Ao som de blues e Pixinguinha

O cartunista Robert Crumb fala com exclusividade sobre música - e a necessidade de desenhar

Bruno Dorigatti ESPECIAL PARA O ESTADO PARATY, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2010 | 00h00

Crumb. "Sempre tive muito prazer em colocar fantasias no papel. Era algo que precisava fazer. Hoje nem tanto, estou muito velho agora"

 

 

"Com licença, poderia lhe dar estes vinis?" Robert Crumb estava em sua pousada após a coletiva de imprensa e a assessora da Conrad, editora que publica seus álbuns no País, havia me dito que talvez conseguisse entregar a ele os LPs e dois 78 rotações que havia trazido do Rio. Como Crumb, também aprecio o som dos anos 1920 e 1930, o blues e jazz dos norte-americanos e o nosso choro e samba. Pensei que o quadrinista, autor de Blues (livro sobre obscuros blueseiros como Charley Patton) capas de vinis e revistas retratando os velhos músicos daquele tempo e histórias onde transparece sua irritação com o barulhento rock"n"roll, pudesse interessar-se pelo som de gente como Pixinguinha, Altamiro Carrilho, Canhoto, Noel Rosa, Jacob do Bandolim e Época de Ouro, Aracy de Almeida, Paulo Moura.  

 

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Crumb me disse que, entre esses, conhecia Pixinguinha e Lupércio Miranda e ficou curioso para ouvir os 78. E topou bater um papo, falando sobre as músicas que ouvia em casa, quando criança, no rádio da mãe, como conheceu as velhas músicas nos antigos filmes do início século e como era difícil achar esse som nos anos 1950, logo após a explosão do rock, quando pela primeira vez a juventude americana foi vista como mercado consumidor em potencial.

O quadrinista de 67 anos também falou dos tempos em que começou a publicar suas histórias, em São Francisco no fim dos 1960, quando em que a contracultura americana explodia. Crumb folheava o recém-lançado Meus Problemas com as Mulheres (ele ainda não havia visto a edição brasileira) e o papo começou com os comentários sobre histórias e retratos dos 1960, 1970 e 1980. "Que homem doente", comentou ele.

 

Você se vê como doente?

Sim, claro, mas todos eram meio loucos.

 

Como é fazer esses desenhos?

É um prazer, um grande prazer desenhar essas coisas. É uma espécie de masturbação. Sempre tive muito prazer em colocar essas fantasias no papel. Era algo que tinha necessidade de fazer. Hoje nem tanto mais, estou muito velho agora.

 

 

E poderia falar de suas primeiras memórias musicais? Ouvia muita música quando criança?

Claro, mas a maior parte da música que eu ouvia era ruim. Aquela música popular que minha mãe ouvia no rádio, dos anos 1940 e começo dos 1950. A pior música popular, de cantores que vocês talvez não conheçam aqui, Frank Sinatra...

 

Ele é bem conhecido aqui...

Doris Day, Patty Como, coisas horríveis. Ela me falou mais tarde que gostava de ouvir polca no rádio. E quando surgiu a televisão, no começo dos 1950, eu assistia àqueles velhos filmes de 1931, 1932 e eu realmente gostava da música que havia lá, por alguma razão que nem sei. Comecei a procurar aquela música no rádio, em discos, e não conseguia achá-la. Até que encontrei aqueles discos de 78 rotações bem velhos, quando tinha 16, 17 anos. Descobri que as músicas daqueles filmes estavam nesses discos. Aí me tornei completamente viciado em procurar essas gravações. Eu apenas tinha de ouvir aquela música, não sei por quê. Uma espécie de intoxicação com aquela velha música. Eu ainda sou intoxicado por ela.

 

 

Por outro lado, você é associado com a música dos anos 1960, o rock e a contracultura, mas você odeia aquilo.

Meus quadrinhos fizeram parte daquela cultura hippie, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors, Jim Morrison. Então relacionavam minhas histórias hippies com aquela música, mas aquilo não me interessava. Não convivia com eles. Conheci Janis Joplin, ela me pediu para fazer aquela capa de Cheap Thrills. Mas não tinha conexão com eles. Estava fora daquilo, desenhando o tempo todo, era o que fazia, desenhava.

 

 

E por que esse período da música o fascina?

Não sei, mas essa música americana como o jazz, a partir dos 1930, não me interessou mais, tirando algo de country e do blues. E me interesso pela música de outros países, alguma coisa dos 1950. E gosto de algo dessa época, aqueles velhos rockabillies. É estranho, pois não tenho aquela sincronia com o meu tempo, é muito estranho, desconfortável, mas quando eu escutava aquela música em casa, sozinho, era e é profundamente prazeroso. É mais autêntico para mim, mais real, uma coisa engraçada, sou preso àquilo, que é de antes de eu ter nascido. Minha mãe gostava de Benny Goodman, Glenn Miller, Art Shaw, mas a música que eu gostava era do tempo dos meus avós. E termina no começo dos 1930.

 

Você também desenhou histórias sobre músicos obscuros, como Charley Patton.

Fui fazer isso mais tarde, até porque não havia informação a respeito. Tinha poucos livros sobre jazz, mas coisas sobre Patton, não encontrava. As pessoas estavam começando a pesquisar aquilo, alguns amigos da minha idade também curtiam aquilo no começo dos 1960, iam para o Sul, Mississippi, Louisiana, Alabama e Kentucky, procurando discos e pesquisando sobre as pessoas que faziam aquelas músicas.

 

 

E a história de você batendo de porta em porta, perguntando se aquelas pessoas com os 78 gostariam de se desfazer daquilo?

Sim, eu fiz aquilo e achei bons discos assim. Li um livro sobre jazz de 1939, que tinha um capítulo, Procurando Discos, e falava sobre bater nas portas da vizinhança negra. Eu tinha 18, 19 anos quando saí batendo nessas portas, em Delaware, onde morava. E aquelas pessoas ainda tinham os velhos gramofones em casa e discos da década de 1920. Eu perguntava se queriam vender - a maioria das vezes eu conseguia e, como não tinha muito dinheiro, pagava 10 centavos por disco. Achei discos incríveis assim. E os nomes eram na maioria desconhecidos ou esquecidos e me perguntava quem era Big Bill, Saulty Dog Sand, Joe Evens, The Famous Hocken Boys. Aquela música era incrível.

*Bruno Dorigatti é editor do site SaraivaConteúdo, onde está a íntegra da entrevista

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