Ao mestre, com respeito

O legado de Reichenbach, que foi raivoso e não perdeu a força com o sentimento

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h08

Havia mais de cem pessoas no Cemitério do Redentor, onde Carlos Reichenbach foi enterrado sexta-feira à tarde. O velório foi no MIS, o Museu da Imagem e do Som, e dali o corpo do cineasta seguiu para o cemitério, onde Sara Silveira, amiga e produtora, fez um discurso dizendo que o mestre ia fazer falta. Sara pediu uma salva de palmas. Carlão, que morreu na quinta, aos 67 anos, saiu de cena ovacionado. Como Walter Hugo Khouri, que também já morreu, ele amava São Paulo e colocou a cidade em seus filmes. A diferença é que a São Paulo de Khouri era a da Avenida São Luiz, do Largo São Francisco e do Itaiaia, como ele próprio confessou ao repórter, e Reichenbach mapeou a metrópole do centro à periferia.

Ser gaúcho foi quase um acidente de percurso. Ele pode ter nascido em Porto Alegre, mas se fez paulistano. Sua principal fonte de influência ou referência foi o cinema japonês, por meio de autores como Eizo Sugawa e Shoei Imamura, que idolatrava. Em meados dos anos 1990, a Fundação Japão levou um grupo de brasileiros a Tóquio. Khouri e Reichenbach integravam o grupo, com o repórter do Estado, que testemunhou. Houve um coquetel na sede japonesa da fundação. Quando chegou Sugawa-sensei, Carlão quebrou o protocolo e o abraçou efusivamente. Os japoneses são polidos, cultivam a distância. Sugawa teve ali sua iniciação no calor dos brasileiros, reafirmada quando foi homenageado, depois, pela Mostra de São Paulo.

Reichenbach-sensei. Nenhum outro diretor brasileiro foi mais cinéfilo que ele. Glauber, Cacá Diegues e Walter Salles, em diferentes momentos, exercitaram-se na crítica, mas a paixão de Carlão pelo cinema tinha um viés particular. Suas influências e gostos pareciam disparatados. Sua visão de cinema comportava os japoneses, alguns norte-americanos (Samuel Fuller, Brian De Palma), os franceses (Jean-Luc Godard) e os italianos. Em que momento Valerio Zurlini virou o farol? Numa época, Reichenbach parecia mais ligado em Michelangelo Antonioni (Profissão Repórter) e Ruggero Deodato. Quando irrompeu o culto a Bruxa de Blair, Carlão foi dos raros, senão o único a escarnecer que aquilo era pura repetição de um certo Cannibal Holocaust, feito anos antes.

Como ele declarou numa entrevista ao Estado, sua visão do cinema e do mundo foi forjada no cineclubismo e na adoração de autores viscerais, incluindo escritores como Rimbaud, Verlaine, Henry Miller e Joseph Conrad. É possível identificar, aqui e ali, essas influências em sua obra, mas como afirmava, nunca foi subserviente. Absorveu e processou - o que restou foi ele. François Truffaut, por exemplo, foi uma descoberta tardia. Aconteceu no começo dos anos 1990, na preparação de Alma Corsária, que Carlão absorveu Truffaut e seu cinema de sentimentos. Estava mais maduro, não velho. Não é que Truffaut e Zurlini tenham se superposto a Sugawa e Imamura, mas Reichenbach, sem deixar de ser crítico, ficou menos raivoso.

O começo foi na Boca do Lixo, o cinema de guerrilha de Godard e Fuller filtrado pelo japonesismo. Carlão gostava tanto de Imamura que, em Lilian M, não resistiu e reproduziu o plano de O Segredo de Uma Esposa em que a mulher, em câmera lenta, põe a roupa para secar no varal. Esposa é sobre uma mulher oprimida pelo matriarcado da sociedade japonesa, Lilian é sobre uma esposa que se cansa do marido e dos filhos, foge com caixeiro-viajante e termina se prostituindo. Na tela, Reichenbach coloca São Paulo e seus contrastes - a mansão do Morumbi e a favela. Na verdade, não queria estar na primeira, que seria, conceitualmente, território de Khouri, nem na segunda, onde reinava Ozualdo Candeias. Interessavam-no os Anjos do Arrabalde.

Depois de Lilian M, Amor Palavra Prostituta e Extremos do Prazer, na Boca do Lixo, Carlão teve, nos anos 1980, sua fase de reconhecimento, com Filme Demência, o seu Fausto, e Anjos do Arrabalde. Na vertente das professorinhas da periferia, vieram mais tarde As Garotas do ABC. E a Falsa Loura, seu derradeiro grande filme, o melhor entre os mais recentes. Roterdã foi o cenário de sua consagração internacional. Foi chamado de Fassbinder do Terceiro Mundo. Era, fundamentalmente, autor. Radicalizando, mesmo que isso não seja verdade para todos, cinema seria, para ele, a palavra prostituta, se pensado em termos de indústria. Ousou. Merece respeito, palmas para ele.

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