Ao público, com carinho

Maestro Eiji Oue fala sobre concertos com a Filarmônica de Hannover na Sala São Paulo: 'O que importa é que a música venha do coração'

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2010 | 00h00

Palavras do maestro Eiji Oue. "Estamos felizes de poder reencontrar a plateia brasileira"

 

 

Na manhã de quinta-feira, o maestro Eiji Oue acabara de chegar de um longo ensaio com a Filarmônica da Rádio de Hannover quando falou ao Estado. "Acredite quando eu digo que poucas vezes vi uma orquestra tão feliz com uma viagem quanto desta vez", ele comenta logo de cara. "Ficou entre os músicos uma energia boa da última vez em que estivemos por aí. E podem ter certeza de que faremos grandes concertos." Oue e a filarmônica tocam hoje e amanhã na Sala São Paulo. Trazem a tiracolo a violinista Isabelle Van Keulen como solista no Concerto para Violino e Orquestra de Brahms. Ela se apresenta nos dois dias - hoje, completa o programa a Sinfonia nº 9, Novo Mundo, de Dvorak.; amanhã, a Sinfonia nº 3, Eroica, de Beethoven

Maestro e orquestra estiveram por aqui em 2003, também pela temporada do Mozarteum Brasileiro. Sozinho, Oue já esteve também à frente da Osesp em algumas ocasiões e diz que, dentre os grupos com que trabalha como maestro convidado, se sente bastante à vontade com a Sinfônica do Estado, "podendo desenvolver interpretações especiais". Ele foi aluno de Seiji Ozawa e Leonard Bernstein, com quem, conta, assistiu pela primeira vez ao vivo o concerto de Brahms. Além da Filarmônica de Hannover, é diretor musical da Sinfônica de Barcelona.

"O Brahms me pareceu uma escolha interessante porque é um concerto especial, magnífico nas possibilidades que oferece para orquestra e solista", explica ele. "E realmente combina tanto com o Beethoven quanto com a sinfonia de Dvorak." São duas sinfonias célebres, adoradas pelo público... Ele mesmo interrompe e acusa o golpe. "Sei que é um programa extremamente conservador o que vamos fazer em São Paulo", diz ele, bem-humorado. "Mas não estou preocupado com isso. Não vamos tocar essas peças por conta de sua popularidade apenas. Mas também porque elas vão nos oferecer a chance de mostrar como evoluímos desde que estivemos no Brasil pela última vez. Estamos animados para mostrar ao público de São Paulo que, sete anos depois, já somos outro conjunto."

"Para uma orquestra de músicos alemães, tocar Beethoven é um ponto de honra, digamos assim, é algo que se liga a suas origens, suas raízes, da mesma forma que o checo Dvorak, na sua peça, ainda que fale da vida nos Estados Unidos, também se recorda musicalmente de sua terra natal ao longo da partitura. Ao longo dos últimos anos, temos trabalhado o grande repertório sinfônico com muito afinco, elaborando a sonoridade da orquestra. Meu Deus! É impressionante o que fizemos no ensaio agora há pouco, será uma surpresa!"

Empolgação não falta ao maestro - como então definir o Beethoven que a orquestra trará a São Paulo? Afinal, nas últimas décadas, pesquisas históricas sobre o período em que as obras foram escritas trouxeram à luz um novo Beethoven, bastante diferente daquele oferecido pela grande tradição germânica de regentes como Furtwängler, Kleiber, Klemperer... "É algo com que nós músicos precisamos lidar hoje", começa Oue. "Os estudos de maestros como Nikolaus Harnoncourt nos fizeram reaprender a música de Beethoven. Mas Furtwängler, Klemperer, eles não estavam errados! Eu perguntei sobre isso a Harnoncourt. E ele me disse: "Eiji, não se preocupe apenas em tocar o que você vê na partitura, mas sim naquilo que está atrás das notas e que surge da sua relação com esta música". É isso que tento fazer. A história da música é feita de evolução, desenvolvimento. Quanto mais informações tivermos, melhor. Mas uma coisa nunca muda: é preciso tocar a partir do coração! E é isso que vamos fazer. Será lindo!"

VIOLINISTA TEM REPERTÓRIO DIVERSIFICADO

Solista das apresentações da Filarmônica da Rádio de Hannover na Sala São Paulo, a violinista Isabelle Van Keulen tem repertório amplo, que inclui peças importantes do século 20, como os concertos para violino e orquestra de Alban Berg e Edward Elgar. Ela toca em um violino Joseph Guarnerius del Gesu, de 1734, e, no tempo livre, dedica-se também ao repertório para viola. Isabelle toca em duo com o pianista Ronald Brautigam.

 

 

FILARMÔNICA DA RÁDIO DE HANNOVER

Onde: Sala São Paulo, Pça. Julio Prestes, s/nº, 3815-6377  

 

Quando: Hoje e amanhã, 21h.  

 

Quanto: R$ 90 a 250

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