Antônio Nóbrega em nova temporada

Antônio Nóbrega inicia nessa sexta, no Tuca, nova temporada do espetáculo O Marco do Meio-Dia, que fica em cartaz até o dia 15 de outubro, sempre de quinta a domingo. E promove, durante a temporada, o lançamento do CD que registra uma parte do espetáculo. Não sua íntegra - em alguns momentos do show, a música fica resumida a ritmos que marcam o tempo da dança dos brincantes."Achei que esses trechos ficariam deslocados, no disco", diz Nóbrega, cujo interesse pela cultura popular foi despertado por Ariano Suassuna. Foi o escritor paraibano, radicado em Pernambuco - Nóbrega é pernambucano - quem o convidou para participar do Quinteto Armorial, quando Nóbrega era violinista da Orquestra Sinfônica da Paraíba (que é o abrigo dos músicos pernambucanos de formação clássica).Nóbrega trocou a sinfônica pelo armorialismo (que propõe a construção de uma linguagem artística brasileira culta que utilize como base os elementos fundadores da cultura popular), o violino pela rabeca, terno e gravata pela roupa do cantador mambembe, mestre-de-cerimônias das festas do povo.O estímulo do armorialismo levou o rapaz de classe média até então distante da cultura tradicional, a estudá-la profundamente - e a reconstruí-la, com o respeito do apaixonado e a ousadia do que pretende torná-la conhecida e respeitada. O agora rabequeiro aprendeu a dançar, a representar, montou trupe mambembe, veio parar em São Paulo.Aqui, criou o Teatro Brincante, que, desde 1995, apresentou três espetáculos de canto, dança, teatro de bonecos e outros itens da tradição nordestina: Na Pancada do Ganzá, Madeira Que Cupim não Rói, Pernambuco Falando para o Mundo. Cada um deles virou CD. O Marco do Meio-Dia é o quarto show da série. Foi montado por encomenda da primeira comissão que cuidou das comemorações do descobrimento do Brasil. Importante frisar que foi pela primeira comissão, não por aquela que encomendou a naufragada caravela; esta última ignorou o Marco do Meio-Dia em nome de feitos mais portentosos, ainda que de efeito duvidoso.O Marco do Meio-Dia teve pré-estréia no Brasil e foi apresentado em Portugal, na França e na Alemanha; a última vez em que foi mostrado em São Paulo foi em estrondosamente bem-sucedida temporada no Sesc Vila Mariana. Espetáculo caro, que congrega trupe de 21 integrantes - oito músicos, seis brincantes e técnicos -, tem, atualmente, o patrocínio da Philips. Nóbrega espera que o patrocínio dure muito: pretende dedicar ao Marco o que resta deste ano e todo o 2001."Aposto muito nesse show, de todos os que eu construí é o mais elaborado, mais grandiloqüente e mais bem resolvido", conta o artista múltiplo. "Eu nunca trabalhei tanto num projeto cultural como nesse" - encerra a frase com uma declaração de princípio: "Eu fiz a minha parte." Está fazendo, tem feito a sua parte (uma fatia significativa do conjunto do que se faz em cultura popular entre nós), quer levar O Marco do Meio-Dia ao Brasil inteiro. "Seria bom se outras paragens pudessem assistir ao show", considera. Será importantíssimo que outras paragens assistam ao show.Nóbrega prefere chamar a montagem de show, evitando a expressão "ópera popular", pretensiosa, talvez, ou a denominação de teatro, ou mesmo a regional de auto. "À falta de melhor, prefiro pôr como bitola, paradigma, a classificação de show; não gosto de chamar de espetáculo musical, embora a música conduza a narrativa, porque é uma mistura de dança, teatro de bonecos e até vídeo."E não são apenas cocos, maracatus, ritmos nordestinos típicos - num dado momento, Nóbrega sola o choro Saxofone, Por Que Choras?, de Severino Araújo e Rangel de Carvalho, um clássico que Aldir Blanc menciona no Chorinho pro Zé, que fez com Guinga no início dos anos 90. "Você vê, o choro, que atravessou o século e nunca deixou de existir, no Brasil inteiro não toca no dia-a-dia, não está no rádio" - não é só a cultura popular nordestina que sofre de esquecimento.Há homenagens a três personalidades populares: Garrinha, o Aleijadinho, Bispo do Rosário. Aparecem, como outros elementos aparecem, porque O Marco do Meio-Dia é uma celebração: "Um louvor àquilo que é próprio das diversas culturas que servem à formação da cultura brasileira. No espetáculo, os elementos se encontram para celebração, conduzida por Nóbrega, que vive um misto de cantador e mestre-de-cerimônias, secundado pela contramestra, interpretada por Rosane Almeida, mulher do ator, autora também das coreografias do show.O cantador-mestre-de-cerimônias usa sextilhas e décimas para descrever, situar e chamar levar à cena personagens, ritmos bonecos. A expressão "marco", que diz respeito à cultura popular, refere-se à construção poética em que o autor elogia, normalmente em sextilhas, coisas de uma região eventualmente imaginária, em geral uma ribeira: é um canto à paisagem, aos bichos da terra, aos peixes. "O engraçado é que o poeta que faz marcos - e não são muitos - é normalmente de uma região seca; o que ele faz é um contraponto, um canto de resistência", diz Nóbrega.Ele quis fazer um marco, seu marco. O rio que canta, entretanto, é simbólico: é a cultura que o povo brasileiro vem criando, apesar de tudo. Explica: "Se o português não houvesse imposto seus padrões culturais pela lança, se houvesse estabelecido uma troca com a cultura que já existia aqui, o que chamamos de cultura brasileira seria resultante de um encadeamento; como isso não foi feito, de fato, temos dois Brasis: o da cultura imposta pelas classes dominante e a outra, do povo, que, por si, foi construindo essa miscigenação." É isso que chama de cultura popular. É para louvá-la que escreveu sua nova grande obra.E, ainda que se queixe de como estão as coisas, Antônio Nóbrega é um otimista. Acredita que a visibilidade das diversas culturas regionais proporcionada pelos meio de comunicação de massa acabem fazendo da vontade uniformizadora da indústria do entretenimento um tiro pela culatra. Lembra que hoje se tornam sabidas, a cada dia, três novas línguas ou dialetos. Vale lembrar, em adendo, que os franceses e alemães dançaram com ele ao som dos cocos e maracatus.E, em tempo: Antônio Nóbrega tem a intenção de lançar em DVD, encartada num livro de arte, a íntegra de O Marco do Meio-Dia. Só não o fez ainda porque é caro. Mas vai conseguir.O Marco do Meio-Dia, de Antônio Nóbrega. Sexta e sábado às 21h30; e domingo, às 20 horas. Ingressos: R$ 25. Sol a Pino. Quinta, às 20 horas. R$ 15. Tuca. Rua Monte Alegre, 1.024, tel. 3670-8453. Até 15/10. Patrocínio: Philips

Agencia Estado,

14 de setembro de 2000 | 18h42

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