Antonio Candido participa de debate sobre obra de Luiz Martins

Chega à 2.ª edição 'O Patriarca e o Bacharel', com provocante interpretação da proclamação da República

Francisco Quinteiro Pires do Estado de S. Paulo,

22 de outubro de 2008 | 14h29

Se a proclamação da República fosse colocada dentro de um ringue, de um lado estariam os patriarcas, defendendo o Império, de outro os bacharéis, lutando pela nova ordem, a República. O fim do combate, em 15 de novembro de 1889, é conhecido. Os monarquistas beijaram a lona. O que ninguém desconfiava é que, em seguida, os vencedores sentiram remorso. Os bacharéis, filhos dos patriarcas, não sabiam o que fazer com a liberdade conquistada. Esse arrependimento exibe incrível atualidade: o brasileiro sempre precisou de uma liderança autoritária por perto. Em linhas gerais, esse é o enredo de O Patriarca e o Bacharel, do jornalista Luís Martins (1907-1981). A obra, que propõe uma interpretação provocativa e esquecida, chegou à segunda edição pela Alameda. Publicado em 1953, O Patriarca e o Bacharel (205 págs., R$ 34) foi debatido pelo grande mestre da teoria literária Antonio Candido, a psicanalista Maria Rita Kehl e o cientista político Reginaldo Mattar Nasser, na PUC-SP, na última terça, 21. "Esse é um livro engenhoso, que ainda se mantém de pé", diz Antonio Candido. Segundo o crítico literário, O Patriarca e o Bacharel é tanto psicanalítico quanto sociológico. "Sem perder de vista os condicionamentos sociais, Luís Martins foi o primeiro a estudar o sentimento de culpa dos republicanos", afirma. Antonio Candido explica que, na primeira metade do século passado, a difusão da psicanálise e da sociologia era acompanhada pela crença de que as duas podiam ser "solução para tudo". "Houve nessa época uma hipertrofia sociológica. Gilberto Freyre se tornou o grande guru porque desviou o eixo de interpretação da raça para a cultura", diz Antonio Candido. Daí ser meio que inevitável a inspiração gilbertofreyriana na obra de Luís Martins. A leitura de Sobrados e Mucambos, de Freyre, e "o folhear distraído de três álbuns de tradicional família paulista, dois de fotografia e um de autógrafos", são o berço de O Patriarca e o Bacharel.  Entre Sobrados e Mucambos e o conteúdo dos três álbuns, o que havia de comum era a exibição da decadência do patriarcado rural e a ascensão do liberalismo urbano. Segundo escreve Martins, "os filhos venceram os pais, na luta pelo progresso e a civilização. Tratava-se, nitidamente, de uma situação edipiana." Adaptado ao fim da monarquia, o complexo de Édipo, conceito de Sigmund Freud, seria notado no "parricídio" de D. Pedro II, que, com suas barbas, seria o pai autoritário, que a tudo interdita. "Os republicanos se tornaram responsáveis por manter democraticamente a ordem que o pai mantinha por tirania", diz Maria Rita Kehl.  A psicanalista Maria Rita Kehl afirma que existe uma certa "ingenuidade" de Luís Martins em relação ao emprego da psicanálise para analisar a proclamação da República. "Acredito que a psicanálise pode contribuir bastante para a sociologia, mas é complicada a transposição do sujeito inconsciente para o sujeito social, feita por Luís Martins", ela diz. Luís Martins defendia a idéia de que, em todo brasileiro, haveria "um inconsciente mais profundo, coletivo e tradicional". "De qualquer maneira, era impossível ele não ter sido tributário da psicanálise." A leitura de Totem e Tabu, de Freud, foi fundamental para Luís Martins, que nasceu no Rio, foi poeta, jornalista e crítico de arte. Perseguido pelo governo Vargas após a publicação de Lapa (1936), Martins mudou-se para São Paulo em 1940. Por 35 anos foi colunista do Estadão, ele era conhecido como LM. É preciso lembrar que Luís Martins começou a elaborar O Patriarca e o Bacharel sob o Estado Novo (1937-45). A atualidade da obra está em mostrar o caráter perene do paternalismo brasileiro: a confiança é maior nas personalidades fortes do que nas ideologias, segundo Antonio Candido. No fim, o crítico literário de 90 anos lançou a pergunta: "O brasileiro conseguirá dispensar o pai autoritário?"

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