Antonio Dias realiza exposições em SP e Porto Alegre

Após morar na Alemanha e na Itália, o artista multimídia está volta ao Brasil

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

01 de abril de 2014 | 18h51

Antonio Dias está de volta ao Brasil, que o recebe com duas mostras simultâneas, uma aberta em março, em Porto Alegre, na Fundação Iberê Camargo, e outra inaugurada ontem, na Galeria Nara Roesler, em São Paulo. Em ambas, vale a observação do curador da primeira, Paulo Sérgio Duarte, sobre o embrutecimento do olhar do homem urbano na era da internet. Massacrado pela publicidade, pelo iPhone, o correio eletrônico e a televisão, essa vítima da urbis poucas vezes escapa de outra avalanche de imagens descartáveis quando entra numa galeria ou num museu.

É preciso uma arte poderosa, com diz Duarte, "para nos aliviar do olhar abrutalhado pelo dia a dia". É isso o que oferece Antonio Dias em suas duas exposições, uma pintura contemporânea construída com os signos presentes em trabalhos anteriores, mas renovados no confronto entre os materiais tradicionalmente usados por ele (óxido de ferro, folha de ouro, cobre, grafite) e o cromatismo vivo da tinta acrílica, industrial, associada ao advento da arte pop nos anos 1960, época em que Dias começou sua carreira.

Artista multimídia, ele pintou, realizou performances, criou instalações, objetos e filmes experimentais na época, enfrentando a ditadura com obras políticas hoje presentes em museus estrangeiros como o MoMA de Nova York (uma delas pertence à série The Invented Country, 1976).

Dias será homenageado em junho pelo museu americano com uma retrospectiva de suas produções em super 8 (da série The Illustration of Art). Foi na época de The Invented Country que surgiu a forma da bandeira vermelha recortada de Dias, da qual foi extraído um retalho quadrado. A memória revolucionária dessa bandeira ao vento no país inventado por Dias é evocada agora num outro nível – desta vez não exclusivamente político, mas formal.

"Toda arte é política", diz Antonio Dias na entrevista, realizada justamente no dia dos 50 anos do golpe militar, definindo-se como um "desiludido". A dele é uma obra de resistência à própria pintura. Ele não se considera pintor. Não é a pintura, mas a experiência da cor que o interessa e fascina – além, é claro, do gesto nas áreas salpicadas com tinta acrílica, uma ponte com o próprio passado desse artista que teve como professor Oswaldo Goeldi. Contudo, não há nada de expressionista nessa pintura, feita de fragmentos autônomos que servem de laboratório para essa pesquisa cromática. Nela, o vermelho é o elemento dominante numa equação sintática em que entram como subordinadas a cor verde da malaquita e o metálico cobre.

"Para mim, a pintura funciona como objeto, é um corpo quando concluída", diz ele, cercado pelas nove obras expostas. E um corpo que fica em pé com fragmentos da própria história do artista, que morou na Alemanha, na Itália e agora volta ao Brasil em busca de algo deixado para trás.

Dias não foi propriamente um militante. Era um jovem idealista que tentou refletir sobre o seu país, mantendo dele certa distância ao se fixar na Europa nos anos 1970. Nos últimos tempos, por sentir que pouca coisa no continente europeu o estimulava, voltou ao país da bandalheira onde, paradoxalmente, a arte construtiva mais se desenvolveu.

É em cima de uma longa tradição que essa pintura se desenvolve. Talvez a predominância do vermelho, admite Dias, traduza a vontade de "algo mais orgânico" – afinal, trata-se de um artista que faz pintura de superfície e usa pigmentos minerais e metálicos. Essas pinturas , que pedem um distanciamento brechtiano do espectador, são montadas de modo quase teatral, para que ele não perca o espírito crítico.

Muitos são conduzidos a enganos, como um médico, amigo do pintor, que viu nos fragmentos pintados com acrílica referências a plaquetas sanguíneas. Seja o que for, não são plaquetas. Dias não faz pintura de representação. Os planos, sustenta Paulo Sérgio Duarte, não se sustentam de maneira autônoma, mas na interdependência, na contaminação com o mundo. É uma pintura, como diz o crítico, "em que tudo é feito aos pedaços". Mas por que, afinal, essa pintura seria inteira?

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