ensaios biográficos. Foi desenvolvido pela escritora na oficina Como Contar um Conto, ministrada em Cuba pelo mestre Gabriel García Márquez.

Desde o título, o leitor é conduzido a uma imagem poderosas e enigmática, no centro da narrativa. O que seria essa cabeça do santo? Samuel sai de Juazeiro do Norte e caminha 16 dias até Candeia para cumprir os últimos pedidos de sua mãe, Mariinha, que acaba de morrer: acender três velas para os santos de devoção materna e encontrar a avó e o pai, que Samuel nunca conhecera.

Mesmo disposto a realizar essa jornada, Samuel guarda enorme rancor do pai. Acredita que ele fora o responsável pela transmissão de sífilis e pela degeneração de Mariinha. Ao chegar miseravelmente a Candeia, encontra uma estátua gigante de santo, decomposta e abandonada pelo povo, que a julgava maldita. Decide instalar-se na cabeça.

Algo inesperado acontece. Samuel começa a ouvir vozes no interior da cabeça. Dentre elas, uma se destaca. A Voz feminina canta todos os dias, sempre às cinco da manhã e às cinco da tarde. A partir dessa sua nova condição auricular, Samuel assume o papel de intercessor. Começa a produzir casamentos.

Candeia associa-os a milagres. Samuel torna-se um mediador de Santo Antonio. Candeia renasce. Converte-se em fenômeno religioso e turístico. Logo, os antagonistas políticos, liderados por Osório, começam a temer esse êxito. Esperavam pelo sucateamento final de Candeia. Assim comprariam suas terras devolutas e as revenderiam para a construção de um a fábrica.

Socorro manuseia bem esse esquema ficcional. O encontro com o pai, o cumprimento das promessas e o fim dado a Candeia conseguem produzir um desdobramento inesperado. Por sua vez, a narrativa paralela da menina Rosário apresenta uma sugestão para a origem da Voz, que deixo aqui franqueada à descoberta do leitor. A partir desse paralelismo, Socorro produz a emergência da segunda história na primeira, como ensina outro mestre de escrita, Ricardo Piglia.

O crítico Tzvetan Todorov formulou uma clássica definição de literatura fantástica, alocando este gênero entre O Diabo Enamorado, de Jacques Cazotte, de 1772, e Kafka. Desde então, entre o realismo fantástico, o maravilhoso e o mágico, há um controverso debate para circunscrever os desdobramentos desse gênero na América Latina. A despeito do débito que a obra de Socorro mantenha com seu preceptor García Márquez, e independentemente da acepção teórica adotada, é inegável a vinculação que seu romance estabelece com esse gênero.

Pode-se perceber na obra alguns critérios de Todorov para a definição do fantástico, como a suspensão das leis da natureza. Outros, entretanto, não se enquadram. Isso leva-nos a alocar A Cabeça do Santo nas reformulações de David Roas, um dos mais importantes teóricos do fantástico na atualidade. Nesse sentido, poderíamos arriscar que a obra de Socorro estaria entre o estranho e o fantástico.

A linguagem é econômica. A narrativa articula temas que vão da religião à política e das relações familiares ao mistério. O romance como um todo, porém, parece não lançar uma interrogação central. Pelo contrário, o reconhecimento efetuado por Samuel apresenta uma resposta ainda que parcial a seu drama. E esse é um aspecto deceptivo para o leitor. A forte interrogação visual fornecida ao leitor pelo santo decapitado, argumento central da narrativa, acaba perdendo em força ao se elucidar em uma equação plana.

Uma obra não veicula uma ideia. Essa concepção pressupõe uma distinção entre forma e conteúdo. A arte é um ideal feito real, porque é forma tangível. Se a arte é a materialização da história como forma, como pensa Adorno, sobrepor a perícia de narrar ao sentido do narrado talvez seja uma marca do nosso espírito de época.

Entretanto, ao analisar uma obra, não podemos nos furtar de fazer a fundamental pergunta sobre a pergunta que essa mesma obra encerra. Afinal, desde a sua origem, diferente do mito, a literatura consiste em uma pergunta, não em uma explicação. Nesse sentido, a literatura é uma cabeça separada do corpo. Não uma elucidação dos motivos da decapitação.

A CABEÇA DO SANTO

Autora: Socorro Acioli

Editora: Companhia das Letras (176 págs., R$ 37)

RODRIGO PETRONIO é escritor, filósofo, professor da FAAP e do Museu da Imagem e do Som (MIS).

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