Antonio Meneses, luz e paixão

Substituir as convencionais notas de programa por uma enxuta entrevista com o intérprete é uma das boas iniciativas da série de concertos de câmara da Sociedade de Cultura Artística na ex-sala Promon, agora chamada Cultura Artística Itaim. Gioconda Bordon foi certeira nas perguntas e Antonio Meneses, mesmo falando pouco, também foi no alvo. Soubemos que ele tem tocado a Suíte n.º 1 de Bach em apresentações recentes na Europa com Maria João Pires; que escolheu a terceira suíte solo em tributo a Almeida Prado, autor de uma pequena e encantadora peça a propósito desta suíte; e que Pablo Casals, ferrenho opositor do franquismo, brigou com Gaspar Cassadó, que insistia em morar em Florença quando a Itália estava sob domínio de Mussolini.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2011 | 00h00

Foi o que bastou para aguçar ainda mais a expectativa do público que lotou o teatro no concerto de abertura da série. Mas, ao contrário do esperado, a primeira suíte de Bach recebeu de Antonio uma leitura indecisa, com alguns esbarrões. Ele parecia naquele momento tentar entrar em acordo com a seca acústica e o barulhento ar condicionado da sala. O violoncelista brasileiro apresentou as seis suítes em recital no saudoso Teatro de Cultura Artística da rua Nestor Pestana alguns anos atrás, antes de gravá-las para o selo Clássicos. E naquela ocasião estreou seis peças inéditas de compositores brasileiros calcadas nessas suítes. Já naquela ocasião impressionou muito a incrivelmente bela peça de Almeida Prado que introduziu a terceira suíte. E Antonio repetiu a dose anteontem. E, visivelmente mais acostumado com a acústica da sala, Antonio elevou a voltagem.

O grande momento do recital foi na pouco conhecida suíte do violoncelista catalão Gaspar Cassadó. Antonio se transfigurou. Tocou com bravura e paixão. Sentimentos que transpareceram na execução luminosa de uma suíte em três movimentos que brinca com motivos folclóricos da Catalunha e oferece extraordinários obstáculos técnicos. Toda a sua virtuosidade posta à prova, Antonio saiu-se vencedor, com uma interpretação matadora. Ninguém gritou um "olé" ao final - mas muita gente deve ter ficado com a saudação estrangulada na garganta.

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