AOS 74 ANOS, MORRE PERY RIBEIRO

Filho de dois mitos, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, cantor da bossa nova sofreu enfarte fulminante ontem

ROBERTA PENNAFORT / RIO , O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2012 | 03h08

Cantor da bossa nova e guardião da memória dos pais, o compositor Herivelto Martins e a cantora Dalva de Oliveira, Pery Ribeiro morreu ontem de manhã, aos 74 anos, de enfarte, em Niterói. Ele estava havia 30 dias internado, para tratar de uma endocardite. Pery entrou para a história da música brasileira por ter feito a primeira gravação, no LP Pery É Todo Bossa, de Garota de Ipanema, maior sucesso de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. A música foi composta em 1962 e o disco saiu no ano seguinte.

Pinta de galã, com os belos olhos verdes da mãe, chamado então "a voz mais bonita do País", ele gravou outros clássicos da bossa, como Manhã de Carnaval e Samba de Orfeu, ambos de Antonio Maria e Luiz Bonfá, e viajou pelo México e os Estados Unidos com conjuntos como o Bossa Rio, de Sérgio Mendes, e o Bossa Três, de Edison Machado, Luís Carlos Vinhas e Tião Neto.

Uma companheira de palco constante foi Leny Andrade - entre 2004 e 2005, eles correram festivais de jazz na Europa com o show Bossa Nova Legends.

Desde o início da carreira foi ofuscado pelos pais, ele, um dos maiores compositores brasileiros; ela, a grande cantora. E não só artisticamente. O relacionamento explosivo dos dois, que terminou com Herivelto se unindo à aeromoça Lurdes Turelly e que foi retratado então nas revistas e recentemente na série de sucesso Dalva e Herivelto - Uma Canção de Amor, sempre esteve em sua pauta.

A série se baseou em Meus Dois Amores, livro de memórias que Pery lançou em 2006, em parceria com a segunda e atual mulher, Ana Duarte, quatro anos antes de o programa da TV Globo ir ao ar. No livro, ele conta como foi crescer entre as brigas e as viagens a trabalho dos pais e assistir à ruidosa separação, aos 13 anos.

Pery foi precoce. Fez-se artista aos 3 anos, como dublador de desenhos de Walt Disney. No ano seguinte, apresentou-se cantando no Municipal do Rio. Aos 7, atuou no sucesso da Cinédia Berlim na Batucada.

Aos 22 anos, trabalhando na TV Tupi como operador de câmera, recebeu o convite para cantar. Foi quando Peri de Oliveira Martins virou Pery Ribeiro - sugestão do famoso radialista César de Alencar. A voz aveludada e o balanço eram as suas características mais marcantes.

Dalva deu força à sua carreira ao cantar sua Não Devo Insistir em 1960 (uma das seis composições de Pery que vieram à tona). No mesmo ano, ele gravou seu primeiro compacto. Era um romântico, que gostava de cantar o amor e o Rio (foi intérprete de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, de O Barquinho, Ah Se eu Pudesse, Você e Rio). Em 1980, gravou outros hits da bossa, em inglês. De 1962 a 2007, foram 26 discos.

Nos 80 anos de Herivelto, em 1992, ano de sua morte, cantou num show especial no Municipal. Em memória da mãe, participou de um CD-tributo. Duas faixas eram duetos póstumos gravados digitalmente. Em 2004, ele integrou os shows Bossa Nova in Concert, com nomes como Johnny Alf, João Donato, Carlos Lyra e Marcos Valle.

Pery tinha dois filhos. Sua mulher, e também sua empresária, contou que ele estava com a alta do Hospital Antonio Pedro, em Niterói, já prevista. O enterro ainda não estava definido até o fechamento desta edição. O velório seria na Câmara dos Vereadores. "Pery estava em tratamento e todo os exames haviam dado negativo. A alta seria na semana que vem. O enfarte pegou todo mundo de surpresa. Ontem à noite estava ótimo, conversando. Ele podia estar fora do hospital, cantando, e isso acontecer."

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