Antonio Canales, no Brasil pela primeira vez

Houve um momento de sua história em que a dança flamenca parecia condenada à extinção ou, no mínimo, à estagnação, transformando-se em atração turística de segunda categoria. Um processo de renovação iniciado há duas décadas, envolvendo bailarinos como Fernando Bujones, Julio Bocca e Sara Baras, resgatou para críticos e platéias do mundo inteiro o prestígio dessa dança que tem origens na cultura cigana.Natural de Sevilha, com sólida formação de bailarino e um currículo repleto de premiações internacionais, Antonio Canales é um dos responsáveis pela renovação do flamenco. Depois de ter dividido o palco com artistas do porte de Rudolf Nureyev, Bujones e Bocca, Canales fundou sua companhia em 1992, para a qual criou coreografias que deram uma roupagem contemporânea ao flamenco, sem prejuízo de sua essência.Por iniciativa da Antares, a companhia Antonio Canales vem ao Brasil pela primeira vez. No programa, a coreografia Torero, de 1993, a de maior aceitação no vasto currículo do artista. "Apesar de todas as premiações e dos aplausos do público, sempre há a crítica dos puristas", comentou Canales em entrevista, por telefone, da Espanha. Espetáculos tão distintos como Variaciones sobre el Guernica de Picasso, Cinderela ou Bernarda, este último inspirado na obra do poeta e dramaturgo García Lorca, fazem parte do repertório do grupo que já se apresentou em cidades como Paris, Lyon, Londres e Cidade do México.A unanimidade em torno de Torero - aplaudida até pelos puristas - foi um dos motivos dessa coreografia ter sido a escolhida na primeira excursão ao Brasil. "Torero é uma obra emblemática, que considero importante mostrar em outros países, porque tem como tema central a relação entre touro e toureiro. A tourada, uma das manifestações culturais mais fortes da Espanha, muitas vezes é vista como símbolo de violência."Segundo ele, há muito mais do que luta de vida de morte numa arena de touros. "O espetáculo está impregnado de sensualidade, mostra a atração que o toureiro desperta nas mulheres e ainda o medo e a fúria dessa arte que, dramaticamente recriada, representa a própria vida", afirma Canales, que já esteve no Brasil em 1988. "Sei que a dança contemporânea brasileira é muito boa", comenta. Mas o único grupo brasileiro que lhe vem à memória é, na verdade, de teatro, o Macunaíma, dirigido por Antunes Filho. "Assisti ao espetáculo Macunaíma há muitos anos, mas jamais esqueci. Sei que era um grupo de teatro, mas a linguagem corporal era muito bonita."

Agencia Estado,

07 de fevereiro de 2001 | 17h25

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