Busto do compositor alemão Richard Wagner, em Bayreuth. Foto: REUTERS/Michael Roddy
Busto do compositor alemão Richard Wagner, em Bayreuth. Foto: REUTERS/Michael Roddy

Ao explicar uso de música de Wagner, Alvim se confunde e troca óperas

Ex-secretário de Cultura refere-se a 'Lohengrin' como última ópera do compositor, 'na qual ele se converte ao cristianismo', com uma música 'transcendente que revela a face de Deus'; na verdade, ela é a terceira das oito obras criadas por Wagner

João Luiz Sampaio, Especial para o 'Estado'

17 de janeiro de 2020 | 14h29

Ao explicar a utilização da música de Wagner, mais precisamente o prelúdio da ópera Lohengrin, como trilha sonora do vídeo em que anuncia seus projetos para a área de cultura, Roberto Alvim comete um equívoco. Em entrevista ao Estado, ele refere-se a Lohengrin como última ópera do compositor, “na qual ele se converte ao cristianismo”, com uma música “transcendente que revela a face de Deus”.

Na verdade, Lohengrin, de 1850, é a terceira das oito obras criadas pelo compositor (se considerarmos a tetralogia O Anel do Nibelungo como uma obra só). Alvim estava querendo se referir provavelmente a Parsifal, essa sim a última criação wagneriana, estreada em 1882, com uma temática que se aproxima do cristianismo: a história se passa no Monte Salvat, onde vive uma fraternidade de cavaleiros do Santo Graal, e fala do cavaleiro Parsifal, um “inocente casto”, que se tornará o rei do Graal.



A relação entre a obra de Wagner e o regime nazista é um dos temas mais estudados da história da ópera. Em seus escritos sobre arte e política, o compositor demonstra ideias antissemitas. Da mesma forma, Hitler conta em Mein Kampf sobre o impacto que a audição de Lohengrin, primeira ópera de Wagner que ele assistiu, lhe provocou na infância. E, após a morte do compositor, e durante o Terceiro Reich, o Festival de Bayreuth, dedicado a apresentar obras de Wagner, recebeu em diversas ocasiões o líder nazista, celebrado pela diretora do evento, Winifred Wagner, nora do compositor.



Por conta disso, houve enorme polêmica quando, em 2001, o maestro Daniel Barenboim resolveu apresentar peças do compositor durante um concerto em Israel. Em 2015, em entrevista ao Estado, o diretor da Ópera Israel afirmou que não imaginava em um futuro próximo o dia em que a companhia levaria ao palco uma obra de Wagner. “Não há uma lógica ou motivos históricos concretos, mas a música de Wagner tornou-se o último grande símbolo do nazismo e da Segunda Guerra. Por conta disso, não vejo a possibilidade de encenarmos tão cedo uma de suas óperas”, disse Michael Ajzenstadt.

Em seu livro de conversas com o pensador palestina Edward W. Said, Barenboim explica os motivos que o levaram a realizar o concerto. “O fato é que Wagner era um antissemita monstruoso. Mas os nazistas usaram e abusaram as ideias e pensamentos de Wagner além do que ele jamais poderia ter imaginado”, diz o maestro. “O antissemitismo não foi inventando por Hitler e certamente não foi inventado por Wagner. Existia por gerações e gerações, séculos antes. A diferença do nazismo foi o desenvolvimento pela primeira vez de um plano sistemático de extermínio dos judeus. E não acredito que Wagner possa ser o responsável por isso. Também é preciso dizer que nas óperas de Wagner não há um só personagem judeu, não há um só comentário antissemita.” Para Barenboim, é preciso separar o “antissemitismo de Wagner do uso que os nazistas fizeram dele”.

 

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