Antigamente

Descer do bonde em movimento era uma das obrigações da juventude, quase uma prova de macheza

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2018 | 02h00

O último bonde para o bairro onde eu morava, em Porto Alegre, saía do centro da cidade à uma da madrugada. Aos sábados, tinha um que saía mais tarde. Aos sábados, depois da sessão da meia-noite dos cinemas, a gente corria para não perder o último bonde. As sessões da meia-noite, muitas vezes, eram de filmes “científicos”. Era a sacanagem que ainda não ousava dizer seu nome. 

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Os adolescentes que hoje têm sexo em profusão sob os seus dedos não sabem o que era a nossa busca desesperada pela mulher nua. Aparecia um seio da Martine Carol num cinema e lá estávamos nós, tentando convencer o porteiro que já tínhamos 18 anos. As coxas da Silvana Mangano em outro, e corríamos para lá. Tínhamos vagas notícias de revistas dinamarquesas que mostravam tudo, mas onde encontrá-las? Quando apareciam, eram revistas de nudismo, com fotos de famílias inteiras peladas e nenhuma vovó aproveitável. 

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Não me lembro bem do que tratavam os filmes “científicos”, mas acho que eram alertas contra as doenças venéreas, com demonstrações gráficas das suas consequências, portanto mais broxantes que excitantes. Mas quem broxava, naquela época? A adolescência era uma ereção ininterrupta.

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Aquele cheiro metálico dos bondes. Os barulhos que faziam. Os gemidos, o “pscht” dos freios. Nossa admiração pelos fiscais que pulavam de um bonde em movimento para pegar outro, e faziam anotações misteriosas em suas planilhas. O meu bairro era alto e o bonde começava a subir assim que saía do centro. Como era lenta a subida do bonde para o meu bairro. Mas não me lembro de achar que perdia tempo. Aproveitava-se para pensar na vida, ou o que passava por pensar na vida, na adolescência. Nada como um bonde lento para meditar sobre o significado de todas as coisas. Sempre achei que se a linha do meu bairro fosse um pouco mais longa eu teria decifrado o Universo.

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Descer do bonde em movimento era uma das obrigações da juventude, quase uma prova de macheza. Mas o desafio maior era subir no bonde em movimento. Corria-se de costas ao lado do bonde, agarrava-se com uma mão a barra vertical da porta, pulava-se girando o corpo no ar e caía-se com um pé no estribo, virado para a frente. Havia o perigo de cair embaixo do bonde, mas quem diz que na província não havia aventura?

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Nos filmes musicais, sempre que alguém começava a cantar, passava um murmúrio de impaciência pela plateia. As músicas não era bem-vindas nos filmes musicais daquela época. Beijos na tela eram recebidos com o grito de “Gol!”. E o máximo do humor era espantar o pássaro da apresentação da Condor Filmes (“Xô!”, “Te manda!”). Acho que algo mudou na nossa alma quando paramos de espantar o condor.

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As mulheres que hoje reagem, com razão, ao desrespeito machista não sabem como era comum nos cinemas, antigamente - pelo menos em Porto Alegre -, qualquer mulher bonita que aparecesse na tela ser recebida com um ruído estranho produzido pelos homens na plateia, uma mistura de aspiração e sugação barulhenta que, supostamente, descrevia o que fariam com ela, se a pegassem. Todos os homens faziam o mesmo, as mulheres que aguentassem. 

 

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