Aos 50 anos, "Mad" descobre que foi vigiada pelo FBI

Pouco antes de morrer, em 1957, o senador Joe McCarthy, mentor e comandante-supremo da caça às bruxas que em sua homenagem batizaram de macarthismo, levou até os inquisidores do Comitê de Investigações de Atividades Antiamericanas uma estranha figura, de semblante adolescente e apalermado. Ruivo, sardento, orelhas de abano e uma vistosa frincha nos dentes da frente, ao ouvir a indefectível pergunta do Comitê ("O sr. é ou já foi membro do Partido Comunista?"), abriu ainda mais o seu sorriso zombeteiro e comentou: "What, me worry?" Alfred E. Newman perseguido pelo macarthismo? Isto mesmo. A cena acima, contudo, é pura ficção. Como ficcional foi a aventura de Howard Prince, o testa-de-ferro por acaso encarnado por Woody Allen naquela catártica comédia sobre o macarthismo dirigida por Martin Ritt. Mas ela poderia ter acontecido se Alfred E. Newman, o ruivo, aparvalhado e sardento mascote da revista Mad, existisse de verdade, não fosse apenas um herói (ou um anti-herói) de papel. Em pleno festejo dos seus bem vividos 50 anos, a revista Mad ficou sabendo que, durante 14 anos, o FBI a manteve sob estrita vigilância, enchendo pastas e mais pastas de observações sobre suas "atitudes subversivas". O Dossiê Mad, revelado há duas semanas, não chega a ser uma grande surpresa para quem conhece o histórico do FBI enquanto à sua frente esteve o autoritário, hidrófobo e paranóico J. Edgar Hoover. Por desconfiar de tudo e todos, Hoover pôs seus investigadores na cola de uma infinidade de pessoas e instituições. "Aqui em Hollywood, só a Lassie e o Mickey nunca foram espionados por agentes federais", debochou Groucho Marx, num programa de TV, três anos antes do suicídio da atriz Jean Seberg, talvez a mais trágica vítima das torpezas que vez por outra o FBI assacava contra os seus desafetos. Entre 1957 e 1971, as páginas do Mad foram perscrutadas e maldosamente interpretadas pelos analistas de Hoover, por recomendação de pessoas indignadas com uma campanha contra o alistamento militar lançada pela revista. Sua reputação só fez piorar quando inventou e fez propaganda de um medicamento chamado J. Edgar Hoover Tonic, recomendável para quem tinha excesso de glóbulos vermelhos. Entre as diversas "evidências" de que a revista "fazia o jogo dos comunistas", o dossiê aponta um artigo sobre como fazer chantagem por carta e outro em que a bandeira americana "é desrespeitada". Senso de humor nunca foi o forte dos órgãos de repressão. Em respeito ao cinqüentenário da revista, esqueçamos as bobagens do FBI e relembremos sua gloriosa trajetória. Ou, pelo menos, o início de sua gesta. Sua mais remota referência é um irrequieto e brilhante judeu do Bronx, chamado Harvey Kurtzman. Metido no mundo dos quadrinhos, produzia, no final dos anos 40, dois gibis ambientados na 2.ª Guerra Mundial (Two-Fisted Tales e Front-Line Combat) para a Entertainment Comics, que eram dois primores de realismo. Nas aventuras de guerra desenhadas por outros artistas, os soldados de Tio Sam não sangravam nem sentiam medo, estavam sempre do lado certo e só matavam inimigos caricaturais. Nas de Kurtzman, a guerra era pra valer, realista ao máximo, com sangue jorrando aos borbotões e heróis sujeitos a fraquezas e sem o menor glamour. Cansado das exaustivas pesquisas que fazia junto a especialistas e ex-combatentes, Kurtzman resolveu criar uma revista radicalmente diversa das que lotavam as bancas e pudesse ser desenhada e editada sem consultorias, usando única e exclusivamente a imaginação. Achava quase todos os gibis em circulação repressivos e danosos à mente das crianças. "Um mundo idealizado, sem um pingo de verdade, é