Antônio Fagundes vive dois personagens

O ator Antônio Fagundes, 51 anos, terá dupla participação em Porto dos Milagres, novela que estréia nesta segunda-feira, no horário nobre da Rede Globo. Ele dará vida aos personagens Bartolomeu e Felix Guerreiro, irmãos gêmeos na trama de Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares. Com um pé no lado do bem e outro no do mal, o ator acredita que caracterizá-los é um de seus maiores desafios já vividos. No início, os personagens podem ser definidos como mocinho e vilão, mas Fagundes garante que os dois têm um pouco de cada personalidade. Quanto à preferência pelo tipo de papel, ele deixa claro: "Gosto dos bons personagens, independente de serem vilões ou mocinhos". Fagundes está entusiasmado com as gravações da novela, divididas entre as belas paisagens da Ilha de Comandatuba (BA), cidade cenográfica, e os estúdios montados no Projac (RJ). Para o ator é fundamental que parte das cenas sejam gravadas na Bahia. "A cidade está completa lá. Tem o mar, o rio, a luz e o sol que não tem aqui." A previsão, segundo ele, é gravar a cada 40 dias na Bahia, mas isso vai depender de vários fatores, principalmente de como a trama vai se desenrolar. Fagundes conversou com o Grupo Estado, falou sobre os personagens, sobre a trama e sobre seu relacionamento com a Rede Globo. Grupo Estado - Você já havia trabalhado com Aguinaldo Silva?Antônio Fagundes - Já trabalhei com ele em outras novelas, quando ele era colaborador do Gilberto Braga, mas novela original dele é a primeira vez. Gosto deste estilo, o realismo fantástico. Tem muito a ver com a gente, meio religioso, meio fantasia. Esta mágica que tem nas novelas dele mexe com todo mundo. É bem interessante e eu gosto muito.Como é a experiência de fazer dois personagens ao mesmo tempo?A experiência é muito gostosa, mas é muito problemático para uma novela, porque você tem um pique de gravação muito grande e apesar da tecnologia envolvida é um efeito difícil de se conseguir. A questão da caracterização também é complicada. Eu tive que gravar um personagem inteiro e depois voltar e gravar o outro. É difícil, a gente fica ansioso, mas o resultado vai ser interessante. O povo vai curtir bastante.O que você está fazendo para diferenciar seus personagens? Como eles estão sendo construídos?Eles tem um comportamento físico bastante diferente, um peso diferente, já que cada um teve um tipo de vivência. Durante 15 anos, Bartolomeu viveu na Bahia, na terra quente, rude, então tem um peso maior, um contato direto com o povo. O outro (Felix) tem uma coisa mais leve, européia. Naturalmente, a personalidade deles é bem diferente e espero que o público perceba isso.Você acha que o público vai odiar o personagem Felix?Eu tenho a impressão que não, pois o Aguinaldo Silva tem muito humor, talvez ele acrescente um pouco disso ao personagem. Apesar de ser um mau caráter, no começo acho até que a gente torce um pouco para ele. Acredito que vai ter uma coisa bem dividida aí. Só no fim da novela, a gente fica sabendo de tudo, mas, por enquanto, os caminhos que os autores estão seguindo são bem ambíguos com relação ao personagem. Você prefere fazer papel de vilão ou mocinho?O vilão, você pode ver no desenho animado, é sempre o personagem mais fascinante, é o mais engraçado e o mais bem vestido. É gostoso fazer o vilão porque você realmente pode brincar com o personagem. Às vezes, é até mais fácil interpretá-lo do que um personagem normal, mas eu prefiro fazer bons personagens, qualquer um, seja vilão, mocinho... Bartolomeu também não é mocinho. Ele tem uma falha trágica, é apaixonado por uma mulher. O Felix também é apaixonado, mas a relação é como se cada um gostasse de si mesmo porque eles são almas gêmeas. Bartolomeu tem uma relação de amor mesmo com uma prostituta que humaniza muito ele, então talvez o público fique com raiva do Felix por causa do Bartolomeu. Talvez eles sejam meio parecidos.Como você vê o fato de personagens que misturam o lado bom e ruim? É um amadurecimento literário?É um amadurecimento sim, pois ninguém é tão mau. As pessoas têm uma gama de emoções, de sentimentos, e isso é um amadurecimento para a gente enxergá-las não só como vilãs, nem como totalmente boas. São seres envolvidos em determinadas circunstâncias que agem de uma forma ou de outra, conforme são empurrados.E as gravações na Espanha, como foram?O ruim para nós foi gravar na ordem. Normalmente, a gente começa no capítulo 10 e vai voltando, e lá a gente começou do capítulo um e por isso ficamos meio ansiosos, mas acho que isso a gente não vai passar nas cenas.E a Bahia?A Bahia é fascinante. A gente está na Ilha de Comandatuba, então é só trabalho mesmo, ficamos meio isolados e acabamos não pegando muito desse clima do estado. Estamos no nosso clima, o ambiente da novela, que tem energia e sol direto.O que achou da adaptação dos romances de Jorge Amado (Mar Morto e A Descoberta da América pelos Turcos) para a novela?Acho que é uma adaptação bem livre, porque não tem só Jorge Amado. Tem também Shakespeare, um Macbeth ligeiro, além de um monte de coisas que o Aguinaldo coloca da vivência dele. Tem este realismo fantástico, um romantismo muito grande, aventura, etc.Como é substituir uma novela de sucesso como "Laços de Família"?Entrar no ar depois de um sucesso é um problema, porque a expectativa é a de que você faça tanto ou mais sucesso que a anterior e, então, isso pode ser um agravante. Mas eu não tenho o menor receio. Acho que vamos pegar esse sucesso que Laços de Família vai nos entregar e ir um pouco mais adiante para entregar ao próximo. O Ibope não me preocupa. O que importa é que a novela atinja seus objetivos e com o maior número possível de pessoas assistindo à obra. É claro que o Ibope reflete isso, mas, às vezes, se consegue atingir um índice alto com produção de baixa qualidade. O que nós queremos é atingir o Ibope que nós achamos que o produto merece, ou seja, vai ser alto.

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