Antinomia do casamento

Estamos numa baita crise. Discutimos muito, desabafou com o melhor amigo, aquele casado ainda com a namorada da faculdade, pai de dois moleques, dono de um golden que "retrivier" até pensamento e de uma rotina aparentemente invejável.

O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h09

Amigo que, como a mulher, não aparentava a idade que tinha. Casal esportista, queimado pelo sol, causava admiração. Sempre bem-humorados. Nunca expunham desavenças, se existiam.

Se um casamento pode dar certo, ali estava o exemplo a ser seguido. Qual o segredo?

"O que detona uma discussão?", o amigo perguntou, como um sábio socrático.

"Decisões. Em viagens, por exemplo. Brigamos em todas as viagens que fizemos. Minto. Quando namorávamos, deu certo uma vez."

E lembrou da viagem teste para Bariloche, de classe executiva, com direito a uns dias em Buenos Aires para compras.

Estavam se conhecendo. Se conseguissem o consenso em toda programação turística, se conseguissem esquiar, passear, comprar e ainda transar como dois adolescentes, a relação ultrapassaria o cabo das tormentas a caminho de um mundo novo, paradisíaco.

Rolou. Foram morar juntos. Mas, na primeira semana casados, o alarme apitou. A primeira discussão pública.

Tinha levado a mulher para apresentar um japonês escondido que só ele conhecia, daqueles que gritam "irashaimase" assim que os clientes entram. Ele era chamado pelo nome pelos garçons. Sabia de cor o cardápio e o time para qual cada um torcia.

Ela o deixou escolher o combinado; afinal, ele era um "local". Enquanto o garçom íntimo anotava o pedido, ela lia o cardápio e questionava se o custo de um outro combinado, que tinha mais peças e era pouca coisa mais caro, não valia o benefício.

"Você me diz para escolher o prato, mas acabou de interferir na decisão", comentou irônico.

"Só estou tentando ajudar", foi a desculpa que passou a ser o mantra que atormentou a vida do casal.

Nas viagens seguintes, na ida ao aeroporto, começavam os conflitos. Ele preferia fazer hora num duty free a mofar ansioso num congestionamento. Planejava sair com cinco horas de antecedência. Ela o chamava de estressado e tentava acalmá-lo com um desesperador "vai dar tempo".

No check-in, mais conflitos, já que chegavam em cima da hora: lugar no avião e o que levar como bagagem de mão.

Assim que decolavam, ele se dopava. Preferia se apagar por todo o voo. Ela queria papear, ver todos os filmes, ler.

No exterior, ele preferia andar de metrô e gastar mais tempo em museus do que solas de sapatos. Ela, a pé. Ele preferia café da manhã no quarto. Ela, na rua. Ele detestava igrejas e museus de arte contemporânea. Ela era fascinada por todos os templos, sem distinção de estilo e religião, e seguia as dicas de viagem de uma revista feminina de moda.

Ele queria conhecer a cidade através de um ônibus de dois andares, que para em todos os pontos turísticos e resume numa tarde o que deve ser visto e fotografado. Ela preferia jogar com o acaso e sair sem plano traçado.

Ele queria conhecer a gastronomia local. Quanto mais exótica, mais interessava. Ela temia por novidades da flora e fauna local e sempre sugeria restaurantes básicos, mediterrâneos. Seu maior pavor era uma intoxicação alimentar paga em moeda estrangeira.

Por fim, o amigo deu o conselho que serviria para a vida toda, e mudaria para sempre a relação com a mulher:

"Deixa ela decidir tudo. Faça como eu. Enquanto ela discute no check-in do aeroporto, fique lá na calçada fumando."

"Mas eu não fumo."

"Comece."

E assim foi. Planejaram outra viagem para colocar em prática o novo comportamento. A ida para Orlando foi um sucesso. Ele não palpitou. Nem questionou quando ela pediu para ele ficar ao lado do Pateta, para uma foto que postou no Instagram.

E começou a fumar. Em toda e qualquer indecisão turística, ele dizia: "Decide você, que vou lá fora fumar um cigarrinho."

Não discutiu com ela quando na volta deu excesso de bagagem. E passou o voo acordado vendo as fotos que ela tirou com o Pato Donald, Mickey, Margarida, Tio Patinhas e todo o casting bizarro da família Disney.

Voltaram e concluíram que nasceram um para o outro.

Ela decidiu se casarem formalmente. Ele topou, apesar de agnóstico. Ela escolheu a data, o local, as músicas e o bufê. Fez sozinha a lista de convidados.

Ela sugeriu mudarem de casa. Ele topou. Ela escolheu o bairro, a rua, o condomínio e a companhia que faria a mudança. Ele apenas encaixotou.

Ela decorou o novo apê. E era a última palavra em tudo: se sairiam ou ficariam em casa assistindo a um DVD, selecionado por ela, lógico, no novo movie theater que ela escolheu e que combinava com os móveis da sala. É, foi na mudança que ela decidiu que a TV ficaria na sala.

Às quartas, jogatina. Na mesa de pôquer, só os maridos. Enquanto apontavam quem era o small e o big blind, reclamavam das mulheres mandonas e dos conflitos infindáveis. Só ele jogava concentrado, ciente de que encontrara a fórmula perfeita, que pendia para um lado.

Mal sabia que na sala ao lado, na tranca das mulheres, a sua era a que sempre puxava o debate, com a cumplicidade da mesa, que não tinha outro tema a não ser:

"Não entendo, ele parece interessado, mas no final sou eu quem acaba fazendo tudo. Fico esperando ele tomar atitudes, e nada. Ainda deu de fumar!"

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