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Antes do amanhecer

Pegava o ônibus às cinco da manhã, atravessava vários bairros de São Paulo e chegava à rodoviária antes do amanhecer. Às vezes saltava na Avenida Ipiranga e andava por ruas que eu havia percorrido no mês anterior, gritando palavras pela liberdade. Só mais tarde alguém notava a ausência de um amigo, que podia estar encarcerado no edifício de tijolos aparentes ou em outra delegacia.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2013 | 02h08

Fazia frio naquela madrugada de agosto, e lá se vai um quarto de século. Ainda vejo as mulheres na Rua do Triunfo, algumas sem agasalho, à espera de um carro, nem que fosse táxi. Há poucos homens nas ruas: bêbados caídos no Largo General Osório e trabalhadores humildes que se dirigem à Estação da Luz; alguns vão para onde vou: a rodoviária de São Paulo, coberta por gomos coloridos de acrílico, abrigo de tanta gente que vem de muito longe para sonhar e trabalhar aqui.

No guichê da viação Pássaro Marrom comprei a passagem para o Vale do Paraíba; depois, na tabacaria Citaba, conversei um pouco com o velho Edmundo. Quando um grupo de nordestinos se aproximou, o velho Ed lhes deu cigarros: que vendessem lá embaixo, na porta dos hotéis e na entrada da Sorocabana.

Caminhei a esmo pelas plataformas de embarque, tomei café e conhaque para matar de uma só vez o frio e o sono. Seis e cinco no relógio da torre da Sorocabana. Os gomos de acrílico filtravam uma luz baça: São Paulo talvez amanheça também para os passageiros insones e mendigos exaustos. Não longe dali, o edifício escuro e sinistro, vigiado por homens armados.

Comprei um jornal e desci à plataforma número quatro. Li as manchetes e observei os rostos na manhã ainda indecisa. Quando ia abrir o jornal, um ônibus verde metálico apareceu na plataforma A4 e parou. Destino: Brasília. Cortinas escuras vedavam várias janelas, e na última vi um rosto pálido, os óculos de lentes grossas e aros pretos, olhos azulados e meio embaçados. Ergui as mãos, sem ter certeza de que era ele. Não olhou para mim: parecia ausente. Me aproximei da janela: ele me olhou com tristeza ou cansaço e percebi que podia ser outro...

O motorista fechou a porta do ônibus, a fumaça escureceu a plataforma, o ronco do motor e uma buzina estridente anunciaram a partida. Ele ainda virou o rosto para o banco onde eu estava sentado, e pela última vez pensei que podia ser meu amigo.

Pouco depois, na beira da Via Dutra, vi trabalhadores agachados ao redor de uma fogueira. O dia cinza e frio de agosto não queria amanhecer...

Recordei que ele havia desaparecido em outubro de 1973, e eu viajava para Taubaté numa manhã de 1978. Ele não teria viajado livremente a Brasília, onde tinha sido caçado. Não voltaria à UnB, de onde fora banido para sempre.

A rodoviária não é mais ali, e o edifício grandioso e sinistro perdeu seus cárceres e corredores escuros. Os assassinos de Honestino andam soltos e impunes por aí? Ainda riem dos que foram torturados e jogados no fundo da terra calcinada? Ou são apenas fantasmas de uma história infame?

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