Aos 80, gênio do improviso ainda em estado de graça

A hiper criatividade do octogenário saxofonista Ornette Coleman remete a um estado quase infantil. Em show no Sesc Pinheiros, no sábado, o mestre ria sozinho com espontaneidade durante os característicos silêncios que dividem o frenesi emaranhado de temas como Song X e Chronology. As frases pareciam fazer cócegas e Ornette deixava a música tomar seu próprio rumo, transitando entre o blues mais simples e às improvisações coletivas mais densas com ingenuidade arrebatadora, como se fosse a solução encarnada do famoso dilema de Picasso: "Toda criança é artista. O problema é como permanecer artista quando ela cresce."

Crítica: Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2010 | 00h00

Acompanhado de Tony Falanga no baixo acústico, Albert Mac no baixo elétrico e seu filho, Denardo Coleman na bateria, Ornette tocou os greatest hits da época em que começou a virar o jazz de ponta cabeça com os discos The Shape of Jazz to Come, Something Else e Change of the Century. Os clássicos temas Peace e Blues Connotation transbordaram com o lirismo elegante e onomatopaico de seu sax de acrílico. E mesmo que o sopro fosse leve - afinal, são quase 60 anos de estrada- não houve compasso sem contundência, não houve notas desperdiçadas.

O repertório antigo trouxe à tona as influências mais presentes no estilo do saxofonista: o rhythmn and blues texano e o bebop de Charlie Parker. Para curiosos e não adeptos do free jazz, foi uma aula de improvisação livre que deixou claro o quão fincado na história da música negra o gênero era na época em que parecia desconstruir tudo o que já havia sido estabelecido.

Após a exposição dos temas, o grupo partia para improvisações graciosas que mesmo em seus momentos mais eufóricos respiravam com a calma e sabedoria de Ornette. A essência do free, o bicho de sete cabeças dos gêneros de jazz, era definida simplesmente como um estado de graça criativa em que tudo vale: Ornette viajava por melodias de simplicidade encantadora em Dancing in Your Head. Seu baixista citava Beat It, de Michael Jackson. A coisa ficava cabeluda em Song X; hipnótica e enigmática em Lonely Woman. Em Bach, o grupo improvisou sobre a famosa suíte n.º 1 para violoncelo de Bach. Mas em poucos minutos, o que parecia ser uma citação desnecessária, de apelo romântico fácil, havia sido transformado em uma pungente desconstrução, um diálogo marcante entre dois gênios.

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