Camila Coutinho/Divulgação
Camila Coutinho/Divulgação

Antígona ressurge em versão de câmara

Guilherme Leme dirige releitura que traz Luis Melo como Creonte

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

08 de outubro de 2010 | 06h00

"Prometo jamais colocar o interesse do melhor amigo e do mais íntimo parente acima da necessidade do povo e da pátria", diz o homem, ar grave e voz impostada, falando aos populares. Ainda que soe familiar, seu discurso não foi retirado de nenhum comício ou dos recentes programas eleitorais. Quem entoa a fala no palco é o ator Luís Melo e suas palavras não evocam um político de nossos dias, mas Creonte, o milenar personagem da tragédia de Sofócles.

 

Com estreia marcada para amanhã no Sesc Santana, o espetáculo RockAntygona é uma recriação livre do texto grego, como se apressa em ressaltar Guilherme Leme, que assina a direção da montagem carioca.

 

Na obra original, o diretor e Caio Andrade, a quem coube o texto final, foram buscar enredo e protagonistas. As referências na hora de compor a montagem, porém, alcançaram outras releituras - como a versão de Bertolt Brecht, escrita em 1948, à luz do pós-guerra. "Meu recorte foi bastante específico. Até por isso, fiz questão de mudar o título para RockAntygona", aponta Leme.

 

Não por acaso, o rock se junta ao nome da protagonista. O gênero musical não entra apenas como trilha incidental. Em cima do palco, e sempre à vista da plateia, um DJ (Marcelo H) incorpora ruídos e batidas eletrônicas à montagem. Pontua com intervenções sonoras as mudanças de cena e reforça a tinta de contemporaneidade com a qual o encenador cobriu o triste destino da filha de Édipo. Cabe a esse DJ ainda desdobrar-se em papéis menores e atualizar a função do coro.

 

Camerística. É uma versão de câmara da tragédia que o público assistirá. No palco, restaram apenas três dos personagens - Antígona, Creonte e seu filho, Hémon. E as muitas tramas de Sófocles se reduziram, essencialmente, à questão militar. A escolha de um foco, porém, não retirou a emoção da obra, acredita Luís Melo. "A dificuldade foi justamente trabalhar em profundidade com pouco, com o essencial. Nessa versão, Creonte aparece sempre em situações extremas."

 

Em primeiro plano, a peça trata do confronto entre Creonte, rei de Tebas. e sua sobrinha Antígona (que será interpretada na temporada paulista por Miwa Yanagizawa). A despeito das ordens do soberano, ela decide enterrar seu irmão, Polinices, que morreu ao insurgir-se contra Tebas e passou a ser considerado um traidor. Mas sua recusa em aceitar os ditames do tirano acabará por condená-la à morte.

 

Claramente coloca-se um embate entre o direito do Estado e a vontade individual, representada pelo desejo de Antígona de dar um funeral ao irmão. Mas aparece aí também, lembra Leme, uma disputa entre duas posições intransigentes. Em sua obstinação, Antígona recusa-se a aceitar qualquer possibilidade que não seja o respeito aos costumes. Creonte representa a modernidade, mas revela-se inflexível. Incapaz de dialogar e acolher a tradição. "Mostra-se até que ponto a intransigência pode nos levar. Assistimos a isso o tempo todo: a guerras que acontecem porque ninguém é capaz de ceder", comenta o diretor.

 

Rockantygona - Sesc Santana. Av. Luiz Dumont Villares, 579, tel. 2971-9700. 6ª e sáb., 21h; dom., 19h30. R$ 20. Até 14/11.

 

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