Ao pé da letra do espírito de praga

Ao pé da letra do espírito de praga

Autor de 30 títulos, Ivan Klíma, 78 anos, passou a infância num campo de concentração e estava ao ao lado de Vaclav Havel na Revolução de Veludo, que eclodiu em 89 na cidade-símbolo de sua obra

Natàlia Rodríguez, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2010 | 00h00

Ivan Klíma tem uma idade considerável. O escritor checo, nascido em Praga em 1931, observa um grupo de turistas contemplando, embevecido, o bater das horas do relógio astronômico do centro da sua amada cidade. É quase impossível ouvir uma palavra em checo na Praça da cidade velha; italianos, espanhóis, brasileiros, chineses, alemães, japoneses e russos se confundem, todos eles com sua irrenunciável câmara fotográfica através da qual pretendem imortalizar a cidade de Franz Kafka.

Praga é uma cidade de cafés. Como todas as capitais do império dos Habsburgo, o café é um elemento insubstituível da vida urbana. Reunidos em torno de uma mesa de mármore já gasto, enquanto um garçom de libré nos serve um café, Klíma comenta em voz baixa e rouca que "não sabia que era judeu até Hitler chegar ao poder; de alguma maneira os nazistas me fizeram compreender quem eu era". Ele vive, na verdade, no sul de Praga, ao lado de um dos muitos bosques que cercam a cidade. Seus dois filhos e suas famílias vivem na mesma rua. O escritor acorda cedo para colher champignons no bosque, quando o clima deixa. Seu bom amigo, o escritor Philip Roth (também judeu), certa vez o descreveu como "um Ringo Star intelectual", uma descrição que ainda se sustenta, apesar de o cabelo estar mais branco. Mas ainda persiste no escritor esse ar boêmio típico de uma geração que já vem desvanecendo. É um homem obstinado, de risada rápida e contundente, mas que não perde uma oportunidade para manifestar suas opiniões. Seus 30 livros foram escritos com o coração, sem medo, com honestidade e um romantismo inequívoco.

Passou seus anos de infância no campo de concentração nazista de Terezin, a cerca de cem quilômetros de Praga, onde conviveu com o medo e a morte. Anos depois, quando as tropas soviéticas invadiram sua cidade, pondo fim à Primavera de Praga, ele estava a caminho dos Estados Unidos, onde daria cursos de literatura. Contra todos os prognósticos, decidiu voltar ao seu país para viver nos 19 anos seguintes um exílio interior.

"Para os jovens, 1989 é história velha. Quando tenho de explicar para uma plateia de estudantes os dias da última revolução, tenho que explicar, primeiro, o que foi o comunismo: eles não têm a mínima ideia." Mas para Klíma ainda existe um antes e um depois. "Quando penso naqueles anos, acho que ninguém conseguia pensar que o fim chegaria. Agora parece inevitável, mas não víamos as coisas assim. Acreditávamos estar vivendo um presente que não acabaria. Um presente sem futuro. Isso era o comunismo."

Por muitos anos, na casa de Ivan Klíma reunia-se parte da inteligência de Praga, umas 30 pessoas. Ali liam textos não publicados e se fazia um intercâmbio de projetos e ilusões. Não era exatamente essa casa onde ele me recebeu e conversamos, mas não ficava distante. E a sua conversa produz em mim um sentimento familiar, como se eu estivesse conversando com um parente, alguém mais velho do que eu. Klíma conta a transição checa com um tom implacável de historiador-jardineiro que vai mostrando os canteiros com uma simplicidade de veterano, sem outra ambição senão a de que as flores fiquem bem e o ajudem a viver com dignidade e beleza. Tudo aquilo que interessou na luta contra a ditadura não interessa mais numa sociedade livre. Assim, os escritores deixaram de ser a consciência cívica para se tornarem aspirantes a uma hora de glória ? num canal de TV ou num grande jornal ? que nunca chegará.

