Ao mestre Willy, com carinho

Gilberto Mendes

Claudia Assef, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2012 | 03h09

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Já faz algum tempo que o compositor Willy Corrêa de Oliveira vem construindo a imagem do compositor que não quer sua música tocada pelas orquestras consagradas, fica incomodado ao ver seu nome em programas, partituras editadas. Mas desta vez ele se descuidou. E muito. Deixou ser gravado um primoroso CD duplo com sua música para piano e canções.

Lembrei-me dessa gravação porque estava pensando, como acontece às vezes no fim de um ano, nas melhores músicas que ouvi. O assunto tradicional para uma crônica, nestes dias. Verdade que esse disco já tem uns dois ou mais anos, mas somente pude ouvi-lo recentemente, emprestado pela minha amiga Márcia Costa, excelente jornalista pesquisadora que conseguiu entrevistar o Willy. É difícil obter seus trabalhos, parece que ele precisa autorizar.

Há todo um mistério nessa dificuldade, que valoriza bastante esse objeto do desejo que acaba se tornando sua música. Mas sejamos justos, trata-se de uma música realmente magnífica, de pura invenção e, queira ele ou não queira, estranhamente de vanguarda. Willy acabou permanecendo como talvez nosso último real compositor de vanguarda. Ouçam, no CD, seu impressionante Miserere! Willy se tornou um caso à parte, em nossa música, como é Scelsi na Itália, Kurtag na Hungria.

Como era de se esperar, ninguém se atreveu a comentar (não saberiam o que dizer, na verdade!) esse disco, que foi, sem a menor dúvida, o melhor dos últimos anos, não apenas deste ano, na área música brasileira. Realmente marcante, significativo, acima de tudo inteligente, fora da mesmice habitual.

Impressionante, admirável o elã de devoção ao mestre querido e cultuado, com o maior carinho, da parte de um grupo de estudantes que foram alunos do Willy no Departamento de Música da ECA-USP. Eles idealizaram o projeto, foram atrás do dinheiro (Petrobrás), estudaram profundamente e interpretaram sua obra com rara dignidade, autenticidade e percepção musical. Não me lembro de outro acontecimento musical com igual sentido humano e artístico. Chega a ser comovente!

Não deveríamos destacar nenhum nome, todos eles magníficos, altamente profissionais, missionários apaixonados por uma causa: mostrar em toda a sua pureza a singular qualidade, a personalíssima música de um mestre, o seu Mestre! Mas acabo não resistindo e não quero deixar de nomear um por um: Bruno Monteiro, Caroline De Comi, Fernando Tomimura, Isabel Kanji, Lilian Tonela, Mauricio De Bonis e, surpreendentemente, Caio Pagano, o grande pianista brasileiro, agora vivendo nos Estados Unidos, professor na Universidade do Arizona, que fez questão de participar da homenagem ao seu velho colega uspiano.

Somente gostaria de falar um pouco mais da cantora Caroline De Comi e do pianista Mauricio De Bonis, soberbos na elegância com que interpretaram lindamente as canções, o que me transportou, não sei por que, para um tempo em que o jovem Willy frequentava minha casa, em Santos, e ouvíamos juntos meus LPs, nos sábados à tarde. A Suzanne Bloch cantando música da Renascença, a contralto Jantina Noorman cantando Machaut, Gerard Sousay cantando Fauré, mais os esplêndidos Hugues Cuenod e Jennie Tourel cantando Stravinski, sob direção do próprio compositor. Músicas que me marcaram, e também sei que marcaram o Willy, sobretudo as canções de Schumann e Schubert pela Lotte Lehman, talvez nossa paixão maior. Coisa que a gente sente em meio à sedutora mobilidade timbrística e harmônica da música de Willy, envolvendo aquelas suas citações schubertianas e schumanianas, que se diluem, se transfiguram tão bem em sua própria música.

Im wunderschoner Monat Mai!

Não é brincadeira citar essa frase de abertura do extraordinário Os Amores de Um Poeta, de Schumann, texto de Heine, e saber continuar o fluir melódico no mesmo nível de qualidade da citação.

E, não posso também deixar de confessar, que delícia é a voz da jovem Caroline De Comi!

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