Ao sabor dos ventos de brasília

Prosa de Sábado

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2010 | 00h00

Ao discorrer sobre o cordão umbilical que uniu e une a jovem nação à antiga metrópole, o intelectual pós-colonial sempre se vê em apuros. Que durante os movimentos de insurgência seus antepassados tivessem tentado cortar o cordão a espadadas, isso é sabido. Também é sabido que, no ato de Independência, o bisturi nacionalista do imperador interveio às margens do Ipiranga. Independência ou Morte. A cicatrização do umbigo colonial não deve ser objeto de desprezo. O poder educacional e cultural do País livre se robustece com unguentos ajuizados, maliciosos e milagrosos, invocados e postos em prática pelos governantes e intelectuais. Sob o título de A Tradição Afortunada: O Espírito de Nacionalidade (José Olympio, 1968), Afrânio Coutinho arrolou as idas e vindas dos processos de cicatrização do umbigo colonial.

Acrescente-se que essa cicatrização é interminável. Distantes no espaço geográfico do planeta, mas interligados por séculos de colonização, Europa e Brasil convivem de modo desarticulado o tempo de maturação do Ocidente. Se entre os ex-colonos, cicatrização nacionalista e maturação ocidental não são expressões sinônimas, elas coincidem no objetivo, o de ultrapassar o atraso mundial pelo progresso nacional. E são responsáveis pelas teorias socioeconômicas que criam a noção de país subdesenvolvido ou em desenvolvimento. Defendida nos anos 1920 por Oswald de Andrade, a Antropofagia minimizou o ciclo da cicatrização umbilical, ocidentalizando o País pela força das ideias de vanguarda. Ao assumir a cultura indígena destruída, o País jovem operaria o milagre da maturação: "Tupy or not Tupy, that is the question."

Nas décadas de 1930 e de 1960, as relações culturais de afeto entre a Europa e o Brasil suavizam a zombeteira e guerreira antropofagia oswaldiana. Refiro-me, primeiro, à fundação da Universidade de S. Paulo (1934), quando um grupo de jovens professores franceses absorve outro preceito oswaldiano, "bárbaro e nosso", e impulsiona o conhecimento do Brasil desconhecido dos brasileiros. Claude Lévi-Strauss explorou o território indígena da nação, enquanto Roger Bastide interconectou as sociedades do Novo Mundo pela contribuição africana. Refiro-me, em seguida, ao momento em que o poeta Haroldo de Campos, inspirado pelos bons ventos soprados de Brasília, convida o filósofo alemão Max Bense a nos visitar. Desembarca no País em fins de 1961.

Aos clássicos Tristes Trópicos (Companhia das Letras, 1996), de Lévi-Strauss, e Candomblé da Bahia (idem, 2001), de Roger Bastide, veio se somar o não menos instigante Inteligência Brasileira (Cosac Naify, 2009), de Max Bense.

Se Lévi-Strauss e Bastide impulsionaram o conhecimento do Brasil bárbaro recalcado pelas elites, Bense abre diálogo franco e fraterno com os expoentes da prata da casa. Seus interlocutores são João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector e Guimarães Rosa, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, o escultor Bruno Giorgi, o pintor Volpi e os poetas concretos. Sua presença no Brasil acoberta a fundação em 1962 da Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi), que atualiza a então Velhacap pela hipótese urbanística de Brasília. Diante do naipe de ases, Bense constata: "Para o Brasil as relações econômicas não são as decisivas e sim as espirituais, e o papel de agente global não é desempenhado aqui pelo comerciante e sim pelo intelectual."

Bense não teria imaginado que, na condução do País, os comerciantes roubariam aos artistas a luz dos faróis que iluminam o futuro e que, invertidos os papéis, o milênio se abriria com Brasília sendo obrigada a estender a bolsa-família ao cidadão analfabeto. Quando e como o Brasil descarrilou? A resposta não está, obviamente, no livro.

Assegura o filósofo que falar por hipótese é algo inteiramente adequado ao Brasil que o empolga. Numa das teses básicas, Bense defende a ideia de que o sistema de possibilidades que permite as interpretações do passado (o humanismo) não se confunde com o sistema de possibilidades que determina as realizações do futuro (o urbanismo). No Brasil dos anos 1960, o urbanismo desbancava o humanismo: "O problema não é o ser ou o não ser do indivíduo ou das massas, mas a habitabilidade ou a não habitabilidade da Terra." Ao se entusiasmar mais com a aventura pela realização duma ideia, que com a própria ideia, a atualidade nacional anunciava a solução de problema ecológico, hoje candente. Incita Bense: "O gesto criador não é jamais histórico, é sempre e tão somente atual." Nesse sentido, o urbanismo não é fator de atraso político, visto que não se vincula ao fato consumado do sedentarismo burguês e proletário. Bense corrobora Clarice Lispector: "Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado."

Ao desbancar o humanismo europeu, o urbanismo brasileiro tomou como sócio o design. A ideia do desenho industrial "surge como substituta dialética daquilo que na Europa denominamos consciência histórica". Bense afirma que o Rio de Janeiro é "a cidade como prolongamento da natureza habitável", enquanto Brasília "é prolongamento da inteligência emancipada, onde as edificações estão dispostas à maneira de mobiliário". Nessa linha, observa que a paisagem paulista, que recobre a região entre Taubaté e São Paulo, se lhe afigura "como uma imensa plantação de automóveis". O jogo metafórico é sutil: as plantas industriais, onde reside a riqueza da nação emancipada pela inteligência, se sucedem criativamente às plantas de café.

Conclui Bense: "Aqui, a metade, o trivial, o improvisado, o posto de lado, o começado, o aludido, a monotonia, o desvalorizado têm de se prestar à produção de originalidade, inovação, vanguarda, estilo, criação." Através da obra e da fala dos seus artistas, a inteligência brasileira revelava então uma "essência em progresso do homem", já perdida na Europa, a viver então a aurora dos acontecimentos de 1968.

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