Ao pé da letra, uma Antilira poética

Versos de Circunstância reúne 295 poemas - dos quais 229 permaneciam inéditos - e dedicatórias escritos por Carlos Drummond de Andrade para homenagear colegas de ofício e fãs desconhecidos

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2011 | 00h00

São três cadernos da antiga marca De Luxe, com páginas sem pauta e uma etiqueta em cada capa: "Versos de Circunstância". Neles, o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) registrou dedicatórias e anotou versos, muitos versos, exatos 295, dos quais 229 inéditos. Cuidadosamente guardados (protegidos do fogo, traças, umidade e esquecimento, como esperava o escritor), os objetos foram reproduzidos e transformados em livro, lançado agora pelo Instituto Moreira Salles justamente com o mesmo título, Versos de Circunstância.

Organizados por Eucanaã Ferraz - que já editou dois outros livros drummondianos para o IMS -, os escritos dos três cadernos são "antiliterários por excelência, e por isso mesmo são da melhor poesia", no entender de Sérgio Milliet. Na verdade, são textos que traduzem a fugacidade e reproduzem brincadeiras com amigos, a quem também são dirigidas palavras de afeto. Assim, em Versos de Circunstância, estão reproduzidas dedicatórias de livros como Claro Enigma tanto a colegas de ofício (Thiago de Mello, Otto Maria Carpeaux e Lygia Fagundes Telles, entre outros) como a fãs desconhecidos. E também os poemas dos quais alguns desaguaram na Viola de Bolso, em suas diversas edições.

Segundo Eucanaã, o poeta "museografou" - guardou resíduos - parte de sua própria história pessoal, perfeitamente confundida com sua vida literária. "Drummond tinha clareza quanto à importância de documentos ligados à vida literária na constituição - ou reconstituição - da história de uma carreira", afirma o organizador em entrevista ao Sabático. "Ele sabia perfeitamente que correspondências, fotografias, recortes, manuscritos e outros papéis de circunstância podiam servir para a compreensão e interpretação de obras e autores. Não foi por acaso que partiu dele a iniciativa de se constituir um Museu da Literatura Brasileira na Casa de Rui Barbosa. Portanto, reúnem-se num mesmo personagem a inclinação pessoal e a consciência de um patrimônio cultural no campo específico da literatura."

O que o leitor descobre ao passear pelas páginas dos cadernos é um homem que, embora reservado no cotidiano, sentia-se liberto ao escrever. "Ele chegou dizer em um poema: "(...) me dispo, me grito, me vendo nas livrarias". Ao mesmo tempo, Drummond evitava a todo custo o derramamento emotivo", comenta Eucanaã. "Seu humor era fundamental nesse processo de economia afetiva. O fato é que Drummond sempre deixou ver suas contradições, tensões, paradoxos, desvios, desconfianças e assim por diante. Talvez, na poesia brasileira moderna, só Vinicius de Moraes tenha sido tão explícito, tão transparente."

Ao criar seu Versos de Circunstância, Drummond baseou-se naquele que é provavelmente o precursor do gênero no Brasil: Mafuá do Malungo, de Manuel Bandeira. A obra foi composta e editada artesanalmente em 1948, em Barcelona, pelo então funcionário do corpo consular João Cabral de Melo Neto. Apenas 110 exemplares foram impressos, em papel de linho.

Trata-se de uma "coleção de poemas onomásticos", avaliados como "simples brincadeiras ou palavras de afetos aos amigos e às amadas", conforme escreveu para Alphonsus de Guimaraens Filho, trecho citado no prefácio escrito por Marcos Antonio de Moraes, que lembra a tradição lírica de Stéphane Mallarmé à qual Bandeira aliava-se: versos sociais, de álbuns, de cortesia.

Empolgado, Drummond publicou um artigo no jornal Correio da Manhã do Rio, também em 1948, festejando aquela "raridade" bibliográfica. Para ele, o Mafuá do Malungo valia como "demonstração de certo poder - diabólico? angélico? - que o poeta leva consigo, para utilizá-lo nas situações da vida cotidiana em que menos poderíamos contar com a irrupção desse poder". Mais adiante, ele chega ao ponto exato da caracterização desse tipo de trabalho: "A circunstância sempre é poetizável, e isso nos foi mostrado até o cansaço pelos grandes poetas de todos os tempos, sempre que um preconceito discriminatório não lhes travou o surto lírico".

Drummond identificava as principais qualidades dos versos de "circunstância", que eram o lirismo a sério, ternura, graça triste e ironia. Incentivado pelo trabalho do amigo, começou a fazer o seu próprio. Eucanaã identifica Versos de Circunstância como uma experiência da liberdade. "Um experimento no campo livre da poesia que não almeja senão o efêmero. Isso está dentro das possibilidades abertas pela poesia moderna. E nenhum outro poeta de nossa língua experimentou tanto quanto Drummond. Em termos formais, nem Fernando Pessoa foi tão longe."

Sobre as dedicatórias, Marco Antonio de Moraes as identifica como um "sismógrafo da amizade". "Concordo plenamente", conta Eucanaã. "E leio o sismógrafo exatamente como uma linha flutuante, instável, vibrante. Vejo, portanto, a linha e não os pontos particulares que a formam."

O organizador também confessa sua dificuldade em eleger poemas ou dedicatórias preferidas. "Nesse conjunto específico, a importância está no próprio conjunto. Na minha leitura, nenhum poema se destacou como peça particular. Mas as formas constituem uma obra singular, reveladora e plena de repercussões. No entanto, estou certo de que muitos leitores elegerão poemas, os de que mais gostaram."

No trabalho de garimpagem dos documentos deixados por Drummond, o Instituto Moreira Salles prepara, para setembro, uma obra peculiar: seleção de desenhos feitos pelo poeta, tanto caricaturas de amigos e de si mesmo como o perfil da família e desconhecidos. Drummond Desenha conterá 150 trabalhos descobertos em livros de coleções particulares. E o lançamento vai coincidir com uma exposição desses originais, nas unidades do IMS. "Pensamos em também reunir caricaturas feitas por outros artistas do poeta, mas ainda não conseguimos um número suficiente e de qualidade para abrir um capítulo no livro", conta o coordenador executivo Samuel Titan Jr.

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