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Luis Fernando Verissimo
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Ao lado

Um homem acorda no meio da noite. Não sabe o que o acordou. Um carro passando, alguém cantando na rua... E então ouve um grito. “Socorro!” O grito vem do apartamento ao lado do seu, que acaba de ser alugado. Ele sabe que quem alugou o apartamento é uma mulher, que mora sozinha. Mas o grito de socorro era de homem. O que fazer? Bater na porta do apartamento ao lado e ver se precisam de ajuda? Melhor esperar, pensa o homem. Melhor não me meter. Se gritarem de novo, eu saio da cama e chamo a polícia. Isso, a polícia. Mas não gritam outra vez. O homem volta a dormir.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

13 de setembro de 2015 | 02h00

*

No dia seguinte, o homem e a vizinha descem juntos no elevador. Cumprimentam-se: bom dia, bom dia... Ela é uma mulher bonita. Parece despreocupada. Fosse o que fosse que acontecera no seu apartamento no meio da noite não parecia tê-la afetado. Ela puxa conversa. O senhor mora sozinho? Eu também. Me mudei há pouco. Sim, sim, estou adorando o apartamento. Etc., etc. O homem pergunta se ela não está achando o prédio meio barulhento. Conta que naquela noite mesmo ouviu um grito... Um grito? Não, não, diz ela. Não ouvi nada. Quando os dois saem do elevador, ele fica para trás para examinar o corpo da mulher. Grandes pernas, pensa o homem. Mulherão. 

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Naquela mesma noite, ela bate na porta do apartamento dele. Veste um shortinho e um bustiê que mal cobre o busto e carrega um balde. Diz que vai dar uma festa e não sabe se terá gelo suficiente. Pergunta se ele pode encher seu balde de gelo. Faz com que até esta frase pareça um convite para prazeres inimagináveis. Claro, diz ele, enrubescendo, e manda ela entrar. Ela comenta que o apartamento dele é exatamente o contrário do dela. Com o balde cheio de gelo, ela pergunta se ele não quer ir à sua festinha. Ele agradece, mas diz que não dá. Ela paga o gelo com um beijo na bochecha vermelha dele. Quando ela sai, ele fica pensando: isto nunca me aconteceu. Um mulherão dando em cima de mim. Eu estou sonhando. Só pode ser sonho!

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A festa dura até as 4 horas, com música a todo volume. E o estranho é que ninguém mais no prédio parece ter ouvido a música, da mesma maneira que ninguém ouviu o pedido de socorro. No meio da noite seguinte, o homem acorda com sons de gemidos e gritos de “Sim! Sim!” vindos do apartamento ao lado. Excitado, ele não consegue mais dormir. De manhã, encontra com a vizinha no elevador e ela não tem nenhum sinal de ter passado a noite transando. E então o homem tem uma revelação. Essa mulher está realizando todas as minhas fantasias sexuais. Ela está me proporcionando uma espécie de compêndio de todas as histórias sobre vizinhas lúbricas do mundo. Só falta ela bater na minha porta completamente nua e me arrastar para o seu apartamento. O clímax da fantasia.

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Na noite seguinte, a mulher bate na porta dele completamente nua e o arrasta para seu apartamento. Quando terminam de transar (ele pensando o tempo todo: isto não está me acontecendo, isto não está me acontecendo...), ela diz: “Amanhã, transaremos no seu apartamento e faremos tudo ao contrário”. Transam todos os dias, depois disso. Até que uma noite, no apartamento dela, exausto depois do sexo acrobático, o coração batendo descompassado, ele tem a revelação final: ela veio me buscar. Ela é a Morte na forma de uma vizinha quente. Tudo isto foi uma encenação, ela veio para me levar. E aí ele ouve um grito de “Socorro!” numa voz de homem e se dá conta que a voz é a dele.

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