Ao completar 60 anos, Masp vai em busca de patrocinadores

Em agosto, quando o Museu de Arte deSão Paulo - Assis Chateaubriand (Masp) anunciou que o professore crítico José Teixeira Coelho foi escolhido para ocupar o cargode curador - coordenador da instituição, a notícia foi recebidacom entusiasmo pela comunidade artística - grande parte dos bonsvotos veio de sua experiência como diretor do Museu de ArteContemporânea da Universidade de São Paulo, entre 1998 e 2002.Desde esse anúncio, poucos meses após o Masp ter tido suaenergia cortada por causa de uma dívida com a Eletropaulo de R$3,5 milhões acumulada em 7 anos, além do desgaste de tantasoutras polêmicas anteriores envolvendo sua administraçãopresidida pelo arquiteto Julio Neves e o desprestígio culturalda instituição, há uma grande expectativa quanto à gestãocuratorial de Teixeira Coelho - há cerca de uma década o museu,que neste ano completará 60 anos, não tinha um curador. "Sei daresponsabilidade, mas acho que vai ser possível fazer algumacoisa aqui", diz Teixeira Coelho. Na noite desta quinta-feira, será inaugurada no Masp uma mostra com81 fotografias inéditas de Alex Flemming. Para esta que éconsiderada a primeira grande exposição "com obras de fora" dagestão Teixeira Coelho, estão sendo usados os famosos cavaletesde vidro concebidos por Lina Bo Bardi, a arquiteta que projetouo museu inaugurado em 2 de outubro de 1947. Teixeira Coelho é crítico de arte, professor titular depolítica cultural e coordenador do Observatório de PolíticaCultural da ECA-USP e também escritor, tendo lançado livros comoFliperama sem Creme (Brasiliense), Do Moderno ao Pós-Moderno(Iluminuras) e Dicionário Crítico de Política Cultural(Iluminuras). A seguir, o curador do Masp fala sobre alguns deseus planos. Agência Estado - O sr. poderia explicar seu projetocuratorial para o Masp? José Teixeira Coelho - É preciso dizer como vejo o museu Ele é um misto de dois museus radicalmente distintos. Por umlado, o Masp é como o Metropolitan (de Nova York): tem artegrega, da renascença, moderna, cerâmica (vamos receber umacoleção de cerâmica chinesa do músico William Daghlian,certamente a maior da América do Sul). É um museu que se abrepara várias artes e culturas, foi concebido para ser um centrode cultura. Por outro lado, ele é como a Frick Collection: temmuitos tesouros, mas seu espaço é pequeno e a coleção também -mas, quando faz exposições, coloca, por exemplo, cinco Veroneses. O Masp também é um museu pequeno, como todo museu brasileiro.Tem uma coleção absolutamente deslumbrante: temos cinco VanGoghs, um Constable, um Turner, mas são poucas obras de cadaartista, nós não temos 30 Cézannes, mas cinco. A minha propostaé fazer que essas duas vertentes sejam levadas às suasconseqüências cheias. Pelo problema econômico do museu e doBrasil, é mais fácil fazer pequenas exposições, densas, do quegrandes exposições, para as pessoas não irem aos museus fazeremuma maratona. Sua política não é a de fazermegaexposições? Teixeira Coelho - Não é, mas sei também que asmegaexposições são fundamentais para atrair patrocinadores. Nósvamos ter exposições impressionantes, virá uma de artecontemporânea da Fundação Daimler-Chrysler para o final do ano.Mas vou começar agora em fevereiro a visitar o Museu do Prado(em Madri) e o Beaubourg (em Paris) para fazer contatos pararealizar exposições de porte a definir. Com o Beaubourg, umaseleção de obras modernas e contemporâneas para uma mostra a serfeita no quadro do Ano Brasil na França, em 2008. Estamos quaseassinando uma grande exposição para maio. E tem coisasimportantes que vamos fazer com a nossa coleção, dereorganização da chamada coleção permanente do museu. Estãoprevistas aqui três grandes exposições sucessivas com essasobras: O Mito na Arte, com curadoria do brasileiro RobertoMagalhães, professor do Instituto de Arte de Florença; ANatureza das Coisas, sobre paisagem e natureza-morta; e aterceira, Olhar e Ser Visto, sobre o retrato. Estamos vendoquando o Masp vai fazer sua comemoração de 60 anos. A minhaproposta é a partir de outubro. Logo após sua contratação no Masp, o sr defendeu no 2.º Fórum Nacional de Museus em Ouro Preto umapolítica de aquisição e desaquisição de obras. Poderia comentaresse assunto? Política cultural não é feita só deaquisição, mas também de desaquisição, que não significa apenasvenda. Pode-se trocar uma obra com outro museu, pode-se mandaruma obra para outro museu. O que é considerado bom numa épocapode mudar conforme o tempo, conforme o olhar muda, algunsartistas passam a não ser mais fundamentais. Nada é fixo, nem nahistória da arte. Sei que esse tema é sempre polêmico. O MAC temo auto-retrato do Modigliani e nós temos seis Modiglianis. Ondetem mais sentido ficar esse auto-retrato? Não se pode excluir apossibilidade de se chegar a um acordo entre os museus: "Vocêsnos mandam esse Modigliani e nós mandamos o Picasso que nóstemos para vocês", por exemplo. Em última hipótese, desaquisiçãoé também vender. Você abre as revistas especializadas e vê que oMetropolitan vai vender tal obra, o que vai permitir compraroutra considerada fundamental. Isso é colecionismo, tentar revera coleção, tapar os buracos. Mas isso é anátema no Brasil, paíspatrimonial patriarcal. O que poderia sair do Masp? Há muita coisa, mas não vou falaragora. Houve um tempo em que o Masp não tinha uma política clarade aquisição e aceitava tudo o que era doado. E quanto a verbas? O Masp não tem uma fundação por trás,esse foi o erro do Chateaubriand. Nem tem um banco por trás.Esse é um dos problemas. Depois que as leis de incentivocomeçaram a funcionar, os bancos abriram os próprios centros e oMasp viu diminuída largamente a sua fonte de renda. Ouve-se naimprensa que é uma administração incompetente. Então venha pracá! Nenhuma bilheteria do mundo mantém museu. E a Prefeitura, emanos incertos, dá verba, quando quer. O dinheiro tem de vir porpatrocinador. É o que nós vamos fazer: ir atrás depatrocinadores a partir de fevereiro. Sim, você pode me dizerque estamos atrasados. E estamos. O Masp é um museu problemático. Qualsua visão sobre sua estrutura? O que poderia ser mudado? Teixeira Coelho - Com toda honestidade, ainda não sei. Oque as pessoas de fora do museu não sabem é que essa gestãoadministrativa que está aqui teve de fazer uma grande reforma nomuseu, senão ele ia cair. Os custos foram de R$ 20 milhões: R$ 1milhão entrou pela Prefeitura, R$ 19 milhões entraram de aportedo Masp. Então, não é uma gestão incapaz.

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