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Antologia de um gênero ambíguo e sedutor

Textos de Borges, Bioy Casares e Silvina Ocampo resgatam o fantástico na escrita

Danubio Torres Fierro - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2013 | 19h49

Ante a recente aparição da Antologia da Literatura Fantástica composta em conjunto por Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo, há três motivos para comemorações.

Primeiro, a decisão de publicar no Brasil um livro que desde sua primeira aparição, em Buenos Aires, em 1940, alcançou a estatura de um verdadeiro clássico da literatura em língua espanhola e também de outras literaturas e outras línguas. Em segundo lugar, o acerto de basear a tradução ao português brasileiro na versão em espanhol que os próprios autores realizaram dos textos selecionados escritos, quando era o caso, em seus idiomas originais. E, nesse sentido, é preciso elogiar Josely Vianna Baptista, a tradutora, por uma tarefa feita com cuidado, paciência e conhecimento de causa. Em terceiro lugar, o empenho de fazer uma edição do livro que é também um objeto precioso. A vocação de fazer livros que aspiram tanto a um conteúdo como a um continente é uma vocação que se deve alentar.

A Antologia de la Literatura Fantástica, por sua vez resultado de um jogo de diversão intelectual e de uma aposta estética entre três amigos, apoia-se em duas vertentes inexoráveis decisivas. Por um lado, propõe uma ilustração absolutamente singular deste gênero indeciso, ambíguo e sedutor, no fim das contas inclassificável, que se conhece como literatura fantástica. Notas breves, contos, novelas, ensaios, poemas, tecem a trama inextricável de alguns exemplos literários chamados, em todos e cada um dos casos, a produzir uma comoção ou uma fissura nesta superfície imutável e sólida que se denomina realidade.

Cabe citar Borges: “Nós temos sonhado o mundo. O temos sonhado resistente, misterioso, visível, ubíquo no espaço e firme no tempo; mas temos consentido em sua arquitetura tênue e eternos interstícios de irracionalidade para saber que é falso” (Avatares de la Tortuga). A literatura fantástica é entendida como um golpe teatral que elimina as certezas estabelecidas, como um intercâmbio de paradoxos infinitos e que mordem os calcanhares um dos outros, com uma graça sensível (e amiúde uma desgraça atroz) que transgride e modifica mediante véus e desvelamentos uma situação específica de aparência e presença indestrutíveis. A melhor definição do gênero fantástico é, nestas páginas, a da famosa equilibrista do circo: seu ofício consiste em “sorrir em cima de abismos”.

Por outro lado, e não menos importante que o anterior, a Antologia é uma prédica a favor da língua espanhola segundo é usada, falada e sentida por três argentinos com ideias e convicções próprias sobre a arte da retórica entendida como a expressão cabal de um idioma. As traduções que se fazem dos textos originais são, aqui, uma transferência, um transporte, uma transformação. Reverbera nas traduções um acento peculiar e ressoa nelas uma dicção personalíssima: o clássico traduttore/traditore, que faz e desfaz segundo uma resplandecente vontade caprichosa, exerce sua tarefa de maneira implacável, assassina, redentora. O que surge dessa operação radical é uma obra maravilhosa.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

DANUBIO TORRES FIERRO É CRÍTICO LITERÁRIO

 

ANTOLOGIA DA LITERATURA FANTÁSTICA

Autores: Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo

Tradução: Josely Vianna Baptista

Editora: Cosac Naify (448 págs., R$ 69)

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