Antologia reúne poemas sobre escravidão

Uma nova antologia chega para revisar uma idéia corrente, embora paradoxal, de que séculos de escravidão africana tenham deixado apenas um tímido registro na poesia. Trata-se de Amazing Grace, An Anthology of Poems About Slavery, 1660-1810, que compila mais de 400 poemas, de 250 autores, alguns famosos em seu tempo, outros anônimos, muitos até escravos. A força dos versos demonstra que poetas dos dois lados do Atlântico focalizaram a tragédia da escravidão desde seus primeiros momentos, com severidade e brilho."A maioria destes poemas foi escrita para fazer com que a escravidão deixasse de ser tratada como um fenômeno distante e passasse a ser vista como tragédia pessoal, humanizada", diz James Basker, professor de inglês da Barnard College of Columbia University. Basker compilou poemas e poetas ao longo de dez anos, a partir de panfletos, jornais, anúncios, hinos, óperas e cantigas de criança, livros obscuros e até epitáfios."Foi como uma escavação arqueológica, recompondo uma paisagem perdida há muito tempo", comparou, em uma entrevista recente. "Houve tanto sofrimento ao londo de quatro séculos de comércio escravo, e poetas eram as únicas pessoas capazes de transformá-lo em arte, em literatura."A produção poética catalogada começa assim que a escravidão finca suas raízes na América do Norte. E termina em 1810, com uma nota da celebração, que transmite bastante expectativa. Dois anos antes, após uma longa batalha, Inglaterra e Estados Unidos assinavam um tratado para pôr fim ao comércio de escravos - que não implicou, para revolta de muitos, a libertação dos escravos que já haviam sido trazidos da África. "Ao fazer este livro, aprendi que houve sempre muita oposição, e no século 18 ela foi muito forte", disse Basker.O título da obra faz referência a um famoso hino que gerações de escravos adotaram no sul dos Estados Unidos, a partir do registro de um pastor inglês, John Newton, em 1779. Newton escreveu os versos como uma maneira de expiar seus dias de capitão de navio negreiro. "I once was lost but am found/Was blind but now see", diz o hino, algo como "eu estive perdido, mas me encontrei/estive cego, mas agora enxergo". "Por trás de cada um dos poemas, há uma história", diz o professor. "Há um grande número de autores da primeira geração americana, e eles se posicionaram contra a escravidão", analisa.

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