Antunes diz que a palavra é o centro

Arnaldo Antunes não simpatiza com a definição multimídia. Mas dentro do grupo de artistas brasileiros que hoje são encaixados nesse termo simplista, ele é um dos que vão mais longe. O roqueiro, muralista pop e performer é provavelmete o único artista contemporâneo brasileiro que trabalha com mostras de caligrafia e vende (bem) livros de poesia. Autor de grandes painéis, livros de artista, instalações escultóricas e uma infinidade de estudos gráficos, o ex-Titã prefere definir todo o seu trabalho plástico como poesia visual."Isso porque, mesmo quando a palavra não está graficamente presente, o que me interessa é a significação e seus caminhos." Na verdade um artista com os pés fincados na tradição concreta brasileira, ao mesmo tempo antenado com a engenharia pop que movimenta a cultura mundial, Arnaldo Augusto Nora Antunes Filho construiu um caminho visual bastante particular, que por mais disperso que se apresente é todo alinhavado por um inabalável amor pela palavra.Na sua mais recente série de trabalhos, entretanto, o poeta não utiliza nenhum sinal gráfico. Mas mesmo sem brincar diretamente com os sons e as palavras (uma de suas atividades preferidas, registradas em canções, livros, nos trabalhos com caligrafia etc), o poeta transforma os desenhos instrutivos que acompanham embalagens de absorventes, alimentos e outros gêneros domésticos em quadros surrealistas.Nas imagens da coleção, ele se apropria das famosas mãozinhas dos pacotes plásticos e recria composições paradoxais, à maneira de M. C. Escher. As mãos de fazer de Arnaldo Antunes são configuradas em conjuntos improváveis, que carregam a idéia da continuidade infinita do artista holandês.Por enquanto, os oito desenhos da série só podem ser vistas pelo público na Internet, no site www.artezero.com.br. Em sua casa, o autor tem as criações estampadas por ploter em traços finos e coloridos em telas pretas. Mas as ilustrações, realizadas em computador, sempre sobre o fundo escuro, podem ter destinos diferentes, como costuma acontecer com os "produtos Arnaldo Antunes".Hoje, ele tem, por exemplo, músicas feitas para ver, ouvir, ler ou dançar (ano passado, compôs a trilha sonora para um espetáculo do grupo mineiro Corpo e para a instalação Teresa, que Tunga exibiu na Bienal de Lion). Isso sem contar os espetáculos de grupos que utilizam suas canções. "Eles costumam me mandar fitas de vídeo com os espetáculos musicados" conta Arnaldo Antunes. "Quase sempre me surpreendo muito e positivamente", emenda.Com a mesa desenvoltura, cria imagens que podem se transformar em grandes murais, em páginas de livros, ou outdoors construídos dentro de espaços expositivos, como os trabalhos que realizou para a última Bienal de São Paulo e para a Bienal do Mercosul ou ainda em telas de caligrafia, como a que mostrou há dois anos em Curitiba com Walter Silveira e que deu origem aos atuais Hand Made. Mas todos esse estudos gráficos podem permanecer por anos em seus arquivos eletrônicos ou embaixo da sua escada, onde guarda dezenas de desenhos que não sabe se um dia aproveitará para alguma coisa.As imagens de Hand Made interessaram, recentemente, a uma grife brasileira para sua próxima coleção. Embora ainda não tenha definido o trabalho com a marca, Arnaldo Antunes está prestes a invadir mais um suporte das novas mídias, a moda. "Esse movimento entre as categorias artísticas tem uma fluência cada vez maior em todas as direções", observa ele, um dos precursores de sua geração.Esse trânsito entre linguagens e veículos acompanha o artista desde o início de sua carreira, nos anos 80. Embora seu nome tenha ganhado evidência com a música (mais precisamente com o rock dos Titãs), Arnaldo Antunes já produzia importantes trabalhos visuais quando passou a compor e cantar. E, conta ele, só começou a compor canções, pelo mesmo interesse que o levou para a poesia e para as artes plásticas. E para o autor de Psia, As Coisas (que lhe valeu um prêmio Jabuti), Tudos, 2 ou + Corpos no Mesmo Espaço, a divisão da arte em categorias é puramente imaginária.Em 1980, (quando ainda assinava Antunes Filho), o compositor realizou sua primeira exposição, uma mostra de caligrafia realizada na Livraria Cultura, na Avenida Paulista, em São Paulo. No ano seguinte, o poeta lançou seu primeiro livro uma edição de autor completamente artesanal, com uma tiragem reduzidíssima.Arnaldo Antunes ainda tem um exemplar do curioso livro de artista, que ele mesmo vendeu na época, quando ainda era estudante. Ou E, é o nome da obra, que espera na gaveta por uma reedição. "Seria muito trabalhoso", comenta o poeta que realizou cada um dos exemplares do álbum de poesia visual, composto por colagens, hai-kais, dobraduras e muitos jogos de sons e palavras. "Tinha uma preocupação em criar representações como a composição gráfica relativa à entonação vocal das palavras."Essa pesquisa encontrou uma outra ponta em um trabalho posterior. Mais sofisticado e com uma tiragem astronomicamente maior, Nome, de 1993, era um disco que vinha acompanhado de livro e vídeo, porque saiu por uma gravadora, a BMG, e porque o CD podia ser comprado separadamente. Senão, poderia ser muito bem um vídeo que vinha acompanhado de livro e disco ou um livro com disco e vídeo.Antunes começou recentemente a produzir seu novo disco, ainda em fase embrionária. Afora os períodos de gravação, quando ele diz não tirar os pés dos estúdio, o compositor divide o seu tempo entre a infinidade de atividades diferentes em que se envolve. Ele não conta as horas que trabalha por dia, o número de exposições de que participa por ano ou as colaborações especiais em trabalhos de colegas de várias áreas diferentes. São parceiros de Arnaldo Antunes, poetas como Haroldo Campos, artistas como Walter Silveira e músicos como Gilberto Gil, para quem realizou uma escultura composta por alto-falantes e fios emaranhados.

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