Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

Antony Gormley encontra Cildo Meireles e exibe obras por São Paulo

'Corpos Presentes - Still Being' é a primeira grande exposição do conceituado escultor inglês na América do Sul

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2012 | 21h25

No centro de São Paulo, em uma área que vai da Praça do Patriarca até o Teatro Municipal, 27 esculturas em forma de homens, feitas de ferro e em escala real, estão solitárias no topo de prédios. Elas transformam a paisagem urbana de uma maneira discreta e instigante ao mesmo tempo - afinal, as obras nos observam, inertes, ou seriam alienígenas que aparecem à nossa vista?

Em Nova York, quando o artista inglês Antony Gormley realizou, em 2010, essa mesma instalação, Event Horizon (Horizonte de Eventos), na Madison Square, algumas pessoas se assustaram, pensando serem as esculturas potenciais suicidas. O escultor se diverte com a história. “Event Horizon é um nome que vem da física, sobre a idade da visão a partir de um buraco negro, das constelações em expansão, depois do big-bang, que se movimentam rapidamente. O princípio básico dessa obra é uma ideia conceitual de que somos limitados pela percepção. O corpo é tirado de onde ele normalmente se encontra e está exposto contra o céu, olhando um horizonte que não podemos ver porque estamos incrustados na cidade. Quero que as pessoas olhem ao redor”, conta o artista, que também já colocou suas obras no mar e na natureza. “Estou impressionado com a arquitetura de São Paulo, orgânica e com princípios geométricos. Parece uma peça de geologia, inconsciente, feita com uso inteligente do concreto e com grafites. Os prédios são como cristais.”

Event Horizon, já exibida também em Londres, compreende, ainda, 4 esculturas de homens (tendo como molde o próprio corpo do artista) espalhadas pelas ruas da região central paulistana. É um dos destaques da mostra Corpos Presentes - Still Being, primeira grande exposição do conceituado Antony Gormley na América do Sul, com criações dos anos 1990 e 2000, a ser inaugurada no sábado, no Centro Cultural Banco do Brasil. Vencedor do prêmio Turner, em 1994, ele também é contemplado na cidade com a mostra Fatos e Sistemas, preparada especialmente por sua galeria inglesa, a White Cube, que veio participar da SP-Arte 2012 e alugou um galpão de 500 m² perto do Parque do Ibirapuera. 

Desde a semana passada, Gormley, de 61 anos, está em São Paulo para a montagem de sua mostra - que tem curadoria de Marcello Dantas e depois seguirá para o Rio de Janeiro e para Brasília. Sua experiência na metrópole tem sido “inspiradora”, diz. Ele, que em 1992 criou Amazonian Field com milhares de pequenas figuras esculpidas em terracota - obra feita para a ECO 92 e exibida em Rondônia -, conta que no domingo, na Virada Cultural, foi ao show de Gilberto Gil na Praça Júlio Prestes e o achou “vibrante”. Surpreendeu-se, depois, ao saber que o músico, “rocker” que tanto “requebrou”, já havia sido ministro da Cultura. 

Mais ainda, viu no centro que as pessoas fervilham de um lado para o outro com uma energia muito “diferente” da vista nos transeuntes ensimesmados de Londres. E ontem, para completar, Gormley teve o privilégio de conhecer um artista brasileiro que tanto admira, Cildo Meireles. Foi o primeiro encontro de dois grandes criadores, acompanhado, exclusivamente, pelo Estado.

Encontro. “Vi a exposição de Cildo Meireles na Tate Modern (em 2008, em Londres) e era incrível. As pessoas realmente gostavam de experenciar obras como a sala vermelha (a instalação Desvio para o Vermelho). Elas pensavam, mas, ao mesmo tempo, se divertiam, exploravam com a cabeça e com o corpo”, diz Gormley sobre o brasileiro. Cildo, na verdade, conta que viu pela primeira vez as obras do britânico na década de 1980. “No caso das esculturas modeladas a partir do corpo dele, acho interessante a possibilidade de você objetualizar o sujeito ou singularizar o objeto, individualizá-lo. Essa tensão me interessa, o percurso sujeito-objeto”, afirma o carioca, se referindo tanto às peças de Event Horizon quanto às da instalação Critical Mass (1995), em que figuras de ferro fundido e representando um homem em diversas posições - são também em tamanho real e pesam mais de 600 quilos -, ficam penduradas por cabos de aço no hall de entrada do Centro Cultural Banco do Brasil.

O caráter conceitual e sensorial das obras de Cildo Meireles, de 64 anos, tem um dado “cultural” mais relacionado ao Brasil - “nós nos tocamos e para um europeu já seria uma proposta de casamento”, brinca o brasileiro. É diferente da expressão britânica dos trabalhos de Gormley, instalações com as esculturas que têm como modelo o escultor ou algo mais abstrato com Breathing Room (2010), uma estrutura geométrica criada com tubos de alumínio e luminescentes pela qual se pode transitar. Mas, para além de qualquer especulação, ambos artistas lidam com a questão da percepção do indivíduo - seja na camada psíquica, social, espacial, arquitetônica e até urbana.

“O modernismo no Brasil nunca foi divorciado do social e o que me interessa no trabalho de Cildo Meireles, assim, é a inversão do legado do conceitualismo de Duchamp imediatamente para a esfera social. Como na obra que ele fez com dinheiro (Inserções em Circuitos Ideológicos: Projeto Cédula, década de 1970). A trajetória da significância da arte contemporânea no século 20 foi a de sempre pegar objetos da rua e isolá-los como ícones exclusivos. E acho que o que encontro na arte brasileira é o oposto disso. Lygia Clark e Hélio Oiticica fizeram isso a partir de uma linguagem formal, geométrica, criaram uma linguagem permeável para as pessoas. Na Europa e na América, o triunfo e a limitação da arte foi olhar apenas para si mesma”, analisa Gormley.

Cildo completa o raciocínio do britânico e explica seu Projeto Cédula. “Claro que uma das principais questões do século 20 foi o ready-made, que pega algo da indústria e traz para o museu. No caso desse meu trabalho, foi diferente, era um veículo para dar voz ao indivíduo, operar da micro para a macroestrutura. No Brasil, as pessoas têm costume de escrever em cédulas. No caso de Lygia e Hélio, a base deles foi a geometria, mas de alguma maneira, a cultura se expressou, a do toque, da interface com o público. Uma vez, conversando com (o crítico inglês) Guy Brett, que os acompanhou, ele disse algo muito preciso: que os dois eram complementares - Lygia operava do exterior para a pele e Hélio, da pele para o exterior, mais social.” A conversa dos dois vai se desdobrando, vira um almoço no Bar da Dona Onça, no Copan de Niemeyer que o britânico tanto admira - e Gormley leva, ainda, Cildo Meireles para ver sua exposição Fatos e Sistemas no espaço da White Cube, no Ibirapuera.

CORPOS PRESENTES - STILL BEING

CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, centro, telefone 3113-3651. 

9 h/ 21 h (fecha 2ª). Grátis. Até 15/7. Abertura sábado. 

FATOS E SISTEMAS - FACTS AND SYSTEMS

White Cube. Rua Agostinho Rodrigues Filho, 550. 4ª (9) a 6ª (11), 11 h / 22 h; sáb. (12) e dom. (13), 11 h / 20 h (de 15/5 a 15/7, das 11 h às 19 h). Grátis. Até 15/7. Abertura quinta-feira. 

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