Thiago Teixeira/AE
Thiago Teixeira/AE

Antunes Filho busca naturalismo em seu 'Prêt-à-Porter 10'

Depois de árduo processo, atores filtram a própria atuação até se aproximar do real

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2011 | 00h00

Antunes Filho é um sujeito inquieto, inconformado até. Assíduo frequentador de exposições, é adorador de videoarte - aquelas tecnologias de distorção, repetição e sobreposição de imagens, que discutem a própria imagem, provocam sempre um choque criativo no encenador. No cinema, apaixonou-se agora por A Árvore da Vida, de Terrence Malick: "Mudei minha forma de ver a arte. Até então, eu me sentia como se usasse um escafandro - agora, minha visão é mais ampla".

É essa busca por novos horizontes que estimula Antunes em seus quase 82 anos (completa em dezembro). E o que justifica também a estreia do Prêt-à-Porter 10, na segunda-feira, no Sesc Consolação. Como as anteriores, é o conjunto de três cenas (ou movimentos, como prefere o grupo), criadas e dirigidas pelos próprios atores. Nesta edição, o cardápio é formado por Adorável Callas, com Nara Chaib Mendes e Patrícia Carvalho; O Homem das Viagens, com Marcos de Andrade e Natalie Pascoal; e Cruzamentos, com Geraldo Mario e Marcelo Szpektor.

Trata-se da consolidação de uma forma de protesto - em 1998, cansado das interpretações altamente dramáticas que dizia dominar os palcos nacionais, Antunes decidiu implantar a queima dos estereótipos e a formação do ator consciente de sua arte e técnica. "Teatro é um todo", comenta ele, ao justificar a soma de responsabilidades assumidas pelos intérpretes. "É preciso que quem pisa no palco saiba construir essa mentalidade."

A partir dessa nova gramática cênica, Antunes busca atuações mais naturalistas, em que o elenco parece dialogar diretamente com o público. "Não me interessa aquela montagem em que o espectador perceba que o ator está representando. Quero reações como a da grande Lélia Abramo que, depois de assistir a um dos primeiros Prêt-à-Porter, me disse, espantada: "Parece que os atores estavam conversando comigo e não interpretando"."

Para que isso aconteça, o controle deve estar totalmente nas mãos do elenco. No início do processo, os atores se encarregam de encontrar o tema. Em seguida, desenvolvem a dramaturgia por meio de improvisações e uma espécie de autodireção. Em meio a tudo isso, é preciso uma injeção espetacular de cultura - o grupo passa a ler os grandes clássicos da literatura mundial, a assistir a filmes de cineastas seminais como os russos Aleksandr Sokurov e Andrei Tarkovski, enfim, a questionar os próprios conceitos. O lema do encenador, nesse momento, coincide com o de Jean-Luc Godard, para quem a cultura é regra e a arte, exceção.

Antunes Filho acompanha todos os passos e vai apontando caminhos. "A cena que vou encenar agora foi criada em 2003", conta Marcelo Szpektor. "Na época, Antunes não aprovou, justificando que ainda não era o tempo certo. Naquele momento, não entendi e até fiquei decepcionado. Hoje, compreendo: faltava maturidade."

O processo é de, fato, doloroso. No início, são aproximadamente 70 cenas até se chegar às três escolhidas. No processo de filtragem, é necessária uma completa faxina mental. "A sensibilidade sofre uma grande transformação, passamos a ver de outra forma até as cenas corriqueiras, das pessoas que nos cercam", observa Patrícia Carvalho. "E eu, como os demais, não estava acostumada a escrever, apenas a interpretar", completa Nara Chaib Mendes.

As inquietações já se tornaram históricas. Participante desde o primeiro Prêt-à-Porter, Emerson Danesi não apenas atuou em várias edições como, com o tempo, também se tornou um ponto de referência de Antunes dentro do grupo, agindo como um organizador. "Tudo começou com uma frase do Antunes: "O Homem está com saudades do Homem"", relembra ele, que escreveu um texto para o programa dessa décima edição, no qual afirma: "A possibilidade em trazer à tona inquietações, memórias, afetos e desafetos, percebendo e questionando a realidade, com devido afastamento e sensibilidade, foi um duro e árduo caminho".

Em suma, não se pode ficar indiferente. Antunes dá o exemplo, arrastando seus pupilos para trabalhos que considera enriquecedores. Como incentivá-los a ver A Árvore da Vida e a evitar Melancolia, de Lars von Trier. "É pura enganação, as cenas não têm causas, parecem acontecer do nada." Para Antunes, o ofício tem de ser uma extensão da existência.

PRÊT-À-PORTER 10

Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000. 2ª, 19h15. R$ 2,50 a R$ 10. Até 31/10. Estreia segunda-feira.

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