Aos pais e mestres com carinho

Numa escola sem partido, quais autores seriam permitidos? Como a História seria ensinada?

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2017 | 02h00

Se o projeto escola sem partido for adiante, nossos melhores historiadores e escritores serão chamas da grande fogueira da intolerância, livros queimando em pátios, numa inquisição ideológica de que ninguém tem saudades. 

História é a versão dos vencedores, literatura, dos vencidos, escreveu Nicolau Sevcenko. Ambas são interpretações. Não se escreve ciências humanas com a lógica da matemática. História é feita por homens, não por números. Por trás dela, conflitos, contradições: dialética. 

O herói de hoje pode ser o vilão do amanhã. História é reescrita. O tempo interfere. Napoleão foi herói de Marx e Hitler. Foi massacrado e endeusado.

Um vereador paulistano de 20 anos tomou a bandeira da escola sem ideologia, faz ameaças, promove campanha em redes sociais, em que pede que pais e alunos dedurem professores que ensinam história ou literatura com... Versões? 

A ação lembra a Revolução Cultural Chinesa, em que estudantes maoistas deduravam pais, perseguiam e humilhavam professores nas ruas. Na minha juventude, a Revolução Cultural era um exemplo a ser seguido por jovens de todo o mundo. Mao morreu, e a verdade veio à tona. Foi um terror praticado por jovens manipulados.

Foram comunistas de carteirinha Monteiro Lobato, Oswald de Andrade, Graciliano Ramos, Ferreira Gullar, Jorge Amado, Carlos Drummond. Três estão na lista dos sete livros exigidos em 2017 pela Fuvest (42,8%). São lidos há décadas por estudantes de todo o Brasil. Quem questiona a qualidade literária dos indicados? Algum efeito danoso é detectado na nossa juventude?

Drummond e Portinari foram convidados a concorrer nas eleições de 1946 pelo PCB. Amado concorreu e foi eleito deputado. Escreveu: “O PC do Brasil pode se orgulhar de ter sido nos últimos 15 anos o melhor apoio e incentivo dos escritores e artistas”. Muitos romperam com o partido anos depois, quando se descobriu o quanto Stalin perseguiu escritores e artistas e cientistas e etnias e religiosos e adversários e trotskistas e vizinhos e professores.

O debate está polarizado. A estupidez maniqueísta, bem versus mal, aproveita-se do descrédito das instituições.

Uma carta aberta dirigida à direção do Colégio Santa Cruz, organizada num grupo de WhatsApp, a nova praga entre pais de alunos, com a assinatura “pais de alunos”, criticou a visão ideológica “pró-esquerda” de muitas aulas, em especial as de História. A notícia foi destaque na coluna de domingo de Sonia Racy.

O que muitos se perguntaram é o que tais pais pretendem de uma escola que dê noções de cidadania e liberdade de escolha. Pais que podem optar pelo ensino privado escolhem escolas por afinidade ideológica ou religiosa.

Em resposta, o Santa Cruz afirmou que seus professores são comprometidos com os alunos não só para “favorecer sua autonomia intelectual e existencial”, mas também para “colaborar com a compreensão e transformação desse mundo múltiplo”.

Lá são indicados livros como O Aleph (Borges), Aquele Que Diz Sim e Aquele Que Diz Não (Brecht) e Entre Quatro Paredes (Sartre). Brecht era tão comunista que, ao fim da guerra, foi morar em Berlim Oriental. Ao que consta, foi o único grande intelectual a preferir o lado de lá do Muro, por opção. 

Sartre apoiava a luta armada brasileira. Com Godard e Glauber Rocha (o cinema novo estava cheio de comunas, a começar por Nelson Pereira dos Santos, hoje na ABL), arrecadava dinheiro na Europa para a ALN de Marighella, popularíssimo por lá em função da publicação do best-seller Manual do Guerrilheiro Urbano. Borges era um ultraconservador que não se posicionou contra a ditadura argentina.

Estudei no Santa Cruz. Gerações de Paiva estudam e estudaram lá. Estudei com industriais, banqueiros, varejistas e filhos de profissionais liberais. Tivemos três professores de história presos em 1975, na leva que arrastou o PCB para a morte. 

Os três professores sobreviveram à tortura do DOI-Codi, promovida por Brilhante Ustra, homenageado no Congresso pelo deputado Jair Bolsonaro, chamado de “mito” pela extrema-direita brasileira.

Um deles, Luiz Roncari, é leitura obrigatória na Escola Vera Cruz (Dos Primeiros Cronistas aos Últimos Românticos), em que também se lê Hobsbawn, historiador marxista, e Sevcenko. No Miguel de Cervantes, os comunistíssimos Lorca e Neruda são lidos como os anticomunistas Vargas Llosa e Borges.

Numa escola sem partido, quais autores seriam permitidos, comunistas arrependidos, como Gullar, trotskistas, neoliberais ou reacionários assumidos, como Nelson Rodrigues? Como a História seria ensinada?

 

Como explicar as nuances das lutas sociais, movidas por ideologias que se aprimoram, contrapõem-se, contradizem-se, a um vereador de 20 anos, ou a pais não sintonizados com as diretrizes das escolas de seus filhos, neomilitantes de redes sociais, que dividem o mundo entre o sim e o não? 

Nenhum dos meus colegas filhos de banqueiros, industriais e varejistas negou o capitalismo. A maioria continua trabalhando nos negócios da família. Um deles começa a presidir o maior banco privado do País (o segundo do Hemisfério Sul) em maio. Adora cinema e literatura, investe em cultura, prêmios e feiras literárias, promove e produz conteúdo, patrocina revistas de arte e de debates democráticos.

Ler existencialistas, autores russos, brasileiros, com consciência social, nos transforma, nos faz questionar o porquê das injustiças, identificar a luta de classes, entender conflitos do passado e presente, respeitar a liberdade de expressão, de pensamento, os movimentos sociais, as diferenças. E, sobretudo, lutar por um mundo melhor.

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