só isso que eles sabem explorar", queixou-se a outros três ilustradores da Entertainment Comics, que não só concordaram como a ele se associaram para dar vida à "revista ideal": livre como um pássaro e sem preocupações mercadológicas. Kurtzman bolaria as histórias e desenharia um esboço de cada uma delas, ajudado por seu ex-colega de colégio, Will Elder, que executaria o resto do serviço com Wally Wood e Jack Davis. Com esses quatro exuberantes talentos à solta, Mad não tinha como dar errado. E não deu. Foi um dos maiores fenômenos editoriais americanos do século passado. Em seu mais bonançoso período, chegou a vender quase 3 milhões de exemplares por mês. Com repercussão internacional. Há versões do Mad em vários idiomas, inclusive em português, editada no Rio. Seu primeiro número, com data de capa de outubro-novembro de 1952, chegou às bancas com dois meses de antecedência. A garotada americana aderiu em massa. Ali estava a revista dos seus sonhos: irresistivelmente paródica, anárquica, debochada, iconoclasta, cheia de hipérboles gráficas e emoções hipertrofiadas. Na capa, uma família americana bem careta, encoberta pela sombra de um monstro. Os pais se arrepiam e perguntam: "O que é isto?" O filho, impassível e a tirar meleca do nariz, responde: "É o Melvin!" Melvin se transformaria num fantasma onipresente e até ganhou sobrenome (Cowznofski), cortesia do comediante Ernie Kovacs. Passados alguns números, um adolescente sardento, orelhudo, com cara de idiota e uma falha nos incisivos frontais, sempre a alardear sua despreocupação com o mundo ("What, me worry?"), tomou conta do pedaço. Símbolo, mascote, emblema, Alfred E. Newman é a encarnação perfeita do humorismo irreverente, cínico e trashy da revista. Um baluarte contra a hipocrisia, na visão de seus incondicionais leitores. Uma influência nefasta sobre as crianças da América, na visão de seus pais conservadores. Em certas cidades do interior dos EUA, ele e Mad foram denunciados como desagregadores da civilização cristã e ocidental. Disseram o mesmo de Voltaire, Jonathan Swift e Rabelais. Alfred e seus criadores estavam em boa companhia. Foi em parte por causa da Mad que o tristemente célebre dr. Fredric Wertham desencadeou, em 1955, uma campanha nacional contra os quadrinhos, por ele demonizados como um estímulo à delinqüência juvenil. Por coincidência, também foi no terceiro aniversário da revista que Kurtzman bateu de frente com o publisher William Maxwell Gaines e caiu fora. Nada a ver com censura ou qualquer outra forma de cerceamento da criatividade. O barbudão e prazenteiro Gaines simplesmente queria virar sócio majoritário da empreitada. Kurtzman fundou outras revistas, sem a influência e a duração do Mad, entre as quais Help!, em cuja redação trabalhava a feminista Gloria Steinem e dois criadores do grupo Monty Python, Terry Gilliam e John Cleese, se conheceram. Depois, bandeou-se para a Playboy, onde reciclou sua vocação para a paródia, injetando sexo numa réplica de Aninha, a Órfã, a que deu o nome de Little Annie Fannie. Kurtzman era um craque nessa área. Suas paródias de filmes e personagens dos quadrinhos (Prince Violent, Superduperman, Darnold Duck, Poopeye, Flesh Garden), depois desenvolvidas por Jack Davis e Mort Drucker, permanecem insuperáveis. Para os seus leitores fundamentalistas, Mad nunca mais foi a mesma depois da saída de Kurtzman. Como não sou um Madmaníaco xiita, ponho nisso um grão de sal. Claro que o gibi de humor mais famoso do mundo não tem mais a força de antigamente. Mas sobreviveu a Hoover (morto em 1972), continua vivo, e é isso que importa. Longa vida a Alfred E. Newman.

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