Garantem que foram somente três ? digo bem, três ? os presos por tortura e maus-tratos durante os intermináveis anos de repressão comunista na Checoslováquia. As atividades de todos os informantes da velha época socialista estão na internet e podem ser consultadas; há também 12 volumes publicados ao alcance de quem desejar. A transição de Praga foi exemplar e cada um soube a que se ater, mas continuando a sua trajetória, tranquilamente. Klíma conta que o mesmo policial que o submeteu a interrogatórios nos anos 70, um brutamontes sobrevivente da 2.ª Guerra, não perde suas conferências e o cumprimenta sempre, como se nada tivesse ocorrido. Praga é um outro mundo dentro desse. A Revolução de Veludo que tem Vaclav Havel como símbolo e Klíma como memória deixou de fora os que escaparam para o exílio, mas assim são as coisas. Não houve vinganças nem castigos, tudo ficou como mais uma parte dolorosa da história da cidade.

Ostracismo. Ivan Klíma foi um daqueles que, com Havel, estava no Teatro da Lanterna Mágica de Praga quando eclodiu a Revolução de Veludo. Uma revolução de intelectuais que tiveram de se reinventar como homens políticos. Nessa mesma noite, Havel pediu a Klíma para se dirigir à plateia. Em 20 anos, era a primeira vez que ele falava em público. "Muitos dos meus compatriotas não tinham nem ideia que eu vivia em Praga. Esse era o ostracismo e o silêncio a que o comunismo nos condenou", diz enquanto bebe seu enésimo café.

Praga é uma cidade insólita pela sua beleza depois de guerras, governantes e regimes implacáveis. Se tivesse de escrever um livro sobre Praga, iniciaria pelo milagre. Como é possível manter a Ponte Carlos, com sua beleza, suas esculturas, seu calçamento, seu espírito? Talvez o segredo da cidade esteja no seu talento para a sobrevivência e seu orgulho na derrota; a ideia não é minha, roubei-a de Klíma, que não vai me cobrar direitos autorais.

Ele vive hoje um bem merecido sucesso. Mas Klíma se pergunta se "explicar a Praga do século passado era mais simples, talvez, do que a Praga de hoje". Eu apenas me atrevo a explicar-lhe que pertenço a esse mesmo grupo de bárbaros que, para se fazer fotografar na Praça Venceslau, berram como possessos. Ele me olha, condescendente. Nem todos têm a sorte de ser um cidadão de Praga. E me diz que podemos saber o que é a liberdade sem antes ter sofrido sua ausência total e absoluta. E eu digo que é impossível saber o que somos se, antes, não reconhecermos o que não somos. Que alguém o escreva e nos conte, e se calem as vozes que só conseguem turvar nossa memória.

Em Praga, a Lua cheia inunda o céu da cidade. "Jamais acreditei no paraíso. Mas nas noites que se seguiram à queda do regime comunista comecei a ter dúvidas sobre minhas próprias crenças." Praga e sua Lua. Uma cidade com seus poetas. Não há um europeu consciente que não se sinta cidadão de Praga. Deveriam conceder cidadanias honoríficas sem direito a pensão nem medalhas de cidadão emérito. Simplesmente uma declaração de cosmopolitas felizes por passear pelas ruas de pedra de Praga, conscientes que a liberdade é uma homenagem a todos aqueles, desde Jan Hus, queimado pelos católicos, ao humilde eslovaco Dubcek, humilhado até a tortura pelos soviéticos, e todos os que acreditaram num mundo que nada separado: nem as línguas, a geografia, nem a estupidez de todas as ditaduras. Praga é a universidade obrigatória da Europa. A inveja pode ser saudável, mas no momento é só inveja pura. Porque Praga tem Ivan Klíma e eu não tenho nada. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

NATÀLIA RODRÍGUEZ, CATALÃ, É JORNALISTA

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