Aos 80 anos, está cheia de projetos

Aos 80 anos, está cheia de projetos

Acervo tem mais 7 clássicos em fase de restauração e será aberto ao público

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2010 | 00h00

"Morreu a Nilza Magrassi!" O lamento, na tarde de 12 de março, veio de Alice Gonzaga, provavelmente uma das poucas que se deram conta da morte da atriz, que iniciou carreira nos primórdios do cinema brasileiro. Nilza fez filmes da Cinédia, fundada pelo pai de Alice, Adhemar Gonzaga. A produtora, que ajudou a consagrar Carmen Miranda, Dalva de Oliveira, Paulo Gracindo e Dercy Gonçalves, fez 80 anos em março e tornou-se referência por seu esforço pela preservação da memória do cinema nacional.

Entre os filmes de Nilza, está Bonequinha de Seda, de 1936, considerada a primeira superprodução tupiniquim, por ter inaugurado uma série de inovações, como o uso da grua e de maquetes. Bonequinha faz parte de um pacote de sete clássicos cujo restauro está sendo finalizado. Os outros são Berlim na Batucada, de 44; Obrigado Doutor, Poeira de Estrelas e Estou Aí, de 48; Dominó Negro, de 50; A Inconveniência de Ser Esposa, de 55.

Registros. Independentemente da qualidade desses filmes, o que se quer é conservar registros do cinema que se fazia no Brasil na primeira metade do século passado. "É menos importante tachar os filmes de bons ou não. É sempre enriquecedor descobrir aspectos da vida da época, ver os atores que estavam começando, cantoras que eram fenômenos no rádio... Muitos registros visuais dessas cantoras existem basicamente nos filmes da Cinédia", diz Hernani Heffner, coordenador da área de restauração da produtora.

"Não é apenas a salvação desses filmes. Temos de mostrá-los em festivais e na TV. O público tem curiosidade. Quando o Canal Brasil passou O Ébrio (de 46, com Vicente Celestino) foi o maior sucesso, ele agrada a todas as classes", garante dona Alice, que está à frente da Cinédia desde os anos 70 e segue fazendo planos para a empresa.

O trabalho de recuperação, que consiste na retirada de riscos e ondulações da película, entre outras imperfeições, não interessa somente a gente como Heffner, funcionário da Cinédia desde 86 que era pesquisador de cinema até, por força do destino, virar um especialista em restauro. Tudo começou com a enchente de 1996, que pôs a perder muitos rolos então guardados nos arquivos do antigos estúdios da Cinédia, em Jacarepaguá, na afastada zona oeste do Rio. Os filmes ficaram cobertos de lama. Heffner foi chamado a colaborar para a recuperação e desde então se dedica à nobre tarefa. De lá para cá, empenhou-se na restauração de filmes importantes da cinematografia brasileira, como Mulher (31), Romance Proibido (44), O Cortiço (45) e Anjo do Lodo (50), além dos clássicos insuperáveis O Ébrio e Alô, Alô Carnaval (36).

Salvos. No total, 17 dos 55 longas produzidos pela Cinédia estão salvos. Fragmentos de 49 deles ficam guardados parte na cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio, parte na Cinemateca Brasileira, em São Paulo - dos demais, não há sinal. Em alguns casos, tem-se a imagem, mas não o som. Naturalmente, os lapsos dificultam bastante o trabalho, elevando-o à categoria de desafio.

Do original de Dominó Negro, por exemplo, faltava o segundo rolo de imagem e o sexto de som. Os técnicos saíram à cata de materiais adicionais, e acabaram conseguindo uma cópia de 16 milímetros, incompleta, mas útil como referência. Por fim, ainda faltam 40 dos 80 minutos do filme. Uma frustração para os pesquisadores, mas ao menos a compreensão da trama não está comprometida, diz Heffner.

No caso de Estou Aí, com Emilinha Borba, só sobreviveu uma cópia de 16 mm, de cineclubistas, mas foi possível recuperar 95% do filme. O problema é que faltou justamente o número final de Emilinha, a favorita da Marinha, cantando o hino Cisne Branco.

Os dois filmes, além de Obrigado Doutor, Poeira de Estrelas e A Inconveniência de Ser Esposa, são de Moacyr Fenelon, um dos primeiros sonorizadores do cinema brasileiro e que iria se tornar fundador da produtora Atlântida. Na Cinédia, Fenelon trabalhou entre 1948 e 1951. Além de diretor, foi também produtor, e seus filmes são marcados por uma certa preocupação social, expressa, por vezes, nas falas de algumas personagens.

Em agosto, os filmes de Fenelon - cujo restauro, patrocinado pela Petrobrás, começou no fim de 2007 e custou R$ 300 mil - serão exibidos numa mostra no Instituto Moreira Salles, no Rio. Em setembro, durante o festival Cine Música, na cidade de Conservatória (RJ), que exalta músicas de filmes nacionais, será exibido o documentário A Voz do Carnaval, de 33, com Carmen Miranda. De Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro, o filme, que está sendo recuperado, não passa desde seu lançamento, no Cine Odeon, no centro do Rio. Tem imagens preciosas do carnaval carioca da época. Já em dezembro, outros clássicos da Cinédia, como Ganga Bruta (33), de Humberto Mauro, e Mulher (31), de Octavio Gabus Mendes, serão exibidos em outra retrospectiva, também no IMS.

Planos. Os planos da Cinédia incluem ainda cursos, a partir de junho, na sede da produtora, um charmoso casarão de 480 metros quadrados construído em 1888 no bairro de Santa Teresa. Entre as cadeiras, História do Cinema Mundial, com Heffner como professor. "Quero fazer da Cinédia um centro cultural do cinema brasileiro", diz a incansável Alice Gonzaga. O arquivo de documentos e fotos da produtora será digitalizado e disponibilizado a todos os amantes dessa história.

PRINCIPAIS OBRAS

Alô Alô Carnaval

Comédia musical de 1932, foi lançada nos cinemas quatro anos depois com grande sucesso. A ideia do filme surgiu da necessidade de se apresentar ao grande público os grandes cantores da fase de ouro do rádio brasileiro. Trata-se do único longa dos quais Carmem Miranda participou que sobreviveu ao tempo.

O Ébrio

Dirigido por Gilda de Abreu em 1946, o filme foi produzido por Adhemar Gonzaga e alcançou grande sucesso. Foi escrito por Gilda e seu marido Vicente Celestino, protagonista que canta a conhecida música tema no final, em um bar.

Barro Humano

Rodado apenas nos fins de semana e feriados de 1929, o filme apresenta as principais convicções estéticas e estilísticas de Adhemar Gonzaga para o cinema mudo.

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