Antropofagia do amor

Em divertido disco de estreia, a banda de amigos firma suas referências para um público que não para de crescer

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

No mercado dos honestos, satisfação pessoal vale muito mais que dinheiro. Com o motor afetivo e a sensibilidade operando em carga máxima, os amigos Gabriel Bubu, Marcelo Callado, Ricardo Dias Gomes e Gustavo Benjão - que se conhecem desde os tempos do colégio - sabiam que uma hora a vida seguiria o curso da sinceridade. Bubu acompanhava o Los Hermanos de 2001 até o hiato do grupo. Marcelo e Ricardo integram a banda Cê, que toca com Caetano Veloso há três anos. E Benjão esteve ao lado de artistas não menos talentosos, como Lucas Santtana e Nervoso. Eis que agora, em seu disco de estreia, eles resolvem revelar sua faceta autoral e celebrar a longeva amizade com a banda Do Amor.

Desde 2007, com o lançamento de um EP e uma leva de shows, o quarteto foi ficando conhecido do público jovem em diversos Estados. Daí o espanto de muita gente ao saber que o primeiro álbum do grupo chega às lojas apenas agora. Apurados com os compromissos assumidos com os projetos de outros artistas, e sem contrato formal com uma gravadora convencional e sem orçamento, os músicos da banda Do Amor gravaram seu primeiro disco com muita calma, respeitando seu tempo.

Do Amor foi gravado entre o segundo semestre de 2008 e o meio de 2009, com produção de Chico Neves (que já havia trabalhado com Lenine, Os Paralamas do Sucesso, Skank e O Rappa), no Rio, mixagem de Tchad Blake (Paul McCartney e Peter Gabriel), no Reino Unido, e masterização de Carlos Freitas, em São Paulo. "O Chico entendeu o que a gente queria e topou fazer no nosso tempo. A gente não tem aquela estabilidade financeira com a música, mas está colhendo agora os primeiros frutos com o Do Amor", conta Gabriel Bubu.

Essa entrega de fazer música sem apontar o timão para horizontes comerciais resultou em um disco pop original e divertido - com refinamento, graças à qualidade dos músicos -, que traz um frescor ao mercado que havia muito não se escutava. O ouvinte distraído, entre as 14 faixas, pode passar de uma para outra e achar que se trata de álbuns distintos. Com um instrumental bem feito, o Do Amor apresenta os temas de seu balaio sortido. Brincando com a seriedade de uma antropofagia saudável, o grupo usou suas referências para degluti-las e interpretá-las com extrema autenticidade em suas próprias composições. Muito se deve ao fato também de Bubu e Benjão (guitarras), Dias Gomes (baixo) e Callado (bateria) não terem se limitado apenas a seus instrumentos. Cada um tocou um pouco de tudo.

É o carimbó paraense que aparece em Isso É Carimbó, o dub jamaicano, em Brainy Dayz, a lambada, em Perdizes, a baianidade, em Pepeu Baixou em Mim, o rock de Manchester, em Exploit, o rock de arena na onda de AC/DC e Van Halen, na divertida Chalé, o samba-rock, em Morena Russa, o pop, em Vem me Dar e no grande destaque do disco, Meu Corpo Ali, com direito a texturas e corinho. Além de outros temas não tão fáceis de se ouvir em uma primeira audição, caso de Shop Chop, I Picture Myself e Homem-Bicho, e a regravação com um arranjo original e pegado para a brega Lindo Lago do Amor, de Gonzaguinha.

"Eu me negaria a fazer uma culinária musical. Nós nos apropriamos de linguagens para criar um disco com contrastes. Existe um lado de humor, mas não é gratuito, a gente gosta de tocar isso, tem vontade se envolver densamente com esses gêneros", diz Bubu. O disco tem lançamento previsto para São Paulo no dia 23 de setembro, no Estúdio Emme.

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