Antes da tempestade

Isto não deveria acontecer. Estou escrevendo minha coluna no começo da semana, tentando terminá-la antes de o furacão Sandy cortar a eletricidade. Se as previsões do tempo estiverem corretas, tenho cinco ou seis horas antes de ventos de 140 quilômetros por hora derrubarem árvores e as atirarem sobre os postes e fios da rede elétrica. Tempestades como esta simplesmente não ocorrem em minha parte do país. Se o Sandy se revelar tão terrível como os especialistas preveem, teremos um tempo que não se viu igual por aqui em quase 100 anos.

LEE SIEGEL, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2012 | 02h09

Fomos apanhados de surpresa. Foi uma correria no fim de semana - estou escrevendo este texto na segunda-feira, 29 de outubro - para comprar uma lanterna (os garotos perderam ou quebraram as que tínhamos) e fazer um estoque de comida enlatada e água engarrafada. Meu maior medo é que os ventos fortes arrebentem a grande janela de vidro na sala de visitas, deixando a água entrar na casa. Nem seria preciso dizer, a mais fervorosa esperança de meu filho de 6 anos é que os ventos fortes arrebentem a grande janela de vidro da sala de visitas, criando um espetáculo aterrador de desastre. A bem da verdade, depois do que ele e sua irmã de 2 anos fizeram com os móveis, um furacão na casa é quase redundante.

O momento é estranho. Enquanto a gigantesca tempestade faz seu lento e tortuoso percurso rumo à Costa Leste, e os ventos sopram lá fora e a chuva começa a fustigar as janelas, outro evento inesperado está se passando. Mitt Romney está fazendo seu lento e tortuoso percurso rumo à Presidência. O candidato, que já foi motivo de chacota tanto para liberais como para conservadores, está empatado com o presidente e ganhando de Obama nos Estados indecisos que decidirão a eleição.

Do lado de fora de minha janela, folhas douradas e escarlates rodopiam na rua escurecida. O vento amainou. A chuva parou. Paira sobre tudo uma estranha calma, cativante e ameaçadora. A sensação de ficar suspenso no espaço e no tempo me deixa irritado.

O prefeito Michael Bloomberg ordenou a retirada de suas casas de quase 400 mil pessoas que vivem na costa ou ao longo de rios em Nova York. Linhas de metrô foram fechadas. Os trens que ligam a cidade aos subúrbios deixaram de funcionar. E, no entanto, dias antes de a mãe natureza fazer a cidade se recolher, a cidade havia sido traumatizada pela natureza humana. No Upper West Side, uma mãe trabalhadora voltou para casa e encontrou seus dois filhos mortos, esfaqueados pela babá, que sobreviveu à sua tentativa de cortar a própria garganta após ter cometido os assassinatos. O fato é inenarrável. É inimaginável. Ninguém sabe o que fez a babá surtar. Ela havia tido alguns problemas de dinheiro, mas estaria, segundo disseram, em excelentes termos com a família que destruiu.

Agora, mães de todo o país vivem aterrorizadas. As mulheres devem poder seguir suas carreiras e vocações com segurança. A pessoa em quem você confia seus filhos deve, supostamente, protegê-los. Referências, pesquisa de antecedentes, intuição, tudo isso garante que você encontrou uma pessoa confiável. Os guardiães supostamente não devem se voltar contra aqueles a quem guardam, especialmente inocentes vulneráveis como as crianças. O fato impensável no Upper West Side não deveria ocorrer. Babás deveriam ser tão confiáveis quanto a polícia.

E então, um choque: um policial de Nova York, Gilberto Valle, lotado no Upper West Side, foi acusado de canibalismo. As autoridades descobriram um arquivo em seu computador intitulado Sequestrar e Cozinhar, no qual detalhava seus planos para sequestrar, cozinhar e comer mulheres. "Cozinhe-a em fogo brando, mantenha-a viva o máximo de tempo possível", ele escreveu a alguém que as autoridades descrevem como um coparticipante da conspiração. A advogada de Valle alega que seu cliente estava apenas se entregando a algumas fantasias doentias, mas isso parece improvável. A procuradora federal encarregada do caso contra Valle diz ter provas de que ele usou uma viatura policial para seguir uma mulher, e, de fato, a abordou em um ponto "de maneira intimidadora".

"Quis custodier ipsos custodes?", perguntou o poeta romano Juvenal. "Quem guardará os próprios guardiães?" À medida que as pessoas parecem recuar cada vez mais para as zonas psíquicas internas privadas, e fragmentadas, e a sociedade parece cada vez menos capaz de regular comportamentos aberrantes, o que acontecerá com os indivíduos a quem confiamos nossas vidas - a quem conseguiremos recorrer se não a babás, a policiais, ao próprio presidente americano?

O vento engrossou e a chuva está começando a ficar novamente torrencial. Dizem que a confluência de uma frente fria vinda do Oeste com os vapores das águas quentes do Sul trazidos pelo furacão e a Lua cheia, que aumentará as marés, criará uma tempestade monstruosa, transfigurando um outono radiante - uma estação em cuja beleza inspiradora de devaneios se pode confiar - num vórtice devastador. Isso não deveria acontecer. Mas está ocorrendo.

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